O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pesadelo no Mercado de Hakaniemi (conto de Natal)

Tinhamos decidido: eu iria ao mercado de Hakaniemi no dia 23. Ou seja, na manhã seguinte. Ajustei o alarme do celular pra bem cedinho, separei a mochila surrada, coloquei o cartão do banco perto do cartão do ônibus e da chave do apartamento na mesa da cozinha. Assim, tudo o que precisaria estaria no caminho quando acordasse. Num pedaço de papel, a lista do que precisaria: salmão defumado, salmão fresco, silli (herring nórdico) em conserva, presunto assado e queijos.

As compras em Hakaniemi são uma tradição compartilhada por muita gente em Helsinki. Por isso é bom ir cedo: o lugar é pequeno e a quantidade de gente é enorme. Isso acaba gerando um empurra-empurra muito desconfortável. Fui dormir me preparando psicologicamente para a aventura do dia seguinte.

...

No susto acordei e pulei da cama. Não ouvi o alarme. Fui pra cozinha, abri a janelinha 23 do calendário do advento, troquei de roupa, engoli duas fatias de ruisleipää com suco de frutinhas da floresta, peguei o que precisava, vi o horário do próximo ônibus pra Hakaniemi e saí. 20 minutos depois cheguei na praça onde fica o mercado.

Como eu tinha dito, fazer as compras de Natal no mercado de Hakaniemi talvez seja uma das maiores tradições desta época do ano na capital da Finlândia. Aberto em 1914, o mercado hoje é reconhecido por ter lojas tradicionais especializadas com produtos frescos e de ótima qualidade. E o Natal talvez seja o seu auge comercial. Quase todo mundo vai lá: idosos, jovens e crianças. Todos atrás do frescor dos produtos e da experiência de manter a tradição viva mesmo que custe um pouco mais caro do que as cadeias de supermercado. Em geral, o mercado de Hakaniemi é um lugar muito agradável com seus aromas, sabores e receptividade. Mas o Natal é um caso a parte. Por isso eu fui preparado.

Antes de entrar, encontrei um cantinho vago para amarrar meu espírito natalino. Como todas as outras pessoas lá dentro, ali fora do mercado eu deixei minha gentileza, educação e cordialidade presos num cadeado vermelho. Em seguida, tirei um soco-inglês do bolso, frangi os olhos e entrei.

Assim que passei pela primeira porta, vi que esse ano seria intenso. Ao passar pela loja de doces, uma velhinha com capacete de goleiro de hóquei me jogou pra longe. Ela estava correndo para fora com o presunto de Natal embaixo do braço. Quando tentei levantar, meu pé foi puxado com o guarda-chuva por um velinho que vinha atrás de mim. Caí e levantei, mas o velho entrou primeiro. Rindo.

Parecia que toda Helsinki estava ali. Os corredores devem ter uns dois metros e meio de largura. Nesse espacinho, tem a fila de gente que vai, a fila de gente que vem, todos aqueles que param nos balcões das lojinhas e os sem noção que param no meio do caminho sem motivo aparente.

Espremido, tentei chegar na loja de peixes. Para minha sorte, uma velhinha passou abrindo caminho com sua bengala catucando canelas, espremendo dedões e acertando as partes baixas de um ou outro valentão que se recusava a deixar ela passar. Colei atrás dela e logo vi o balcão com os salmões. Mas como chegar perto com tanta gente na frente?

Com o soco-inglês, dei um murro no cliente da esquerda e com o cotovelo dei um chega-pra-lá na moça que estava prestes a fazer o pedido. Encostei o umbigo no vidro quando o vendedor gritou: "Seuraava!" (próximo!). Rapidinho eu gritei "minä!" (Eu!) e fiz meu pedido. Me empurrei para trás, coloquei os peixes na mochila e mirei a loja de presunto.

Mais uma vez, dei sorte. No corredor, dois homens trocavam ofensas. Na loja do lado, a mais tradicional, tinha só um salmão finlandês. O resto era norueguês. Eles brigavam pra ver quem levaria o melhor peixe (o finlandês, é claro). Nisso uma multidão se espremeu na frente da loja gritando "kotimainen! kotimainen!" ("Local!Local!") num protesto por mais salmões finlandeses.

Com o clarão aberto no caminho, cheguei rapidinho na loja de carne e comprei o presunto. Mas quando peguei meu cartão e tentei sair, um homem alto e braçudo me empurrou pra cima do balcão de compotas da loja vizinha. Tonto, limpei a geléia de framboesa do casaco, tirei os cacos de vidro do rosto e ensanguentado fui pra loja de queijos. Como eu parecia que estava bêbado, todo mundo se espremia pra deixar eu passar.

A loja de queijos é a mais popular e por isso tem fila dupla: uma pra esquerda e outra pra direita. Num momento de agilidade, empurrei o primeiro de uma fila e dei um chute no outro. Com o efeito dominó dos dois lados, não foi difícil comprar o queijo. Sorri, mas não por muito tempo: o povo das duas filas se juntou, me encheu de sopapos e me jogou na rua. Desmaiei.

...



O alarme tocou e eu dei um pulo. Passei a mão no rosto e não vi sangue. Não senti dores no corpo. Aliviado por perceber que tudo tinha sido um pesadelo, levantei, fui pra cozinha e me preparei pra sair. Quando cheguei à Hakaniemi só sabia sorrir apesar do empurra-empurra e da falta de educação. No sacrifício, comprei as coisas e saí jurando que nunca mais voltaria lá nessa época. Do mesmo jeito que fiz no ano passado. Quer saber? Acho que o sufoco das compras de Natal também seja parte da tradição do mercado de Hakaniemi. No fim, com ou sem sofrimento, vale a pena: tudo lá é muito fresco e gostoso. Se vier à Helsinki, não deixe de passar lá pras compras de Natal. E não esqueça o porrete. Brincadeirinha. Paciência basta.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Sensatez do Silêncio

Ontem teve um minuto de silêncio numa partida de futebol aqui em Lahti. O Estádio lotado parou em homenagem às vítimas da Noruega. É um sentimento estranho estar tão perto. Não tenho lido quase nada porque a rua explodida parece com as ruas de Lahti ou Helsinki. Porque já estive numa ilha ou lago parecido com aquele onde estavam os jovens. Porque fico imaginando a angústia e o desespero reinando num ambiente tipicamente tranquilo. Porque imagino que levará tempo para recuperar esse sentimento pleno de paz e segurança. Por isso não quero saber o que o criminoso pensa ou seus motivos. Não quero olhar pra cara dele e vê-lo sendo imortalizado a cada matéria que divulga seu nome. Não quero ajudar a motivar outros malucos a fazer o mesmo (porque isso vai acontecer de novo em algum lugar, infelizmente, e esse tipo de cobertura só ajuda a agilizar o processo). Mas o que dizer num momento desse? Não sei. Por isso o silêncio no estádio de Lahti foi um dos momentos mais sensatos desta semana triste. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O álcool e a azaração na Finlândia

Saí com uns amigos pra dançar ontem aqui em Lahti. Nos primeiros minutos, fiquei parado na pista de dança reparando como os finns (aprox.) entre 20 e 35 anos que estavam ali paqueravam (não lembro um termo menos brega...rs). Foi interessante ver como o álcool tem um papel importantíssimo no processo de acasalamento da solteirada. Pra bem ou mal.

A maioria das meninas finlandesas naquela pista pareciam bêbadas, mas naquele estilo "porre feliz." Dançavam e sorriam com as girlfriends, se abraçavam, sorriam em direção aos caras que as interessavam, mas nada ao estilo "vem ni mim que sou facinha." Como as finlandesas se produzem muito bem para sair, a imagem que elas passavam era de controle total do pilequinho.

Controle que faltava a alguns finlandeses homens. Haviam os moderados, que ficavam no canto batendo papo com os amigos enquanto desciam uma cervejinha. Mas no meio da pista o ritmo era outro. Ali o porre de alguns caras daria pane em bafômetro. E estes doidos eram os mais indiscretos nas cantadas. O que é irônico: muitos pareciam se aventurar ao pé do ouvido quando nem conseguiam ficar mais em pé direito. Imagina pra falar? É entre esses que surgiam as cenas mais constrangedoras.

Tinha um camarada enorme que se chegava nas meninas como se fosse um Boneco de Olinda: endurecia o corpo pra não demonstrar que estava bêbado e cercava a menina com braços abertos tipo siri. Outros inclinavam o corpo pra falar com as meninas e derramavam a bebida pra tudo que é lado. Entre casos diferentes de comportamento manguaçado eu reparei uma coisa interessante. Aquele lance que nós brasileiros adoramos de dar cantada colocando a mão no ombro ou na cintura aqui não rola. Contato físico parece sinônimo de intimidade e não de simpatia cretina, como é pra muita gente no Rio, pelo menos. Mas foi com contato que se deu a cena mais patética da noite.

O mais bêbado de todos, aquele que vagava feito zumbi, se aproximou e inclinou pra conversar com uma menina. Não sei como, mas ele perdeu o equilíbrio e ploft! Abriu aquele clarão no salão, típico de brigas no Brasil. Quando olhamos, ele caído e rindo de um lado, ela levantando rápido envergonhada e sumindo do outro. Ajudado, ele levantou, riu e continuou sua saga de morto-vivo no salão (ele ainda estava lá quando fomos embora bem mais tarde).

