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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Malditos adultos! Infância, Preconceito e Sexualidade no Brasil e na Finlândia

"Em verdade vos digo", a maior ameaça à pureza das crianças são os adultos. Seja aqui na Finlândia, seja no Brasil. Pelo menos assim concluímos eu e uns amigos ontem ao papear sobre as atitudes das crianças e adolescentes em relação ao preconceito na Finlândia e sexualidade nas terras tupiniquins. No Brasil, até santidades contribuem para o fim precoce da inocência. 

Meus amigos trabalham com jovens e crianças aqui na Finlândia. "Como a molecada se relaciona com os imigrantes no centro onde você trabalha?", perguntei. "O problema são os adultos", a amiga decretou. O outro mais velho complementou: "quando eu era moleque, quase não haviam negros ou pessoas diferentes. Então as pessoas sempre tinham curiosidade, uma curiosidade saudável. Afinal, era  uma situação diferente." Infelizmente, concordaram, tanto naquele tempo como agora tem os idiotas crescidos. "Estes dizem coisas preconceituosas em casa e as crianças repetem na escola sem mesmo saber do que se trata. E isso vai crescendo junto com elas" Felizmente, esta tendência está diminuindo muito. Muitos projetos e ações a longo prazo tem melhorado a mentalidade por aqui. Pelo menos entre os mais novos, ser diferente tem aos poucos deixado de fazer diferença na Finlândia. Que bom, pensei. Pensei: "No Brasil, essa má influência adulta pode ser vista na sexualidade", disse.

Quando cheguei aqui, tive uma baita surpresa ao ver crianças enormes tendo liberdades infantis ao invés da pressão de ser "homenzinhos" e "mocinhas." Os pais e mães finlandeses que eu conheço - talvez dê pra generalizar a partir deles - não forçam seus meninos  a beijar as meninas enquanto gozam "que casalzinho lindo!!!" pela boca. Também não me lembro de ter visto pais exibirem seus filhos e esbravejar "esse aqui vai ser o terror das menininhas" ou repetir "mostra o piruzão pra titia" ao arriar as calças do molecote. As crianças que eu conheço aqui lêem livros e jogam jogos "bobos", vestem roupas coloridas e aprendem desde cedo que têm coisas que elas não podem ver ou fazer porque "não é pra criança" ao invés de serem censurados com um  "não pode porque é feio, pecado e ruim" e pronto. Eu não me lembro de ter ouvido mães ou pais finlandeses dizerem "pode brincar, mas com os meninos não" enquanto elas correm para se divertir na floresta. Ou existe alguma maldade entre crianças de sexo oposto que brincam entre si senão aquela suspeita pecaminosa dos adultos?

Quer dizer, diferente da Finlândia, no Brasil a gente é criado desde cedo sob vários símbolos sutis ou explícitos de sexualidade. Eu tinha uns nove anos e já cantava ♪♫ meu pipi no seu popo, seu popo no meu pipi ♪♫ e ai do moleque que invertesse os pronomes. E o pior é que esses comentários, hábitos ou ações já estão tão enraizados no nosso cotidiano que quem os questiona é ironicamente tido como o maldoso que vê coisa onde não tem. Pra muitos, vai parecer que eu estou exagerando. Eu sei que alguns vão pensar assim porque eu teria pensando assim antes de ter vindo para cá e visto relações diferentes de adultos com a infância. Até mesmo em momentos de purificação da alma, como na confissão católica, eu me lembro de ter sentido a maldade adulta. Mas só me liguei nela como problema ao contar sobre minha primeira e única confissão a Wife. Foi esses dias. Quando falei, ela pulou na cadeira espantada e, com os olhos azuis esbugalhados, gritou: "O quê!? Ele te perguntou isso?"

