O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pesadelo no Mercado de Hakaniemi (conto de Natal)

Tinhamos decidido: eu iria ao mercado de Hakaniemi no dia 23. Ou seja, na manhã seguinte. Ajustei o alarme do celular pra bem cedinho, separei a mochila surrada, coloquei o cartão do banco perto do cartão do ônibus e da chave do apartamento na mesa da cozinha. Assim, tudo o que precisaria estaria no caminho quando acordasse. Num pedaço de papel, a lista do que precisaria: salmão defumado, salmão fresco, silli (herring nórdico) em conserva, presunto assado e queijos.

As compras em Hakaniemi são uma tradição compartilhada por muita gente em Helsinki. Por isso é bom ir cedo: o lugar é pequeno e a quantidade de gente é enorme. Isso acaba gerando um empurra-empurra muito desconfortável. Fui dormir me preparando psicologicamente para a aventura do dia seguinte.

...

No susto acordei e pulei da cama. Não ouvi o alarme. Fui pra cozinha, abri a janelinha 23 do calendário do advento, troquei de roupa, engoli duas fatias de ruisleipää com suco de frutinhas da floresta, peguei o que precisava, vi o horário do próximo ônibus pra Hakaniemi e saí. 20 minutos depois cheguei na praça onde fica o mercado.

Como eu tinha dito, fazer as compras de Natal no mercado de Hakaniemi talvez seja uma das maiores tradições desta época do ano na capital da Finlândia. Aberto em 1914, o mercado hoje é reconhecido por ter lojas tradicionais especializadas com produtos frescos e de ótima qualidade. E o Natal talvez seja o seu auge comercial. Quase todo mundo vai lá: idosos, jovens e crianças. Todos atrás do frescor dos produtos e da experiência de manter a tradição viva mesmo que custe um pouco mais caro do que as cadeias de supermercado. Em geral, o mercado de Hakaniemi é um lugar muito agradável com seus aromas, sabores e receptividade. Mas o Natal é um caso a parte. Por isso eu fui preparado.

Antes de entrar, encontrei um cantinho vago para amarrar meu espírito natalino. Como todas as outras pessoas lá dentro, ali fora do mercado eu deixei minha gentileza, educação e cordialidade presos num cadeado vermelho. Em seguida, tirei um soco-inglês do bolso, frangi os olhos e entrei.

Assim que passei pela primeira porta, vi que esse ano seria intenso. Ao passar pela loja de doces, uma velhinha com capacete de goleiro de hóquei me jogou pra longe. Ela estava correndo para fora com o presunto de Natal embaixo do braço. Quando tentei levantar, meu pé foi puxado com o guarda-chuva por um velinho que vinha atrás de mim. Caí e levantei, mas o velho entrou primeiro. Rindo.

Parecia que toda Helsinki estava ali. Os corredores devem ter uns dois metros e meio de largura. Nesse espacinho, tem a fila de gente que vai, a fila de gente que vem, todos aqueles que param nos balcões das lojinhas e os sem noção que param no meio do caminho sem motivo aparente.

Espremido, tentei chegar na loja de peixes. Para minha sorte, uma velhinha passou abrindo caminho com sua bengala catucando canelas, espremendo dedões e acertando as partes baixas de um ou outro valentão que se recusava a deixar ela passar. Colei atrás dela e logo vi o balcão com os salmões. Mas como chegar perto com tanta gente na frente?

Com o soco-inglês, dei um murro no cliente da esquerda e com o cotovelo dei um chega-pra-lá na moça que estava prestes a fazer o pedido. Encostei o umbigo no vidro quando o vendedor gritou: "Seuraava!" (próximo!). Rapidinho eu gritei "minä!" (Eu!) e fiz meu pedido. Me empurrei para trás, coloquei os peixes na mochila e mirei a loja de presunto.

Mais uma vez, dei sorte. No corredor, dois homens trocavam ofensas. Na loja do lado, a mais tradicional, tinha só um salmão finlandês. O resto era norueguês. Eles brigavam pra ver quem levaria o melhor peixe (o finlandês, é claro). Nisso uma multidão se espremeu na frente da loja gritando "kotimainen! kotimainen!" ("Local!Local!") num protesto por mais salmões finlandeses.

Com o clarão aberto no caminho, cheguei rapidinho na loja de carne e comprei o presunto. Mas quando peguei meu cartão e tentei sair, um homem alto e braçudo me empurrou pra cima do balcão de compotas da loja vizinha. Tonto, limpei a geléia de framboesa do casaco, tirei os cacos de vidro do rosto e ensanguentado fui pra loja de queijos. Como eu parecia que estava bêbado, todo mundo se espremia pra deixar eu passar.