Resumindo, beber para ter coragem pra paquerar, como dizia vovó, é normal em todo o mundo. Pessoas malas também são. Mas a impressão que tive ontem é de que naquela pista daquele bar a proporção de caras chatos e muito bêbados era alta em relação aos que de fato estavam curtindo. Acho que não dá pra generalizar e dizer que "finlandês é assim." Mas parece que aqui o álcool é muito mais essencial pra azaração. Afinal, finns em geral parecem muito tímidos e reservados. O problema de muitos é não saber encontrar o limite entre drink social e pagação de chacota.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tempo de Pikkujoulu (ou entre relacionamentos no Brasil e Finlândia)

"[...] Sabe aquelas coisas que não se pode fazer no Brasil? Imagina, falar pro meu marido: 'vai cozinhar, toma conta das crianças aí que eu vou pra rua com minhas amigas e chegar as 5 horas da manhã'. Imagina, dá certo isso, filha?"

Dá. Não só na Alemanha, onde mora a carioca Sandra, que deu esse depoimento para um documentário sobre brasileiros vivendo em Munique. Tenho percebido esta como uma das grandes diferenças entre meu Brasil e minha Finlândia (ou seja, as partes das sociedades que vivo e observo): mulheres aqui, nativas ou não, geralmente podem muito mais. 

Há algum tempo, eu escrevi sobre a força da tradição feminista do país e algumas consequências não-tão-cívicas no cotidiano. Nesta época das festas de fim de ano, outra tradição demonstra o quanto a relação entre homens e mulheres aqui pode ser bem diferente do que no Brasil: o pikkujoulu, as festas de Natal entre colegas de trabalho onde pra muitos o lema é  beber até cair e, se der, levantar pra continuar bebendo. Mas, diferente do meu outro post-conto sobre isso, eu não vou falar da biritagem. Antes, porém, vejamos pelo lado de lá do Atlântico Sul.

O Brasil é um país machista demais. Ironicamente machista ao ponto de muitas mulheres (como algumas amigas minhas) se aceitarem como donas-de-casa porque "a vida é assim." E não é só uma visão das que vivem a colar o umbigo no tanque. Pra muitas mulheres que trabalham fora esse é o preço da vida profissional: correr atrás da carreira e cuidar da casa, como minha mãe fez por muito tempo. E o homem? Muitas ainda tem a idéia de que uma característica de "marido bom" é ajudar nos afazeres. Só que a mãozinha caridosa tem limites. Quantos homens você vê sozinho passeando com neném nas ruas brasileiras, por exemplo? 

Fato: numa sociedade extremamente patriarcal, compartilhar os perrengues domésticos não é da nossa cultura. Em relação à curtição, as regras também parecem claras. Se você está num relacionamento, sair sozinho(a) é dar mole ou querer ter experiências além-cerca. E, pra variar, quem sofre mais com isso são as mulheres. Afinal, homem ("tudo safado", como dizem por aí) dar uma saidinha é normal. Mas, como disse a Sandra, dá pra imaginar a mulher saindo pra uma girls' night enquanto o marido fica (por consenso e sem pensar em forra) em casa? Pois é. O pikkujoulu é só um exemplo dessa diferença entre a Finlândia e o Brasil que eu conheço de viver, ver e ouvir falar.

É muito comum ver mulheres na Finlândia saindo pro barzinho ou uma noitada com amigas ou, como no caso do pikkujoulu, com os colegas de trabalho. Para meus amigos isso não parece ser problema. Se têm filhos, eles ficam em casa cuidando das proles porque é obrigação deles também. Cenas de ciúme ou aquela sensação de relação abalada por essas saídas? Nunca vi nem percebi (talvez por finlandeses serem muito reservados e discretos). As vezes, algumas amigas minhas saem, bebem e no meio da noite ligam para o maridão ir buscar.  Imagina como esse cara seria chamado no Brasil? Pois aqui os homens não são considerados patetas ou submissos por isso. Também não quer dizer que sejam todos santos. O pikkujoulu é reconhecido como a época onde muitos homens e mulheres bebem e se pegam com algum colega (e a ressaca moral dura por muito tempo). Mas em comparação com o Brasil, o respeito (mútuo e de outras pessoas) é bem mais visível e praticado pelas bandas de cá.

Aqui eu nunca tive "disputas neandertais", por exemplo. Sabe aquela situação onde um cara vê a mulher com outro cara e decide tentar ganhá-la? É isso. Por atração à mulher, lógico, mas principalmente pra mostrar poder em relação ao outro macho. Não sei como é entre as mulheres, mas entre homens no Rio o bicho pega. Várias vezes, deixei companhias sozinhas pra comprar uma bebidinha e, ao voltar encontrei camaradas gastando o "larga esse cara e vem comigo, gatinha" Naqueles meus tempos macholinos, já reagi de várias maneiras: querendo brigar com o cara, dizendo um cínico-puto "sem chance, palhaço" e as vezes reclamando com a menina por ela dar confiança. Ou seja, não ciúme, mas orgulho e sentimento de posse ferido do território sendo ameaçado. Sim, igual cachorro. Felizmente mudei. De qualquer forma, nunca passei por nada parecido aqui com a linda (♥) Wife.

Enfim, tudo isso pra dizer que aqui eu vejo mais respeito e confiança entre casais do que no Rio. Ou será que a falta de respeito e de confiança não aparecem por conta da independência feminina típica na Escandinávia?  Ou será que a traição é uma coisa menos dramática aqui do que na terra das novelas? Como o ciúme se manifesta na Finlândia? Enfim, é pra observar e pensar. Ainda assim, seja no pikkujoulu ou em qualquer época do ano, é bacana ver muitos relacionamentos com companherismo a ponto de entender e respeitar a necessidade que temos de as vezes fazer nossas próprias coisas, com nossos próprios amigos. Afinal, como diria aquela aplicação no facebook:


Amor não é ter alguém ao nosso lado o tempo todo pro resto da vida.
O nome disso é prisão perpétua.
Amor é outra coisa. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Chegada do Inverno na Finlândia (ou A Vingança das Formigas)

"[...] Agora eu sei! Agora eu sei o que vocês formigas sentiram naquela época", pensei ter dito ao acordar hoje de manhã depois de uma noite muito mal-dormida. Mas aqui em casa não têm formigas, por que eu estava falando com elas? Espremi a caixinha fresca de suco de laranja com manga e tentei lembrar o porquê dessa loucura.

Quando eu era bem pequeno, eu gostava de fazer uns experimentos bizarros numa mistura de curiosidade e crueldade infantil. Nada muito grave, talvez mais cruel na época do que agora. Por exemplo, quando eu via uma barata eu dava só um tapinha com as havaianas para imobilizá-la e depois arrancava a cabeça com um palito de picolé pra ver o que acontecia. Ou seja, era nojento, mas não covarde ou brutal (desculpem-me os que amam e lutam pela preservação das baratas). Nunca tive coragem de ser o carcará de Bethânia e pegar, matar e comer as rãs que "pescávamos" nos brejos mageenses. Fazer maldade com gatos ou ratos então (como alguns pestes faziam), nem pensar. Mas os insetos, estes sim faziam um sacrifício-mor pelo bem do meu conhecimento. Que o digam as formigas.

Eu lembro de sentar no paralelepípedo da calçada e esperar até que aqueles formigões saíssem de trás dos raminhos de capim que cresciam entre a pedra e a rua. Daí, com a unha maior do que mãe permitiria, eu as pegava cuidadosamente e as colocava num copinho. A maioria das vezes, eu só olhava enquanto elas davam círculos sem fim no vidro. Outras vezes eu as jogava dentro da camisa de alguém pra ver se fazia cosquinha.♥

Mas eu gostava mesmo era de testar a resistência das bichinhas ao calor e ao frio. "Quanto tempo elas duram?", eu repetia sozinho antes de caminhar pra cozinha. Lá, eu abria a geladeira e o congelador, que sempre depois de descongelado parecia com minha idéia de Alaska: uma camada de gelo fino e aquela névoa fria se perdendo no horizonte. Daí, eu pegava uma formiguinha e sussurrava: "vai ao final e volta. Se voltar, eu te tiro" Com muito cuidado, eu as colocava no chão de metal frio. Um passo, dois, três...congelavam. Quando mãe fazia bolo, eu tentava o mesmo no forno, mas nesse caso nunca teve um passo sequer. "Bicho fraco!", pensava. Agora eu sei.

O inverno finalmente chegou na Finlândia. Semana passada, em uma só noite caiu neve o suficiente pra fazer todo motorista soltar um sonoro "Taquilpariu!" Aqui em Lahti foram quase 10 centímetros de neve que ainda está nas ruas. A temperatura finalmente se mantém abaixo de zero. É muito frio, mas dos males o menor, porque não chove. Tirando o vento de rachar a cara que vem eventualmente, é um tempinho suportável. E a neve dá uma claridade extra pros dias curtos e sem sol. Além disso, tem o fator que muitos brasileiros não entendem: todas as casas tem aquecedor, então dentro de casa os dentes não se batem. O problema mesmo é a mudança de tempo. O outono é frio, mas nem tanto. Daí, com qualquer agasalho se safa enquanto os aquecedores ficam a meia-pressão. Mas é na mudança de estação que eu sinto no corpo o sofrimento dasquelas formigas.