Perguntou. Eu com nove ou dez anos sentado na cadeira, em frente ao altar de frente pra ele (não tinha o confessionário como nos filmes). Eu cheio de medo, sem graça, cabeça baixa com medo dele me reprovar por ter colocado pó de mico no ventilador da escola, ou por ter quebrado a janela do vizinho com a bola de futebol. Eu com pavor de todas as imagens de santos e santas me olhando por todos os lados enquanto a luz vermelha do sacrário indicava que Cristo estava ali pra ouvir eu admitir que tinha falado palavrão ou roubado umas moedas da bolsinha da minha mãe pra comprar bala. Qual pecado será pior pra um moleque de nove, dez anos? Logo descobri.

"Você já teve penetração com alguém?", ele perguntou. Eu sabia o que ele queria dizer pois, com nove ou dez anos, já sabia o que era saliência porque algum adulto já tinha me falado que isso era pecado dos brabos. Mas também já sabia que era humilhante pra um homenzinho admitir não ter tido a experiência.  Imagina se os coleguinhas mais velhos da escola descobrissem? "Sim", menti.

"Com um menininho ou uma menininha?" ele continuou. Eu já sabia que saliência com outro menininho era fazer meinha, e meinha era coisa de bichinha. E ser bichinha era humilhante para um homenzinho de nove ou dez anos. "Menina", menti.

"Pela frente ou por trás?", ele continuou. Minhas mãos suavam. Qual era a diferença entre "frente" e "trás"? O que era menos pecado? "Frente", chutei. O padre deve ter ficado aliviado. Eu não. Me senti péssimo, com medo de Jesus saber que eu pecava ao inventar pecados. Mas melhor pecar com pose de homenzinho feito do que fama de mariquinha, essa foi minha lógica com nove ou dez anos.  "Ide em paz, meu filho", encerrou os procedimentos e chamou o próximo pecador infanto-juvenil.

Não lembro da minha penitência, mas sei que nunca mais me confessei. Só que por muito tempo me puni por ter mentido ao santo padre que só queria meu bem. Até ouvir o "quê?!" da Wife. Aí que me liguei que se tive uma infância repleta de pensamentos sexuais e preconceituosos foi porque alguém - como este malicioso  homem de batina e os pais abitolados finlandeses - confundiu minha visão de mundo. Reclamamos muito do fim da inocência e da pureza das crianças no Brasil. Foi aqui que vi que tudo não está perdido. Na Finlândia que eu vivo (há outras bem diferentes, não esqueça) eu me liguei que as crianças podem permanecer inocentes e puras, e crescer respeitosas e maduras, se nós, malditos adultos, não as contarminarmos desde cedo com nosso próprio pus.

8 comentários:

Anônimo disse...

Gostei. Digo, gosto da sua maneira de escrever e pensar. (Mas, um pouco fora do assunto, não acredito que as criancas e os jovens automaticamente vão ser menos preconceituosos - pra isso acontecer é e, vai sempre ser preciso ter educacão.)

-w

Dany disse...

Clap, clap, clap!

Léo, hoje em dia, minhas alunas de 10 anos tem mais maquiagem na bolsa que eu. Detalhe: Só aprendi a usar maquiagem com quase 20 anos na cara.
São super estimuladas pelos pais a esse tipo de comportamento. Quase morro quando vejo uma menininha de salto!!!
E, sim, tudo culpa dos pais e da mídia, claro.
Parabéns pelo texto.

Cris Neres disse...

Léo adorei o post, seria um "pecado" não postar...Como educadora e cidadã tb me sinto incomodada com a diminuição da infancia, digo diminuição pq como a Danny disse as crianças estão mergulhando no mundo adulto cada vez mais cedo. Lamento muito por isso, a infancia é uma fase da vida que deve ser muito bem aproveitada, lembro e sinto saudades das brincadeiras de rua, de joguinhos bobos que vc citou e dos desenhos animados que eu gostava (a maioria dos desenhos hj são cheios de duplo sentido). Sabe é duro ver tudo que vc citou acontecendo, infelizmente (falo isso com muito pesar)não vejo perspectivas de melhora pq além de educação a mentalidade tem que ser mudada, e mudanças em coisas arraigadas na cultura é um processo de longo prazo. No fundo no fundo, ainda há há um resquicio de otimismo em mim...
Otimo fim de semana p vc!