A loja de queijos é a mais popular e por isso tem fila dupla: uma pra esquerda e outra pra direita. Num momento de agilidade, empurrei o primeiro de uma fila e dei um chute no outro. Com o efeito dominó dos dois lados, não foi difícil comprar o queijo. Sorri, mas não por muito tempo: o povo das duas filas se juntou, me encheu de sopapos e me jogou na rua. Desmaiei.

...



O alarme tocou e eu dei um pulo. Passei a mão no rosto e não vi sangue. Não senti dores no corpo. Aliviado por perceber que tudo tinha sido um pesadelo, levantei, fui pra cozinha e me preparei pra sair. Quando cheguei à Hakaniemi só sabia sorrir apesar do empurra-empurra e da falta de educação. No sacrifício, comprei as coisas e saí jurando que nunca mais voltaria lá nessa época. Do mesmo jeito que fiz no ano passado. Quer saber? Acho que o sufoco das compras de Natal também seja parte da tradição do mercado de Hakaniemi. No fim, com ou sem sofrimento, vale a pena: tudo lá é muito fresco e gostoso. Se vier à Helsinki, não deixe de passar lá pras compras de Natal. E não esqueça o porrete. Brincadeirinha. Paciência basta.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Chegada do Inverno na Finlândia (ou A Vingança das Formigas)

"[...] Agora eu sei! Agora eu sei o que vocês formigas sentiram naquela época", pensei ter dito ao acordar hoje de manhã depois de uma noite muito mal-dormida. Mas aqui em casa não têm formigas, por que eu estava falando com elas? Espremi a caixinha fresca de suco de laranja com manga e tentei lembrar o porquê dessa loucura.

Quando eu era bem pequeno, eu gostava de fazer uns experimentos bizarros numa mistura de curiosidade e crueldade infantil. Nada muito grave, talvez mais cruel na época do que agora. Por exemplo, quando eu via uma barata eu dava só um tapinha com as havaianas para imobilizá-la e depois arrancava a cabeça com um palito de picolé pra ver o que acontecia. Ou seja, era nojento, mas não covarde ou brutal (desculpem-me os que amam e lutam pela preservação das baratas). Nunca tive coragem de ser o carcará de Bethânia e pegar, matar e comer as rãs que "pescávamos" nos brejos mageenses. Fazer maldade com gatos ou ratos então (como alguns pestes faziam), nem pensar. Mas os insetos, estes sim faziam um sacrifício-mor pelo bem do meu conhecimento. Que o digam as formigas.

Eu lembro de sentar no paralelepípedo da calçada e esperar até que aqueles formigões saíssem de trás dos raminhos de capim que cresciam entre a pedra e a rua. Daí, com a unha maior do que mãe permitiria, eu as pegava cuidadosamente e as colocava num copinho. A maioria das vezes, eu só olhava enquanto elas davam círculos sem fim no vidro. Outras vezes eu as jogava dentro da camisa de alguém pra ver se fazia cosquinha.♥

Mas eu gostava mesmo era de testar a resistência das bichinhas ao calor e ao frio. "Quanto tempo elas duram?", eu repetia sozinho antes de caminhar pra cozinha. Lá, eu abria a geladeira e o congelador, que sempre depois de descongelado parecia com minha idéia de Alaska: uma camada de gelo fino e aquela névoa fria se perdendo no horizonte. Daí, eu pegava uma formiguinha e sussurrava: "vai ao final e volta. Se voltar, eu te tiro" Com muito cuidado, eu as colocava no chão de metal frio. Um passo, dois, três...congelavam. Quando mãe fazia bolo, eu tentava o mesmo no forno, mas nesse caso nunca teve um passo sequer. "Bicho fraco!", pensava. Agora eu sei.

O inverno finalmente chegou na Finlândia. Semana passada, em uma só noite caiu neve o suficiente pra fazer todo motorista soltar um sonoro "Taquilpariu!" Aqui em Lahti foram quase 10 centímetros de neve que ainda está nas ruas. A temperatura finalmente se mantém abaixo de zero. É muito frio, mas dos males o menor, porque não chove. Tirando o vento de rachar a cara que vem eventualmente, é um tempinho suportável. E a neve dá uma claridade extra pros dias curtos e sem sol. Além disso, tem o fator que muitos brasileiros não entendem: todas as casas tem aquecedor, então dentro de casa os dentes não se batem. O problema mesmo é a mudança de tempo. O outono é frio, mas nem tanto. Daí, com qualquer agasalho se safa enquanto os aquecedores ficam a meia-pressão. Mas é na mudança de estação que eu sinto no corpo o sofrimento dasquelas formigas.