Se não me engano, todas as casas têm termômetros nas janelas. Além disso, o serviço de previsão do tempo online é bem preciso. Tudo isso pra você saber onde estará se metendo ao passar pela porta. O problema é que sempre tem o fator psicológico de resistência ao frio tipo acho que dá:  "acho que dá pra ir só com esse moleton", "acho que dá pra ir sem luva", "acho que dá pra ir sem toca"... e aí, se estrupia. Nos dez primeiros passos tudo vai bem. Mas aí a orelha começa a esfriar, o vento passa entre os panos e vai até o osso, o ser se encolhe como...formiga (!!!), puxa a gola da camisa e faz bafo pra ver se esquenta. Nada. Os dedos enrugam, pinicam e doem de frio. As beiças racham como sertão e os olhos esbugalham bolados: "nem cheguei na esquina!" Ou seja, a adaptação à transição entre o frio e o "frio pra caralho" é que doi, literalmente. Essa mudança também afeta dentro de casa.

Eu e a Wife moramos numa pienkerrostalo, um tipo de casarão de madeira dividido em apartamentos para alugar (tipo esse da foto). Neste caso, não temos o poder de ligar os aquecedores. Eles ligam numa central. Mas temos um botãozinho que controla a intensidade de calor dentro de casa. Lá em Outubro, quando começou a esfriar, a central ligou os radiadores, mas na potência fraca. Como ainda estava meio frio, o que fiz: rodei quase todos os botãozinhos para o máximo. Mas nessa semana, com a queda da temperatura, a central aumentou a potência do aquecedor e não avisou. Ou será que as formigas roeram os avisos?! Só sei que ontem, quando fui dormir senti aquele bafo quente quando entrei no quarto. Pensei que era por ter acabado de vir do quintal. Deitei e me cobri. 10 minutos depois, isolei a coberta e as meias. Só de short e descoberto, dormi. Sonhei que o travesseiro me sufocava. Sonhei que o mundo tinha secado (dava pra ir ao Brasil de ônibus!!!). Acordei com dor-de-cabeça, o pescoço doendo, a garganta seca e suado horrores. Rolei, diminui a temperatura e liguei meu ventilador com vento na minha cara. Aí sim meu sono durou, mas tive outro sonho muito esquisito. 

Sonhei que fui para o inferno. Lá, ao invés do cramulhão clássico, eu vi uma formiga gigante com chifres olhando pra mim meio com raiva, meio com gozo. As milhares de obreiras riam agudo de fazer eco nas profundezas. Até que a formiga-demo se aproximou de mim e disse. "Tá sofrendo, safadão? Vai pedir pra sair? Pede pra sair!!!" E gritava, enquanto cospia fogo na minha cara. Apavorado, cansado, doído, eu pedi pra sair. Ela gritou, elas vibraram. "Bicho fraco! Vai ficar aqui pra gente ver quanto tempo você dura", disse aquele formigão dos infernos. Eu desesperei, pedi, me humilhei. "Agora eu sei! Agora eu sei o que vocês formigas sentiram naquela época." Até que acordei e regulei todos os aquecedores. Só não consigo parar de imaginar como será a vingança das baratas.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Malditos adultos! Infância, Preconceito e Sexualidade no Brasil e na Finlândia

"Em verdade vos digo", a maior ameaça à pureza das crianças são os adultos. Seja aqui na Finlândia, seja no Brasil. Pelo menos assim concluímos eu e uns amigos ontem ao papear sobre as atitudes das crianças e adolescentes em relação ao preconceito na Finlândia e sexualidade nas terras tupiniquins. No Brasil, até santidades contribuem para o fim precoce da inocência. 

Meus amigos trabalham com jovens e crianças aqui na Finlândia. "Como a molecada se relaciona com os imigrantes no centro onde você trabalha?", perguntei. "O problema são os adultos", a amiga decretou. O outro mais velho complementou: "quando eu era moleque, quase não haviam negros ou pessoas diferentes. Então as pessoas sempre tinham curiosidade, uma curiosidade saudável. Afinal, era  uma situação diferente." Infelizmente, concordaram, tanto naquele tempo como agora tem os idiotas crescidos. "Estes dizem coisas preconceituosas em casa e as crianças repetem na escola sem mesmo saber do que se trata. E isso vai crescendo junto com elas" Felizmente, esta tendência está diminuindo muito. Muitos projetos e ações a longo prazo tem melhorado a mentalidade por aqui. Pelo menos entre os mais novos, ser diferente tem aos poucos deixado de fazer diferença na Finlândia. Que bom, pensei. Pensei: "No Brasil, essa má influência adulta pode ser vista na sexualidade", disse.

Quando cheguei aqui, tive uma baita surpresa ao ver crianças enormes tendo liberdades infantis ao invés da pressão de ser "homenzinhos" e "mocinhas." Os pais e mães finlandeses que eu conheço - talvez dê pra generalizar a partir deles - não forçam seus meninos  a beijar as meninas enquanto gozam "que casalzinho lindo!!!" pela boca. Também não me lembro de ter visto pais exibirem seus filhos e esbravejar "esse aqui vai ser o terror das menininhas" ou repetir "mostra o piruzão pra titia" ao arriar as calças do molecote. As crianças que eu conheço aqui lêem livros e jogam jogos "bobos", vestem roupas coloridas e aprendem desde cedo que têm coisas que elas não podem ver ou fazer porque "não é pra criança" ao invés de serem censurados com um  "não pode porque é feio, pecado e ruim" e pronto. Eu não me lembro de ter ouvido mães ou pais finlandeses dizerem "pode brincar, mas com os meninos não" enquanto elas correm para se divertir na floresta. Ou existe alguma maldade entre crianças de sexo oposto que brincam entre si senão aquela suspeita pecaminosa dos adultos?

Quer dizer, diferente da Finlândia, no Brasil a gente é criado desde cedo sob vários símbolos sutis ou explícitos de sexualidade. Eu tinha uns nove anos e já cantava ♪♫ meu pipi no seu popo, seu popo no meu pipi ♪♫ e ai do moleque que invertesse os pronomes. E o pior é que esses comentários, hábitos ou ações já estão tão enraizados no nosso cotidiano que quem os questiona é ironicamente tido como o maldoso que vê coisa onde não tem. Pra muitos, vai parecer que eu estou exagerando. Eu sei que alguns vão pensar assim porque eu teria pensando assim antes de ter vindo para cá e visto relações diferentes de adultos com a infância. Até mesmo em momentos de purificação da alma, como na confissão católica, eu me lembro de ter sentido a maldade adulta. Mas só me liguei nela como problema ao contar sobre minha primeira e única confissão a Wife. Foi esses dias. Quando falei, ela pulou na cadeira espantada e, com os olhos azuis esbugalhados, gritou: "O quê!? Ele te perguntou isso?"

Perguntou. Eu com nove ou dez anos sentado na cadeira, em frente ao altar de frente pra ele (não tinha o confessionário como nos filmes). Eu cheio de medo, sem graça, cabeça baixa com medo dele me reprovar por ter colocado pó de mico no ventilador da escola, ou por ter quebrado a janela do vizinho com a bola de futebol. Eu com pavor de todas as imagens de santos e santas me olhando por todos os lados enquanto a luz vermelha do sacrário indicava que Cristo estava ali pra ouvir eu admitir que tinha falado palavrão ou roubado umas moedas da bolsinha da minha mãe pra comprar bala. Qual pecado será pior pra um moleque de nove, dez anos? Logo descobri.

"Você já teve penetração com alguém?", ele perguntou. Eu sabia o que ele queria dizer pois, com nove ou dez anos, já sabia o que era saliência porque algum adulto já tinha me falado que isso era pecado dos brabos. Mas também já sabia que era humilhante pra um homenzinho admitir não ter tido a experiência.  Imagina se os coleguinhas mais velhos da escola descobrissem? "Sim", menti.

"Com um menininho ou uma menininha?" ele continuou. Eu já sabia que saliência com outro menininho era fazer meinha, e meinha era coisa de bichinha. E ser bichinha era humilhante para um homenzinho de nove ou dez anos. "Menina", menti.

"Pela frente ou por trás?", ele continuou. Minhas mãos suavam. Qual era a diferença entre "frente" e "trás"? O que era menos pecado? "Frente", chutei. O padre deve ter ficado aliviado. Eu não. Me senti péssimo, com medo de Jesus saber que eu pecava ao inventar pecados. Mas melhor pecar com pose de homenzinho feito do que fama de mariquinha, essa foi minha lógica com nove ou dez anos.  "Ide em paz, meu filho", encerrou os procedimentos e chamou o próximo pecador infanto-juvenil.

Não lembro da minha penitência, mas sei que nunca mais me confessei. Só que por muito tempo me puni por ter mentido ao santo padre que só queria meu bem. Até ouvir o "quê?!" da Wife. Aí que me liguei que se tive uma infância repleta de pensamentos sexuais e preconceituosos foi porque alguém - como este malicioso  homem de batina e os pais abitolados finlandeses - confundiu minha visão de mundo. Reclamamos muito do fim da inocência e da pureza das crianças no Brasil. Foi aqui que vi que tudo não está perdido. Na Finlândia que eu vivo (há outras bem diferentes, não esqueça) eu me liguei que as crianças podem permanecer inocentes e puras, e crescer respeitosas e maduras, se nós, malditos adultos, não as contarminarmos desde cedo com nosso próprio pus.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Graças a Deus? Aborto e Casamento Gay também rendem na Finlândia.

"Ele está no meio de nós", respondíamos alto ao padre na missa de cada domingo em meus tempos idos de católico. Quando moleque eu sempre olhava pros lados pra ver em que lugar da igreja  Ele estava.  Hoje eu não o procuro mais. Mas a cada vez que vejo as notícias recentes do Brasil e da Finlândia, acredito que Ele esteja isolado, ouvindo as arpas celestiais lá no paraíso para não ter que ouvir Seu nome sendo usado tão em vão por aí.