Léo C. disse...

@ Wife: Acho que este foi o aspecto que eu deveria ter desenvolvido mais neste post: a importância das muitas e diversas ações educacionais desenvolvidas por aqui. Valeu pela ressalva. :)

@ Dany (Saudades e bom te ver por aqui!) e Cris: Valeu pelos comentários, principalmente por serem duas educadoras e terem uma visão privilegiada sobre o problema.

Eu pensei na mídia também, mas não coloquei tão explicitamente no meio de propósito. O problema é que quando as pessoas em geral falam "a mídia", parece que estão falando de uma entidade, de um espectro que toma conta do espaço simbólico como uma força maior, sei lá. Eu evitei pq no fim, a mídia é feita por adultos, certo?

Por pessoas que têm filhos e filhas e que provavelmente muitos não expõem seus pequenos ao que elas produzem. Como os que administram a mídia tem níveis de estudos mais avançados em geral, eles oferecem a seus filhos exatamente o que deveria ser oferecido aos filhos do outro lado da tela ou do rádio: produtos menos maliciosos, mais educativos e que colaborem para o crescimento intelectual dos pequenos.

Não sei se dá pra culpar só os pais tb, pq mtos cresceram neste ritmo (os baixinhos da xuxa hj são pais e mães, por exemplo). Como bem disse a Cris, é preciso mudar a mentalidade e a educação. Mas vai levar mto tempo mesmo, principalmente pq em geral (fora dos âmbitos educacionais) ainda nem nos atinamos pro problema.

Qual o caminho então? Eu sinceramente não sei ao certo.

Cíntia Echel disse...

Digamos que você volte ao Brasil e dê aulas novamente, acho que seu coração não aguentaria ver como em 10 anos a coisa já evoluiu (pra pior).
Você sabe bem que na minha época já era tenso, mas a gente ainda se apaixonava, escrevia o nome do menino no canto do caderno, se arrumava pra encontrar com ele na Cooperativa no sábado, era mais normal. Eu me assustei quando troquei a cadeira de aluna pela mesa do professor e ouvi não que fulana era apaixonada por fulano, mas que tiraram fotos da menina fazendo oral em dois meninos ao mesmo tempo no banheiro da escola ou coisa parecida.
Não é tanto tempo assim, e a coisa tá fugindo o controle... O que acontece é banalização da sexualidade, pq ligar a TV e assistir na emissora evangélica mais conhecida do país um programa com a Mulher Melancia e a Geisy do Vestido como protagonistas, realmente é demais pra mim, viu?!
Mas é sabido que discurso moralista não resolve. Eu já livrei duas ou três (agora ex) alunas de sérias roubadas só por falar a linguagem delas, sem hipocrisia e com bastante objetividade. Acho que isso é o que falta pra conseguir de fato guiar e mudar o quadro, mudar a forma de abordagem. As falas estilo "Bispo Macedo" não convencem e acabam estimulando a rebeldia dos aborrecentes. Mudar o "Não pode porque não" por "Não te aconselho porque..." já é um bom começo, concorda?
Como você disse com relação a política, tem assuntos que devemos deixar a religião (especialmente as coisas que a igreja católica da Idade Média decretou) de lado para tratar com mais liberdade e sinceridade.

Geraldo disse...