Se não me engano, todas as casas têm termômetros nas janelas. Além disso, o serviço de previsão do tempo online é bem preciso. Tudo isso pra você saber onde estará se metendo ao passar pela porta. O problema é que sempre tem o fator psicológico de resistência ao frio tipo acho que dá:  "acho que dá pra ir só com esse moleton", "acho que dá pra ir sem luva", "acho que dá pra ir sem toca"... e aí, se estrupia. Nos dez primeiros passos tudo vai bem. Mas aí a orelha começa a esfriar, o vento passa entre os panos e vai até o osso, o ser se encolhe como...formiga (!!!), puxa a gola da camisa e faz bafo pra ver se esquenta. Nada. Os dedos enrugam, pinicam e doem de frio. As beiças racham como sertão e os olhos esbugalham bolados: "nem cheguei na esquina!" Ou seja, a adaptação à transição entre o frio e o "frio pra caralho" é que doi, literalmente. Essa mudança também afeta dentro de casa.

Eu e a Wife moramos numa pienkerrostalo, um tipo de casarão de madeira dividido em apartamentos para alugar (tipo esse da foto). Neste caso, não temos o poder de ligar os aquecedores. Eles ligam numa central. Mas temos um botãozinho que controla a intensidade de calor dentro de casa. Lá em Outubro, quando começou a esfriar, a central ligou os radiadores, mas na potência fraca. Como ainda estava meio frio, o que fiz: rodei quase todos os botãozinhos para o máximo. Mas nessa semana, com a queda da temperatura, a central aumentou a potência do aquecedor e não avisou. Ou será que as formigas roeram os avisos?! Só sei que ontem, quando fui dormir senti aquele bafo quente quando entrei no quarto. Pensei que era por ter acabado de vir do quintal. Deitei e me cobri. 10 minutos depois, isolei a coberta e as meias. Só de short e descoberto, dormi. Sonhei que o travesseiro me sufocava. Sonhei que o mundo tinha secado (dava pra ir ao Brasil de ônibus!!!). Acordei com dor-de-cabeça, o pescoço doendo, a garganta seca e suado horrores. Rolei, diminui a temperatura e liguei meu ventilador com vento na minha cara. Aí sim meu sono durou, mas tive outro sonho muito esquisito. 

Sonhei que fui para o inferno. Lá, ao invés do cramulhão clássico, eu vi uma formiga gigante com chifres olhando pra mim meio com raiva, meio com gozo. As milhares de obreiras riam agudo de fazer eco nas profundezas. Até que a formiga-demo se aproximou de mim e disse. "Tá sofrendo, safadão? Vai pedir pra sair? Pede pra sair!!!" E gritava, enquanto cospia fogo na minha cara. Apavorado, cansado, doído, eu pedi pra sair. Ela gritou, elas vibraram. "Bicho fraco! Vai ficar aqui pra gente ver quanto tempo você dura", disse aquele formigão dos infernos. Eu desesperei, pedi, me humilhei. "Agora eu sei! Agora eu sei o que vocês formigas sentiram naquela época." Até que acordei e regulei todos os aquecedores. Só não consigo parar de imaginar como será a vingança das baratas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Poderia ser pior | It could be worse

É inverno. Seu celular desperta, mas você aperta o snooze. Cinco minutos depois, você estica o braço e se pergunta porque o celular não tocou de novo. Ao apertar os olhos contra a luz do visor, você vira pro lado e fala: "C@r#¤%!"

It is winter. Your cell phone alarm rings, but you snooze it. Five minutes later, you reach out for the phone and wonders why it didn't ring again. You press your eyes against the display's light, turn around and say: "F#¤%!!"

Não. Você desligou o alarme, não apertou o snooze. Sim. Foram muito mais do que cinco minutos. Você pula. Se arruma. A reunião começa em uma hora. Você pensa em como os finlandeses odeiam atraso. "Tô f¤¤%¤!" Sem tempo pro café, você corre pro carro.

No. You turned the alarm off, you didn't snooze it. Yes. It was much more than five minutes. You jump off. Get dressed. The meeting is in an hour. You remember how finns hate delays. "I'm screw¤d". No time for coffee. You run to the car.

"M¤%&!" você grita ao ver a crosta de neve lhe cobrindo o parabrisa e o resto. 45 minutos. Você decide ir de ônibus. Abre o laptop e conecta na rede wi-fi do vizinho. No site você descobre que tem três minutos para chegar ao ponto da esquina. A esquina fica a 500 metros. "P&%# quil P@¤%!!!" Você fecha o laptop, bota debaixo do braço e corre.

"Sh¤t!" you shout when you see the crost of snow covering your windshield and the rest. 45 minutes. You decide to take a bus. You open the laptop and connects it through the neighbors wi-fi network. In the website you discover that you have three minutes to get to the bus stop on the corner. The corner is in 500 meters. "Da¤m!" You close the laptop, put it under your arm and run.