No Brasil, há uma e-inquisição obrando forte online e offline para queimar a candidata à presidência. Uma onda nacional uniu igrejas cristãs rivais pra tacar fogo no dia... digo, na "diaba vermelha abortista e pró-gays" e seus seguidores/eleitores.

Por aqui, na Finlândia, radicais cristãos participaram de um debate na TV esses dias e  reafirmaram com veemência suas posições anti-homossexuais. O assunto por aqui está rendendo e qualquer semelhança com as discussões no Brasil não é mera coincidência.

A polêmica líder do partido Democratas Cristãos, Päivi Räsänen, é a pivô das discussões e porta-voz dos cristãos mais tradicionais. Contra a união civil de homossexuais, Räsänen disse esses dias: "[...]casamento e o direito de adotar crianças é coisa entre homem e mulher, e é assim que está na lei no momento". Ela também disse: "Nós não colocamos o casamento entre sexos na pauta das eleições. Mas o Partido Verde o fez ao colocar o assunto no programa de políticas governamentais. Nosso objetivo é bloquear essa ação nas próximas eleições".

Räsänen também se mostra contra o aborto, que é legal por aqui não só em casos de risco ou estupro, mas por questões socio-economicas (gravidez adolescente ou falta de condições (€) do casal para manter uma criança). Ela diz: "A vida deve ser protegida mesmo quando ela é pequena e frágil. A vida começa na concepção, e a legislação atual não protege a vida do bebê ainda não-nascido".

Se você está acompanhando as eleições no Brasil (ou se tem Facebook, Orkut ou qualquer tipo de vida social), você já ouviu conversa semelhante. Só que ao contrário da adesão em massa brasileira aos valores tradicionais cristãos, a repercussão por aqui após o programa foi tão ruim que quase 30 mil pessoas (e aumentando) se desvincularam oficialmente da igreja Evangélica Luterana (igreja nacional ao lado da Igreja Ortodoxa Finlandesa).

A diferença aqui é que grande parte da população (tendo se desvinculado ou não da igreja) está com a Primeira Ministra Mari Kiviniemi ao considerar que política e religião não devem se misturar. Tipo, não é papel da igreja definir leis assim como não é papel de políticos definir pecados. Por isso muitos não tem nem paciência pra ouvir as opiniões extremistas da Räsänen. Mas no Brasil é o contrário. Para muitos, ser radical é ir "contra as leis de Deus". Por lá, ser sensato como a Kiviniemi é carimbar o bilhete de ida pro inferno com direito a leito de mármore e tudo.

E eu fico me perguntando se esse tipo de visão extrema, pouco realista e ultrapassada (além de enxerida, pois o que tem a igreja a ver com decisões e opções pessoais de cada um?) tem o aval de Deus. Infelizmente, Ele não foi encontrado para dar declarações sobre o assunto.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Culturas da cerveja [e a vida que queremos para nós]

Gosto de beber um chopp ou mais como tantos outros por aí. A Brahma, lá em casa, só não é soberana na geladeira porque a mãe não deixa de querer sua parcela de Skol dentro da bolsa  de feira surrada que vem diariamente do Bar da Helena fazendo aquele barulhinho de garrafas se batendo. De qualquer modo, clara ou escura, a cervejinha é uma paixão familiar. Mas aqui na Finlândia eu quase não bebo. Não quero.


Não se enganem, colegas de copo: há cerveja na Finlândia. De sede de cevada não se morre nessa terra. Também não suspeitem dos gostos, pois há cervejas boas e ruins de tudo que é canto do mundo (leia-se Europa, Australia e Tailândia). Também não é só a questão do preço. Beber em um bar geralmente é caro. Imagine-se pagando uns 8 reais por uma caneca (500ml). Mas comprando no mercado e levando pra casa não é tão ruim. Neste caso, o preço cairia pra uns 2, 3 reais. Tem as mais baratas ainda, geralmente importadas (e boazinhas) que sairiam por 1 real mais ou menos. Ainda assim, os tantos quilos que perdi,muito provavelmente se devem ao fato de eu passar semanas sem tomar umazinha sequer. Ou seja, tive que vir para a Finlândia pra perceber que cerveja pra mim é pura cultura.

Veja minhas razões típicas pra não querer ir à bares aqui, por exemplo. "Não vou àquele pub porque é muito barra pesada", geralmente me referindo à bares que tocam rock antigo e ficam cheios de camaradas de meia-idade lamentando as mazelas da vida e eventualmente quebrando copos e garrafas na cabeça alheia. "Não estou afim de sentar e beber por beber", quando passo sozinho na porta de uma ótima cervejaria aqui na cidade. Ou seja, o que refresca pensamento não é a cerveja, mas a sociabilidade que acontece em torno dela. "Não gosto de beber pra ficar bêbado. Que graça tem beber ao ponto de não conseguir conversar ou se divertir?", eu diria ao justificar meu estranhamento ao beber-cair-levantar tão típico entre muitos finlandeses.

Mais uma vez, não se enganem. Existe uma "cultura de bar" saudável na Finlândia também. Tem gente que se diverte, conversa e sai muito feliz e bem no final da noite. Talvez, pela soma de alguns fatores acima, isso não ocorra com tanta frequência como o choppinho de cada dia depois do expediente brasileiro. Tem o fator frio também (no verão, os bares bombam. No inverno não tanto). Mas é uma cultura diferente da que eu gosto.

Do que eu gosto? Não só da Brahma em si, mas de beber e se sentir perdendo o controle dos movimentos da boca ao discutir futebol, ao falar mal do chefe (com ele do lado, rindo) e cair em gargalhadas altas até se perder noção do que causou tamanha risada. Mas rir. E rir alto. Gosto de pedir os petiscos e os garçons enrolarem com o pedido até que se peça a segunda rodada porque ele sabe que é isso que a gente quer: não beber mais (isso também, lógico), mas tempo. Tempo para curtir os amigos e poder usar a lerdeza da cozinha do bar, ou boteco, como desculpa pra ficar mais cinco minutinhos.


Gosto de, entre uma molhadinha na garganta e outra, puxar um samba batucando na mesa de aço ou plástico e ser acompanhado pelo pessoal das mesas ao redor sem nunca tê-los visto na vida podendo inclusive acabar tendo mais amigos (alguns dos meus maiores entraram mais ou menos assim na minha vida).Gosto de sentar na calçada de casa, ligar o som, esconder copos atrás do muro, esperar os amigos aparecerem "por acaso" já com seus tijolos pra sentar e bater papo. Gosto de conversar com meu pai e meus tios que se tornaram grandes amigos por conta das disinibições causadas pelo ritual da gelada.


Enfim, é a falta dessas (e outras) coisas simples na cultura da cerveja finlandesa que me fazem não beber regularmente por aqui. E são essas pequenas coisas que fazem eu e a Wife termos a certeza de que moraremos no Brasil novamente apesar de todos os grandes pesares (violência, injustiça social, incertezas o tempo todo e o resto que todos conhecem bem). Aqui é tudo certinho, tudo legal e tem até cerveja boa  e alguns amigos pra curtir uma vez ou outra. Mas é lá que o choppinho desce redondo com a alegria de viver e ser feliz que raramente se vê tão explicitamente escancarada por aqui.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O perigo maior da sauna é a falta de noção

Nesse fim de semana, um cara da Rússia morreu e um finlandês ficou muito mal ao disputarem no campeonato de (resistência em) sauna aqui pertinho de casa, na cidade de Heinola. Até onde sei, essa foi a primeira fatalidade na competição em um dos hábitos mais tradicionais da Finlândia. Eu não considero a disputa em si coisa de doido se os competidores têm noção de seus limites. E foi isso que parece ter faltado aos dois.

Quando eu vou sozinho ou com alguns amigos, o máximo (extremo) que já aqueci  foi até 80 graus. E nesse ponto é coisa de ficar 1 ou 2 minutos no máximo até sair pra refrescar um pouco e voltar. Aí entramos e saímos mais uma ou duas vezes e já deu. Não tem problema em dizer "está muito quente para mim", ninguém vai  te sacanear ou te julgar como fraco se você não aguentar o calor. Outras pessoas ficam mais tempo, mas com uma temperatura mais amena - entre 60 e 70 graus. Agora imagina ficar 6 minutos ou mais numa sauna inicialmente aquecida a 110 graus? Se você já esteve numa sauna vai saber que isso é quente pra dedéu.

Pois essa é a temperatura padrão da competição. Claro que muitos participantes estão preparados pra esse calor de fazer inveja ao capeta. Mas provavelmente movidos pelo orgulho (e talvez uma pitadinha da rivalidade regional entre russos e finlandeses) os competidores ignoraram seus corpos e ficaram, ficaram, ficaram...e deu no que deu. No fim, a morte do russo fica como alerta para a competição e uma lição pra quem, como eu, gosta de curtir uma sauna depois de exercícios físicos ou no inverno abaixo de zero: é muito importante ouvir seu corpo e respeitar seus limites. Só assim se pode descobrir e sentir o prazer que faz da sauna uma das  maiores paixões nacionais finlandesas.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Paulo Coelho e os Finlandeses: por que ler? | Paulo Coelho and the Finns: why reading?

Domingo eu fui à locadora aqui da cidade e vi este filme na prateleira:
On Sunday, I went to the video store here in Lahti and saw this movie on the shelf:


No Brasil, se você circula entre pessoas mais estudadas e diz: "Eu gosto de Paulo Coelho" você está implorando pra ser crucificado. Afinal, se você quer parecer intelectual você deve demonstrar publicamente que Paulo Coelho é leitura inferior, auto-ajuda barata e piegas. Para alguém que se assume como leitor do cara, um comentário muito comum é: "Ai, não acreditoam! C-o-m-o assiem você lêam Paulo Coelhoeam!?" Admito minha idiotice e digo que já passei por essa fase. Passei, ufa! Porque senão eu teria muito problema em entender o que se passa aqui na Finlândia em relação aos livros dele.