Oi Léo, legal essa história. Já passei por uma experiência religioso-católica semelhante, mas bem mais dramática, meio tragicômica. Eu tinha uns 13 anos e havia uma garotinha de uns 15 anos que fazia "sacanagem" com todos os meninos da minha turma. Minha formação católica foi muito forte, mas seguindo os instintos da pré-adolescência eu entrei na fila também, mas não cheguei a consumar o ato, a menina refugou na hora. Mas agora é que começa o drama. Desceu um complexo de culpa-pecado tão grande que eu comecei a ouvir o "tatá" (capeta) falando no meu ouvido ("eu vou entrar em você", "você não escapa"), e não tinha com quem conversar (meus amigos iriam rir de mim, sem chance de contar prá eles, meus pais ou irmãos nunca). Eu não conseguia ficar sozinho em lugar algum, não ficava em lugar escuro e fiquei realmente desesperado. Comecei a ler a Bíblia para achar uma luz, e por uma infeliz coincidência (ou não?) a primeira frase que li falava sobre uma tal de "concupiscência". Perguntei minha mãe o que era isto e ela: "é maldade, coisa ruim, pecado, igual esses meninos fazem com aquela menina!" Putz, minha mãe estava falando justamente da dita cuja! Aí foi um estrago, o tatá ria de mim e falava que eu estava perdido. Eu comecei a andar com a Bíblia debaixo do braço, tentando "converter" meus colegas, que riam e me chamavam de "cristão". Eu não queria confessar com padre, porque tinha medo de ele contar prá minha mãe, mas no auge do desespero não dei conta e fui confessar. No meu caso havia confessionário, e a gente ajoelhava e o padre ficava do outro lado da gradinha. Eu, desesperado, olhos arregalados: "Padre, eu cometi adultério, padre", e continuei falando meio sem nexo (cena sem dúvida divertidíssima prá um adulto ver). E agora o golpe final: O padre deu um sorriso irônico (dava para ver perfeitamente da gradinha) e falou que não era adultério, adultério era coisa de adultos, me deu uma penitência (rezar algumas ave-marias na igreja) e saiu com um sorriso maroto. Desse momento em diante eu passei o tempo mais terrível que você possa imaginar. Minha última esperança, o padre, havia rido do meu desespero, e o tatá tinha certeza que ia me tomar, e eu simplesmente não sabia o que fazer. Então, no desespero dos desesperos, eu comecei a pensar no porquê de os meus colegas terem feito a mesma coisa e estarem numa boa, e eu naquele estado miserável (desculpe o drama, mas é que estou tentando passar a intensidade do que senti na época). Minha saída foi começar a questionar toda a minha formação, parei de ir à missa, sofri uma pressão danada da minha mãe ("você vai perder todos os privilégios de filho caçula"), mas saí daquela. O final é feliz, porque eu sou hoje um adulto que questiona e tenta entender as coisas, como produto direto dessa experiência. Hoje eu entendo o padre (um holandês que não falava português direito, e que há pouco tempo fiquei sabendo que foi "estudar a geografia dos campos santos"), acho que se estivesse no lugar dele seria difícil segurar o riso. Mas não foi nada engraçado na época.

Irene Nousiainen disse...

Adorei!
Penso que não é questão de culpa mas de educação. Que tipo de visão de mundo e de conhecimento a respeito da vida é transmitida de pais a filhos, seja de forma direta, indireta, subliminar, consciente, inconsciente, somado aos seus próprios comportamentos, atitudes e até comentários ao acaso que são, ao final, o reforço do mundo que ensinam existir e ter valor aos filhos.
Obrigada por sua reflexão. Muito lúcido, como sempre!
Um abraço

tatiana disse...

oi Léo... gostei muito do teu post, trabalho em uma escola no bairro mais carrente da minha cidade, e vejo todos os dias palavras e comportamentos em crianças de 5, 6 anos que nao condizem com suas idades, não que a pobreza seja uma desculpa, mas a falta de orientação, a preocupação com a edução, e o acompanhamento dos pais seria de grande ajuda, o grande problema no nosso país é que infelizmente muitos pais pensam que as escolas é que devem educar seus filhos, isso quando não os deixam na rua aprendendo bobagem e ouvindo musicas e piadas que só enfluenciam a malandragem, sem falar na cobrança dos pais, como vc comentou de ser o "garanhão" o "pegador".Tive a oportunidade de conviver com finlandeses e pude notar essa difença... pela primeria vez vi um pai carregar o desenho de uma filha dentro de sua pasta de trabalho,se isso não é amor e cuidado não sei qual nome dar... talvez isso é o que esteja faltanto por aqui, pq quando temos amor e educamos com amor só podemos colher bons frutos.