In Brazil, if you hang out with people that have had more education and say: "I like Paulo Coelho" you are begging to be crucified. After all, if you wanna look like an intelectual you must show publicly that Coelho is an inferior reading, cheap self-help kind of thing. For those who come out of the literary closet one of the most common replies is: "OMG! How come you rea-d Paulo C-o-e-lho!?" I admit my foolishness: I have had my time being as stupid. Not anymore, whew! Because then it would have been pretty difficult to understand what goes on in Finland in relation to his books. 



A Finlândia é um dos países mais bem educados do mundo. Aqui tem altos índices de rendimento escolar: "um dos melhores sistemas de educação do mundo", de acordo com rankings internacionais. A Finlândia também é reconhecido por ser um país que lê muito (como os outros escandinavos). Aí vem o porém: nas livrarias, Paulo Coelho geralmente tem uma prateleira só pros livros dele! "Como assieaam!!!???" Sim, um dos mais bem sucedidos autores estrangeiros na Finlândia é o nosso best-clichê-seller (como alguns poderiam dizer no Brasil) Paolo Coel-rro. Os mais surpresos são possivelmente os intelectualóides, marias-vão-com-as-outras que nem se deram ao trabalho de ler o que ele escreve. Eu sei porque eu já fui um. Já fui, ufa!

Finland is one of the best educated countries in the world. Here there are high rates of school performance: "one of the best school systems in the world" according to international rankings. Finland is also known for being a country that reads a lot (as well as the other scandinavian ones). But however (purposive repetition) in the book stores, Coelho generally has a whole shelf only for his books! "How c-o-m-e?" Yes, our best-clichê-seller (as we would call him in Brazil) is one of the most successful foreign writers in the highly-educated Finland. The most surprised ones are possibly the pseudo-intelectual, go-with-the-flow people who perhaps didn't even bother to read a book of his. I know because I was one. Not anymore, whew!


Quando eu era mais novo falava mal de quem lia Paulo Coelho, mas ficava decepcionado quando não conseguia entender Machado de Assis ou outros clássicos da literatura brasileira e portuguesa. Até que um dia, num dos raros momentos de maturidade no auge da adolescência, eu decidi ler "O Alquimista" pra ver porque esse pessoal gostava tanto do autor. Dois dias depois, eu disse o mesmo que um amigo  brasileiro falou no último fim de semana quando conversávamos sobre livros aqui em casa: 

When I was younger, I used to bad-mouth those who read Paulo Coelho, but I was very disappointed when I couldn't understand Machado de Assis or other Brazilian/Portuguese literature classics. One day, however, in a rare moment of maturity in my adolescence, I decided to read "The Alchemist"to see why people liked the author so much. Two days later, I said the same a Brazilian friend said these days while we talked about books:
 

"[Paulo Coelho] é bom porque eu entendo" 
"[Paulo Coelho] is good because I understand it"


"O Alquimista" foi o primeiro livro que li completo em menos de duas semanas. Foi com ele que aprendi a gostar de ler. Se hoje leio Foucault, Pessoa, Assis, Rodrigues, Amado e tantos outros grandes complicados e complexos da literatura, é por causa da pieguice do Paulo Coelho. E é isso que o nojo insensato impede os intelectualóides brasileiros de ver: leitura não é status ou estilo, é prazer. É isso que faz dos finlandeses um dos povos que mais lê no mundo. Eles lêem de tudo porque gostam de ler. E não dá pra negar que Paulo Coelho é um baita contador de histórias. É por isso que ele tem prateleira exclusiva num monte de livraria no mundo. É por isso que seus livros estão virando filmes em Hollywood, como o "Veronika decide morrer" acima.

"The Alchemist" was the first book I read completely in less than two weeks. It was with Coelho that I learned to like to read. If today I read Foucault, Fernando Pessoa, Jorge Amado and many other big writers, it is all because of Paulo Coelho. And this is the thing that the disgust of the Brazilian pseudo-intelectuals stops them from seeing: reading is not status or style, it is all about pleasure. That's why Finns read more than almost all other peoples in the world. They read everything because they like reading. And you can't deny that Paulo Coelho is a great storyteller. That's why he deserves exclusive shelves all around the world. That's why his books are becoming movies in Hollywood, like "Veronika decides to die" above. 

É uma pena que muitos brasileiros (assim como mtos finns... a abitoladice é universal) se preocupem em criticar o que não conhecem baseados em opiniões alheias do que formar as suas próprias baseadas em suas próprias descobertas e experiências. Isso vale pro momento político brasileiro também, mas isso fica pra outro post.

It's a pity that many Brazilians (as well as finns...the narrow-mindedness is unversal) are so worried about criticizing what they don't know based on someone else's opinion instead of having their own thoughts based on their own discoveries and experiences. :/

terça-feira, 30 de março de 2010

Finlândia e Bolsa Família: Margens da Malandragem (pt.2)

A diferença entre Brasil e Finlândia nos programas de bem-estar social (como o Bolsa Família) é que aqui é admitido que pode haver a possibilidade de abuso do sistema. Mas sabe-se também que é muito caro criar um sistema 100% malandro-proof. Então aceita-se a pequena margem de picaretagem e o sistema vai funcionando. Um dos motivos pras coisas fluirem é que para muita gente vivendo na Finlândia depender do social welfare é vergonhoso. Isso ajuda a não multiplicar os índices de malandragem.

Não sei qual a margem de pilantragem no Brasil, por isso não posso dizer que soluções daqui valeriam por lá. Mas não dá pra dizer que os programas não prestam por causa dos safados que tiram proveito do nosso sistema. Nosso bebê-welfare ainda precisa amadurecer muito, mas já dá (junto com outros além do Bolsa Família) sinais de que as coisas podem melhorar bastante. E pra ficar melhor, podemos fazer o nosso. Como? Que tal denunciar os casos de corrupção?

De repente assim passamos a sentir vergonha - e não orgulho - do jeitinho brasileiro. Ao contrário, tentamos evitá-lo. Parece piada, eu sei.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Finlândia e Bolsa Família: Margens da Malandragem (pt.1)

Reclamar de programas de bem-estar social não é coisa exclusiva de brasileiros. Aqui na Finlândia, muitos finlandeses ficam indignados com pessoas que tiram proveito do sistema welfare. Resumidamente este sistema significa que o Estado administra finanças públicas para garantir que todos tenham o mínimo pra viver bem.  Ou seja, repassam uma porcentagem do dinheiro público para serviços e fundos que garantam income security (fundos de desemprego e pensão, por exemplo). Aí esse pessoal - assim como no Bolsa Família - diz que tem gente que diz que esse sistema sustenta um monte de malandro. Como no Brasil, aqui também acontece. Mas a abordagem ao problema da picaretagem é diferente.

continua...

Olhar de quem vive o Bolsa Família

Abaixo o comentário da Cris Neres que, pela relevância e conhecimento de causa, ganhou status de guest post.

"O Bolsa Família é um programa cercado de polêmicas...Falo isso pq eu trabalho em uma escola de periferia (dessas bemmm periferia mesmo) e a maioria quase absoluta dos alunos recebem o benefício. 

É meu segundo ano nessa escola, e posso dizer q essa ajuda é bem vinda para aquela comunidade, pois um dos criterios para continuar recebendo é a matrícula e assiduidade dos alunos, ou seja, o sistema foi feito para não sustentar vagabundos. 

Indiretamente (ou diretamente) isso influenciou na melhoria da escola nas avaliações estaduais e nacionais que classificam as escolas em otimas, boas, regulares, ruins, e tambem melhorou o IDEB da escola. 

Hoje em dia nossa escola é considerada a 4ª melhor escola do estado (ficou à frente de muitas escolas localizadas em áreas centrais e escolas particulares)e também é o melhor IDEB da região da cidade.

Mas como nem tudo são flores, conheço pessoas que necessariamente não atendem aos pré-requisitos para receberem a ajuda, tipo, pessoas que são proprietarias de estabelecimentos comerciais, com renda superior a 3 salarios mínimos e por aí vai...
Eu disse anteriormente que o programa não foi concebido para sustentar vagabundo e digo mais, também não foi feito para ser mesada, para ser gasto no cabeleireiro ou para sustentar futilidades, mas infelizmente é isso que acontece (como vc citou sobre a corrupção), enquanto muitas pessoas necessitam desse mínimo do mínimo para sobreviver, outros estão utilizando o Bolsa Família para pagar prestação de IPHONE.
A corrupção não está só em quem gerencia, está também em quem não tem um pingo de consciência e desconfiômentro e se apropria de algo que, em tese, não necessitaria"

No próximo digo mais maneiras em que isso tem a ver com a Finlândia.

Bolsa Família e Finlândia

Uma das coisas que muita gente mais reclama do Bolsa Família é o fato do programa não colaborar pros beneficiados buscarem autonomia. Tipo, "se já recebe mole, não vai querer trabalhar." Aí chamam de Bolsa Esmola, Bolsa Preguiça... essas coisas. Aí eu perguntaria aos tais donos da razão: "O que você acha da Finlândia?"  E ao que eles respondessem "Isso sim que é país, primeiro mundo!" eu, com tom de sarcasmo, diria pelo canto da boca: "É? Mas isso do Bolsa Família é uma iniciativa de bem-estar social, característica mais marcante da Finlândia. Sabia?" O veneno realmente escorreria no primeiro "É mesmo!?"


domingo, 28 de março de 2010

Bolsa Família na mídia finlandesa

Falando em Bolsa Família, hoje saiu uma matéria de capa (1a de uma série) no Helsingin Sanomat  - o maior jornal finlandês - sobre o programa e como ele faz diferença na vida de famílias pobres no Brasil. Como  exemplo aparece uma família de São José do Vale do Rio Preto. A matéria apresenta as melhoras causadas pelo programa, mas identifica também problemas na execução do projeto (como corrupção). As vezes é bom ler coisas vistas por pessoas de fora do aquário, onde um lado argumenta se defendendo, xingando e reduzindo o outro. 

Leia a matéria (em finlandês) aqui. Se sair em inglês, eu posto o link depois.


quinta-feira, 11 de março de 2010

Notícia de crime na Finlândia

Imagina esse caso: uma enfermeira de 20 e poucos anos mata dois velhinhos no hospital onde trabalhava. Depois de dois anos, ela é julgada, condenada e se mata na cadeia. Se fosse no Brasil, como a notícia saíria? Pois o caso aconteceu na Finlândia. Vejam como eles cobrem essas informações aqui.

Essa primeira notícia é de Novembro de 2007, na época do crime. A manchete diz algo como: "Enfermeira envenenou pacientes deficientes sob seus cuidados?"




Algumas coisas me chamam atenção. 

A primeira é que o nome da então suposta assassina não é divulgado. Num tem nada do tipo "Fulana é a principal suspeita", com a foto dela do lado. Por que? Simples. Se ela é suspeita, ela ainda pode ser inocente. Se ela é acusada no jornal, ia ser difícil convencer as pessoas do contrário mesmo que ela não tenha culpa. 

A segunda é que o nome das vítimas também não aparece. Nem há entrevistas emocionadas com os parentes. Afinal, o caso em si é a notícia, não os mortos e a família. Dar nomes e explorar a dor alheia num é informação jornalística, é fofoca de mau gosto.

A terceira é a foto. Num tem corpo. Num tem foto dos pacientes mortos (mesmo que vivos e sorridentes). Só a parede do local onde o crime aconteceu (e a matéria faz questão de não acusar a instituição).

Aí, essa semana, aparece a notícia de que a assassina (já julgada e condenada) se matou na cadeia. Como a notícia sairia nos jornais do Brasil? Aqui, saiu assim:


Agora, depois de condenada e morta já aparece o nome. Eu vi outras matérias de 2008 e desse ano (por conta do julgamento) no mesmo jornal que o nome dela ainda não aparecia. 

Mas reparem a foto: apesar de ser assassina, a foto que usam dela passa paz, como se ela rezasse. Tenho certeza que eles tinham outra foto, inclusive algumas onde ela apareceria descabelada e com cara de doida, mas ainda assim usaram essa.

Além disso, eles não mencionam em momento algum (há dois anos e pouco já) o nome das vítimas. Não tem entrevistas com os parentes chorando dizendo: "Justiça foi feita, meu Deus!!!" depois do julgamento. Num tem foto dos mortos pra lembrar o caso original. 

É como se não houvesse circo. Só informação de um crime (assunto público) sem a exploração do drama alheio (assunto particular). Quer outro exemplo? Foi assim que a notícia saiu no site da Yle, empresa de informação estatal:


Sem nome. Sem foto com sangue ou olhos virados. Sem nada. Só a informação da morte concluindo a história que começou em 2007.

Em tempo: o Ilta Sanomat - junto com o Ilta Lehti - é um jornal considerado popular e sensacionalista. Como o "Meia-hora" ou "Expresso" no Rio. Talvez o falecido "Notícias Populares" em São Paulo. Ou seja, mesmo os sensacionalistas são bem moderados se comparados aos nossos. Aí ficam as perguntas:
  • Esse comportamento da mídia é coisa da Finlândia ou no Brasil poderia também existir um jornalismo diferente? 
E o mais intrigante: na faculdade, muitos professores jornalistas diziam que violência vende jornal/dá audiência.
  • Será que um jornal/canal de TV que informasse sobre casos de violência como fizeram nestes exemplos acima venderia/teria audiência?

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Balde da Sauna | Sauna's Bucket

Quer saber se você já está adaptado à Finlândia? Repare seu comportamento diante de situações com o baldinho d'água para o löyly numa sauna pública.
Do you want to know whether or not you are already adapted to your Finnish life? Pay attention to your behaviour when you see yourself in different situations involving the small bucket of water for löyly in public saunas.
Você se sente no dever cívico 
de repor a água quando sai? 
Do you feel it is a civic duty 
to fill the bucket after you leave?

Fica todo orgulhoso quando dá o balde que acabou de encher e o(a) pelado(a) desconhecido(a) lhe diz kiitos?
Do you feel proud when you give the full bucket to someone else in the heat and the naked one whispers kiitos from inside?

Você fica resmungando tudo que é palavrão
se alguém gasta a água, sai e não repõe?
 Do you mumble all sorts of swear words if 
someone else uses all water, gets out and doesn't fill it?

É... você já está bem adaptado às coisas finlandesas.
Yes...you're already living a very Finnish life.

terça-feira, 9 de março de 2010

Se sentindo burro | Feeling Dumb

O post original (Se sentindo burro|Feeling Dumb) rendeu ótimos comentários sobre se descobrir ignorante sobre coisas geográficas e históricas depois de sair do Brasil. Daí, resolvi montar este "Frankeinspost com pedaços dos comentários de vocês. Valeu e desculpas por picotar o que vocês disseram. Pra ver os comentários completos, clica aqui. Pra ver quem são os comentaristas, clica no nome deles. E desculpa também por esse trombolho enorme de post. Te entendo se não tiver paciência de ler...

After I wrote the post about how I have been feeling dumb in what concerns the history of Brazil and Latin America, I got some interesting comments from some Brazilian readers/bloggers. For that reason, I decided to create this "Frankeinspost" with fragments of the comments they made. You can read the original ones (in portuguese) by accessing the original post here.
Luciana Håland disse: "[...] culpo a faculdade, até a gente entrar na faculdade a gente até sabe muito, pois na época do segundo grau as informacões são muitas e a gente procura saber mais e mais[...]"
"[...] I blame the university. Till we get to the university we know reasonably well, because at the high school time there is plenty of information and we want to learn more and more [...]" - Luciana Håland, Brazilian living in Norway
Eu concordo que quando entramos na faculdade nós direcionamos nosso interesse à um assunto específico. Mas não sei se culparia as faculdades por saber tão pouco de coisas gerais. Acho que o problema está no fato de no Brasil tratarmos conhecimento como coisa pra escola. Logo, parece que aprendemos mais coisas gerais antes do que na facul. A gente tem mais matéria no segundo grau/ensino médio! Então eis a questão: aprendemos pra viver, ou vivemos pra decorar?

I agree that when we enter university we direct our interests to an specific subject. But I wouldn't blame the university for my poor general knowledge. I believe the problem in Brazil is that we deal with knowledge as if it were a simple school thing. That's why it seems we have more access to information at high school. We have more subjects in high school! So there's the question: do we learn to live, or do we live to memorize and pass?

Tiago Yoshi (sem link) disse: "[...] A grande verdade é que aprendemos muito sobre nossa própria cultura e sobre nosso país quando estamos fora. A vida no Brasil, às vezes, é muito corrida e não paramos para pensar e analizar as coisas."
"[...] The big truth is that we learn a lot about our own culture and about our country when we are abroad. Life in Brazil, sometimes, is too fast and we don't stop to think and analyze things" - Tiago Yoshi, Brazilian who has lived for a while in Angola.

Apesar de eu achar que a gente aprende bem pouco inclusive sobre nossa própria cultura, eu concordo que a correria do dia-a-dia não ajuda pras pessoas buscarem conhecimento. Eu lembro que quando estudava em Niterói e trabalhava em Piabetá (quase duas horas de viagem todo dia em estrada ruim e poeirenta), eu desabava quando chegava em casa. Aqui na Finlândia é bem diferente. Além de ser mais tranquilo, esses conhecimentos gerais fazem mais parte do cotidiano do que no Rio. A gente lá conversa muito pouco sobre coisas além do nosso próprio mundinho (rua, amigos, bar...).

Even though I believe that we learn very little about our own culture as well, I agree that the fast pace of life in Brazil prevents people from searching for knowledge. I remember that when I studied in Niteroi and worked in Piabetá (about two hours traveling through bad and dusty roads), I just fell apart when arriving home. Here in Finland it is quite different. Besides being a slower life, these general knowledge things are more present in daily life than in Rio. There we mainly talk about our own world (street, friends, bars...). 
Camila Hareide disse: "Sim, tu tá esquizo com esta história... Porque é impossível saber tudo. Por mais que se estude Geografia e se saiba apontar no mapa mundi todos os países do planetinha, saber algo sobre todas as culturas é ter que acumular conhecimento pacas!"
"Yes, you are a bit esquizofrenic about this thing...because it is impossible to know everything. No matter how much you study geography and know how to point out on the world map all the countries of the planet, knowing about all cultures means having to accumulate too much knowledge!" - Camila Hareide, Brazilian living in Norway.

Mas aí é que está: num quero aprender pra saber de cor um monte de coisa. Me incomoda não saber coisas que eu acho importante. Se você me perguntar, como fez a Wife, por que eu acho saber sobre Cuba importante, eu não saberia responder. Talvez porque aqui eu faça parte do mesmo pacote geográfico que os cubanos no que eu acho que seja o imaginário das pessoas aqui. Não sei, só sei que me incomoda. Não o fato de eu não saber sobre tudo, mas o fato de não saber sobre coisas que por algum motivo eu acho que façam parte da minha vida direta ou indiretamente. :/

But that's the point: I don't want to learn to memorize a bunch of things. It bothers me that I don't know stuff that I consider important. If you, like the Wife, as me why I think it is important to know about Cuba I wouldnt know what to answer. Maybe because from (what I think to be) the perspective of Finnish people I am part of the same "geographic box" as the Cubans are. I don't know, but it does bother me. Not the fact of not knowing about everything, but the fact of not knowing stuff that for some reason I consider to be part of my life somehow. :/  
Lalá (sem link) disse: "E é triste reparar que os alunos, hoje em dia, mesmo com a internet e, teoricamente, uma facilidade maior de buscar novas fontes de conhecimento, estão ficando cada vez mais acomodados. Mesmo a maioria dos que tem condições de estudar em um colégio mais bacana, parecem se contentar em estudar só pra tirar nota pra passar de ano, não em aprender de verdade"
"And it is sad to notice that students nowadays even with internet and theoretically easier conditions to search for new sources of knowledge are getting each time lazier. Even the most part of those who have conditions to study in a better school seem to be satisfied in studying only to get grades to pass instead of really learning" - Lalá, Brazilian living in Brazil.

É...mas aí tem outro porém: o sistema educacional (onde estudei pelo menos) não motiva as pessoas a deixarem de ser acomodadas. Eu lembro que nos meus primeiros 12 anos estudando, se eu tive 4 professores que motivavam os alunos a estudar foi muito. A maioria era como se jogasse blocos de informação pro alto e dissessem: "quem pegar pegou, mas não se preocupe porque depois da prova vocês nunca mais vão ver isso na vida"

Yeah...but there is also something else there: the school system (where I studied at least) doesn't motivate people to stop being lazy. I remember that in my first 12 years studying, I had about 4 teachers who motivated the students to learn. Most part of them seemed they were throwing blocks of information and shouting: "grab if you can, if you can't don't worry: after the exams you will never see this again!"
Cris Neres disse: "Se percebo que sou totalmente (ou quase totalmente) ignorante a algum assunto/noticia/atualidade/conhecimento geral e etc, respiro fundo e vou pesquisar, hj em dia parei de me cobrar tanto, mas isso não significa que me contento com a 'burraldice'."
"If I realize I am totally (or almost totally) ignorant about some issue/piece of news/general knowledge, etc. I take a deep breath and go research about it. Nowadays I don't push too hard on myself, but that doesn't mean I am satisfied with the 'dumbness'" - Cris Neres, from Acre (Amazon Region)
Acho que eu vou ter que aprender a fazer isso também...


I guess I will have to learn to do the same....
Tiago disse: " [...] mas não pensem que é só no Brasil que isso acontece, aqui em Portugal também se fala pouco de geografia e história."
"[...] but don't you all think this is only something that happens in Brazil, here in Portugal people also speak very little about geography and history" -Tiago, from Portugal.

É, talvez isso seja um problema mais amplo e não só brasileiro. Mas resumindo, enquanto aprendemos essas coisas pra passar de ano e só, não só eu quanto muitos outros vão continuar se sentindo e agindo burraldos por aí. Infelizmente, porém, nem todos vão ter a chance que eu e outros de nós estamos tendo de pensar nossas burrices. Uma pena mesmo...

Yea, maybe this is not only a Brazilian problem. But, in a nutshell, if we remain learning stuff just to succeed in exams, many like me will remain feeling and acting dumb everywhere. Unfortunately, though, not all of us will have the chance some of us and I are having to reflect (and get rid of) our dumbness. It is certainly a pity...

terça-feira, 2 de março de 2010

Se sentindo Burro | Feeling Dumb

"[...] confesso que me senti burralda mesmo quando percebi que nunca aprendi direito historia e geografia... ha paises dos quais nao sei absolutamente nada... e percebo que na escola a gente aprendeu a por tudo no mesmo saco como se fossem todos iguais... igual o que fazem com a gente na america latina...[...]"
"[...] I admit that I felt very dumb when I realized that I never learned history or geography properly... there are countries of which I know absolutely nothing... and I notice that at school we learned to put everything in a single box as if all of them were the same...exactly like some do to us in Latin America... [...]"
Quem disse isso foi a Somnia esses dias aqui no blog quando postei sobre o fato de brasileiros saberem tão pouco sobre a África quanto os africanos sobre o Brasil (ver aqui o post, visite o blog da Somnia aqui). Neste exato momento, eu estou me sentindo assim também: burraldo. Mas no meu caso, não é um problema exclusivamente intercontinental. Minha deprê veio essa semana, quando comecei a ler sobre a América Latina enquanto preparo meu curso. Eu num sei quase nada sobre a região!

Somnia, a blogger and reader, said the quote above when commenting my claims that brazilians seem to know as little about Africa as africans know about Brazil (see here). Right now, I am feeling exactly the same: dumb. But for me, it is not a case of unawaress towards Africa. At this very moment, I am reading about Latin America as I prepare my first lecture course . And I feel really bad for realizing I know so little about it. 

Pra você ver, esses dias abri o Google Maps e Wikipedia e fiquei embasbacado com minha ignorância.  "República Dominicana e Haiti são a mesma ilha?!", "Nossa! Cuba é pertinho dos EUA mesmo...", "Ué! Já teve guerra entre Peru e Chile?", "Colômbia tem praia!!??? Mas não era dentro da Amazônia!?" e por aí vai.  Minha vontade foi de correr no quintal e esconder a cabeça na neve.  Pode fazer "Dã!" vai. Sério. Só não fui porque tá meio frio... mas pensando bem, sabe o que é pior? Saber tão pouco inclusive do próprio país.

Really. These days, for example. I decided to do some preliminary reading so I opened Wikipedia and also Google Maps. Soon, I was mesmerized by my own ignorance. "Dominican Republic and Haiti are the same island?!", "Wow! Cuba is REALLY close to the USA...", "Hey! Was there a war between Chile and Peru? Man!", "Colombia has a coast!? But wasn't it in the middle of the Amazon?!" and so on. I felt like running outside and sticking my head in a whole in the snow. Seriously. I just didn't do it because you know...it's cold. But you know, it is even worse when we know so little even about our own country.

A impressão que tenho é que nós brasileiros (ou só eu?) passamos a vida toda só olhando (e nos preocupando) com nosso próprio umbigo. Nem de outras regiões/estados do Brasil sabemos direito. A não ser pelos estereótipos: "O Nordeste é lindo mas miserento". "O Sul é limpo e por ser cheio de europeus tem um padrão de vida melhor mas é frio pra dedéu". "O Sudeste tem as maiores cidades mas é caótico e violento". "O Norte e o Centro-oeste só tem mato, roça e um oasis urbano que chamamos de Distrito Federal". E muitos que falam nunca colocaram os pés por lá. Já reparou?

The impression I have is that we Brazilians (or only me?) spend the whole life only concerned about our own closest environment. Not even the other regions of our country we know well. I mean, we know something: the stereotypes. "The northeast is very beautiful, but the poverty...", "the south is clean and - due to the amount of Europeans (we have this thing of looking up to them) - has a great standard of life. But the cold weather...", "The southeast has the metropoles, but the violence and chaos...", "The north and middle-west are huge rural areas with farms and an urban oasis we call Federal District (the capital)".  And many who say stuff like that have never actually been to the places. Ask any Brazilians if they even paid attention to that.

Tipo, isso é uma coisa pra se pensar bem antes de vir pra Finlândia ou os outros freezers aqui de cima. Nós Brasileiros aqui na Escandinávia (onde o povo viaja muito pelo mundo afora) somos como "agentes especiais de Turismo" do Brasil e da América Latina. Como a Somnia disse, muitos colocam tudo num saco só. Mas ao invés de se contentar com o que eles acham que é verdade, eles perguntam. E muito! As perguntas em si não incomodam. Afinal, eles querem aprender e isso é muito respeitável. Mas eu garanto uma coisa: é horrível não saber responder. Sabe por que?

This is definitely something to think about before coming to Finland or the other nordic freezers. Brazilians in Scandinavia (a place whose population tend to travel a lot around the world) are like "tourist agents" for Brazil and consequently Latin America. Even though there are many who make their own "geographic boxes", other many are always interested in knowing more. So they ask. And ask a lot! Which is not a bad thing. Afterall, they want to learn and this is certainly very respectable. But I can tell you one thing: it is horrible not to be able to answer. You know why?

Porque fica aquela coisa no ar: "mas você é de lá! Como você não sabe disso?".  Se não por parte deles, por parte da sua própria cabeça (principalmente se você for meio esquizofrênico como eu sou as vezes). Aí você fica mal e procura desculpa. As minhas em momentos de desespero eram: "o ensino no Brasil é uma merd@", ou "culpa da Globo!". Mas hoje em dia, a gente não precisa disso pra conhecer mais nada, né? Então, mais ou menos como diz aquele velho ditado, se sentir burraldo (como eu e a Somnia) é totalmente humano. Mas se contentar em ser burraldo isso sim é uma burrice sem tamanho. 

Because there is always that thing in the air while you blabber before admiting you know nothing: "but you are from there! How come you don't know about it?" If this pressure doesn't come from them (as most of the times), it comes through your own head (especially if you are a bit schizophrenic like I am sometimes). As an immediate reaction, you feel horrible and looks for excuses. Some of mine, in moments of total despair, have been: "The Brazilian school system sucks!", or "It's all television's fault!". But come on! We don't necessarily need either of them to know these things nowadays, right? So, maybe as we say in Brazil, feeling dumb is not as bad as doing nothing to become more aware about things.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Portal Finlandês pra África | Finnish gateway to Africa*

"Não tenho a mínima idéia", respondi.

"I have no clue", I replied.

E não foi a primeira vez. Eu dava a mesma resposta sempre que a Wife e outros tantos me perguntavam sobre minhas raízes africanas. No Rio a gente nunca fala sobre isso, mas aqui na Finlândia  eu convivo com o assunto como nunca antes na minha vida.

Not only once. The same answer came every time my Wife (or anybody else) asked me about my African roots. Back home, we never really think of it, but here in Finland the issue is somewhat closer to me than ever before.

"Hi", ele disse ao sorrir enquanto apertávamos as mãos logo que entrei pela primeira vez no prédio principal da Universidade de Tampere. Eu não sei como nem o porquê, mas ao me apresentar como brasileiro eu percebi que ele me olhava meio de rabo de olho com uma certa dúvida, quieto... até que piscou como se um  flash de câmera o trouxesse de volta. "Eu sou nigeriano", ele disse. A conversa veio e foi sumindo assim como a alegria inicial do cara.

"Hi", he said and smiled while we shook hands in the first time I entered the main building of the University of Tampere. I don't know how or why, but when I introduced myself as Brazilian I noticed him looking doubtfully at me with the corner of his eyes soon before they blinked as if the flash of a camera had brought him back from his probable imaginary scenario. "I am Nigerian", he said. The talk went on and faded as well as his initial excitement.

A única coisa sobre o meu passado que eu sei é que a mãe do meu avô paterno foi filha de escravos. Aqui na Finlândia - e suponho em outros países europeus - é comum traçar as gerações passadas até séculos atrás (a árvore genealógica da Wife por parte de pai vai até o século XVI, quando os portugueses chegaram ao Brasil). No meu caso, a busca provavelmente terminaria em algum registro de comércio de escravos no século XIX. Mas eu não tenho certeza. Talvez por nunca ter tentando descobrir meu passado. Eu já tive interesse, mas nunca fiz nada de fato pra saber de onde vem minha família.

The only thing about my past I know is that the mother of my paternal grandfather was a  daughter of slaves. Here in Finland - and I suppose in other Western European countries as well - it is common to trace the family tree back to centuries ago (the Wife's family - on her father's side - goes back to the XVI century, when the Portuguese got to Brazil). In my case, the search would probably end in some 19th century trader book. I am not sure, though. Maybe because I never tried to unveil my past. I had been interested, but I never really did anything to find out where my family came from.

"Hey, brother!" A princípio eu não me liguei que o cara negro na lojinha no centro de Lahti estava falando comigo. "Hello!", ele veio e apertamos mãos. "É um prazer conhecê-lo", ele continuou antes de deixar escapar baixinho entre os dentes: "Não parece que somos muitos de cor aqui na cidade". Ele sorriu. Eu concordei timidamente e me apresentei. "Ah...você é brasileiro..." ele suspirou tentando esconder seu olhar desapontado. Conversamos rapidamente sobre nossas estadias e ele me contou que tinha acabado de chegar da Nigéria pra ficar com sua namorada finlandesa. Depois desse encontro, nunca mais o vi de novo.

"Hey, brother!" At first it took me time to realize the black guy in the gift store at the center of Lahti was talking to me. "Hello!", he came and we shook hands. "It is nice to meet you", he continued before letting it slip through his barely open mouth: "There doesn't seem to be so many of us coloured people here." He smiled. I nodded timidly and introduced myself. "Oh....you are Brazilian...." he sighed trying to hide his disappointed look. We talked briefly about the length of our stay, he told me he had just arrived from Nigeria to be with his Finnish girl. After that, I never saw him again.

É engraçado se tu para e pensa sobre isso.  No Rio, eu e meus amigos raramente falamos profundamente sobre a África. Tipo, nós somos brasileiros. A África, de acordo com as notícias, é o continente pobre com jogadores muito bons de bola, mas sem nenhum senso de tática. Muitos de nós não têm BBC, DW ou outros canais internacionais. Assim, a gente raramente ouve alguma coisa sobre a terra dos nossos antepassados que seja diferente de pobreza, ebola, ditaduras, apartheid, essas paradas. A cultura brasileira tem raízes fortes nos cultos e ritmos africanos, nós estamos amarrados uns aos outros pelas correntes que prenderam escravos e os arrastaram pelo Atlântico até a maior colônia portuguesa. Ainda assim, se eu ou meus amigos negros fossemos perguntados, com certeza não conseguiríamos dizer o nome de mais de 5 países africanos. Imagina dizer de onde estão as raízes de nossas famílias...

It is funny, if you stop and think about it. In Rio, my friends and I barely talked seriously about Africa. I mean, we are Brazilians. Africa, according to the news, is the poor continent with very skillful and not very tactical football players. Since most of us did not use to have BBC, DW or other international channels, we rarely heard anything about the land of our ancestors that differed from poverty, ebola, dictatorships, apartheid, that stuff. Brazilian culture is deeply rooted in African cults and music, we are geographical regions pretty much tied to one another by the chains that locked the slaves and dragged them accross the Atlantic Ocean to the largest Portuguese colony. Still, if any of my black friends and I were asked, we would certainly not manage to name more than 5 African countries. Let alone know where our family trees had roots in.

"Com licença, de onde você é?", me perguntou um senhor de meia idade em Nastola enquanto assistíamos a partida histórica entre o humilde time local contra o MyPa, um dos times da Veikkausliiga - a "série A" finlandesa. Deu pra ver que ele estava bem interessado em mim, o que me assustou um pouco. Afinal, não é tão comum que finlandeses puxem conversa assim em lugares públicos com totais estranhos. Eu timidamente me apresentei. "Brasil? Eu pensei que você era da Nigéria ou algum outro país da costa oeste africana...", ele explicou meio surpreso, meio pedindo desculpa. Quando ele ia virando pro lado, eu comecei a puxar assunto e logo descobri que ele esteve na África por razões missionárias e que estava pensando se eu saberia tocar algum instrumento nigeriano de percussão. E assim eu conversei sobre a África com um finlandês como eu e meus amigos afro-descendentes nunca conversamos. Fim de jogo, fomos embora.     

"Excuse me, where are you from?", the middle-aged Finnish man in Nastola asked me while we were watching the historical match between the low-division local team and MyPa, one of the Veikkausliiga ("premier league") teams in Finland. I could tell he was pretty interested in me, which scared me certainly. It is not so common that Finns go starting conversations with strangers in public places like that. I timidly introduced myself. "Brazil!?! I thought you were from Nigeria or some other West-Coast African country..." He said half surprised, half apologizing. When he was about to turn around, I started talking and soon I discovered that he had been there for missionary reasons and was wondering if I knew how to play some Nigerian percussion instrument. And there I was, talking about Africa with a Finn as I had never talked with any of my African-descendent friends. Game over, we left.

"Não tenho a mínima idéia", eu diria hoje se a Wife ou qualquer outra pessoa me perguntasse sobre minhas raízes na África. No entanto, precisei de quase trinta anos até vir pra Finlândia e perceber que é importante saber de onde venho. Eu preciso saber porque é até meio vergonhoso o fato de eu não saber explicar o porquê de eu ser negro no Brasil, saca? Eu me acostumei a dizer "meus avós eram filhos de filhos de escravos" e o pessoal ficar satisfeito com a resposta. Mas aqui na Finlândia a coisa foi se aprofundando. "É mesmo? De que lugar da África eram os avós dos pais dos seus pais?" ou "Eu estive em Moçambique/Tanzânia/Nigéria/Angola/etc. De onde eram os escravos que foram pro Brasil?" E nessa eu comecei a pensar na África como o continente de diversidade e complexidade que é, que Africanos  da costa oeste (Atlântico) podem ser muito diferentes dos da costa leste (Índico). 

"I have no clue", I would say now if my Wife or any other person asked me about my roots in Africa. However, it took me almost thirty years until I came to Finland to realize that it is important that I know where I came from. I need to know because it is a bit embarrassing that I cannot explain to people the reasons for me to be black in Brazil, you know what I mean? I got so used to answering "My grandparents were kids of slaves" and people getting convinced of that. It was in Finland that challenging complements like "Really? From which part of Africa?", or "I have been to Mozambique/Nigeria/Ruanda/Luanda/Mali/etc. Where were the Brazilian slaves from?" started popping up. It was here that I started to think of Africa as the complex and diverse continent it actually is, that Africans from the East can be very much different from the Western ones.

A Finlândia me abriu os olhos pra olhar pro meu passado como parte da minha vida pessoal e não só como as estórias distantes dos livros de história dos tempos de escola. Foi aqui, pela primeira vez na vida, que eu fui visto como um brother africano pela primeira vez.

Finland became my eye-opener to look at my past as part of my personal life and not only as a faraway story from the history books of the school times. It is here that I was seen as a Western African "brother" for the first time in my life.

Eu não saberia explicar o porquê, mas foi bom.
I can't explain why, but It felt good.

*Texto escrito há um tempo atrás (antes de Julho de 2009) no meu outro já falecido blog.
*This text was written some while ago (before July 2009) in my other - now-dead - blog.
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Impressões Brasileiras sobre a África
Brazilian Impressions about Africa

Raízes: Jongo
Roots: Jongo