Você acha que vai perder o emprego e vai mais rápido. Mas se esquece do gelo no chão, escorrega e cai. "Pléc!" você ouve. "Ahhhhhhh!!!" Você grita. Você cata a bateria do laptop, se levanta e corre. 1 minuto. 200 metros. Tá escorregando. "Fod¤-se!", você diz. Corre!

You think you'll lose the job and go faster. But you forget the ice on the road, slips and falls. "Crac!" you hear. "Ahhhhhhh!" you scream. You collect the battery of the laptop, get up and run again. 1 minute. 200 hundred meters. It's slippery. "F¤ck it!" you say. Run!

O ônibus está no ponto. Você não. Você acelera. O motorista começa a acelerar. Você bate na traseira do ônibus e olha dentro do retrovisor. O motorista para. Você entra, encosta seu cartão no leitor e se senta. "Que jeito de começar o dia...ufa!" Você se alivia. Relaxa.

The bus is at the stop. You're not. You speed up. The driver starts the engines. You beat the rear of the bus and look deep inside the driver's mirror. The driver stops. You get in, pass the card on the reader and sit down. "What a way to start a day...whew..." You feel relieved and relax.

No seu ponto, você desce. Pela calçada você anda, se escondendo do vento frio perto da parede dos prédios. "Ploft!" Do alto do prédio, um monte de neve cai na sua cabeça. Sua roupa preta fica branca. A neve fina agarra no seu casaco, derrete gelada, entra pela gola, escorre por sua pele quente e lhe entra pela orelha. "C-A-R-A-¤%&!!!"

At your stop you leave. By the sidewalk you walk, hiding from the wind close to the building walls. "PLOFT!!" From the roof a lot of snow falls on your head. Your black clothes become white. The thin snow sticks to your coat. It freezingly melts through your shirt neck and melts all the way down your warm skin. You feel it in your ears too. "F-¤-C-K-I-N-G H-£-L-L!"

***moral da estória***
***moral of the story***


Pense duas vezes antes de reclamar por não poder usar uma calçada e ter que dar um voltão porque os caras estão raspando a neve dos tetos. O seu dia poderia ser muito pior sem eles.

Think twice before complaining of not being able to walk through a sidewalk (and thus having to take a long turn) because the guys are scratching the snow off the roofs. Your day could be much worse without them.

domingo, 22 de novembro de 2009

Pikkujoulu

Português abaixo. Pikkujoulu (Pequeno Natal) são festas tradicionais na Finlândia no período de fim de ano. Empresas costumam bancar uma super festa pros funcionários beberem e celebrarem o fim do ano. Ênfase no "beber". :)

Suomessa on pikkujoulun aika. Matti ja Maija Meikäläinen ovat nyt iloisia ja innostuneita mutta huomenna... Tänään heillä on juhlat töissä. Joka vuosi se on samanlainen: he juovat paljon ja tekevät typeriä asioita. Viime vuonna, kun Maija tanssi pomonsa kanssa, Maija kertoi hänelle että hän oli typerä ja hänen hengitys haisee. Maija ei ole vielä saanut ylennystä. Matti meni pikkujoulujuhlan jälkeen baariin ja pelasi pokeria tuntemattoman miehen kanssa. Hän oli kännissä ja seuravana päivänä hän ei muistanut mitään. Mutta kun hän katsoi verkkopankissa saldoa, hän itki: hän hävisi yli 20 tuhatta euroa pelissä. "Miksi?! Miksi minä tein niin!?", he kysyivät silloin. "Mitä minä laitan päälle illalla?", he kysyvät nyt. Minä mietin, mitä typerää he tekevät pikkujoulujuhlassa tänä vuonna.


É tempo de pikkujoulu na Finlândia. Matti e Maija Meikäläinen estão felizes e ansiosos, mas amanhã... Hoje eles têm festa no trabalho. Todo ano é a mesma coisa: eles bebem muito e fazem coisas idiotas. Ano passado, quando Maija dançava com o chefe, ela disse a ele que ele era idiota e que tinha bafo. Maija ainda não recebeu a promoção. Matti foi pro bar depois do pikkujoulu e jogou poker com um cara desconhecido. Ele estava bêbado e no outro dia não se lembrava de nada. Mas quando ele viu o saldo na sua conta pela internet, ele chorou: ele perdeu mais de 20 mil euros no jogo. "Por que!? Por que eu fiz isso?!", eles perguntaram na época. "O que eu visto hoje a noite?", eles perguntam agora. Eu imagino que idiotice eles vão fazer na festa de pikkujoulu esse ano.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Quando não se sabe Finlandês, imagina-se... :)

História fictícia. Qualquer semelhança, você sabe, é pura coincidência. Ou não...rs

Um homem que pouco falava finlandês estava num trem da VR. Atrás dele, uma menina de uns vinte e poucos anos recebia uma ligação no celular. Como eram 8 e pouca da manhã chuvosa, não deu para o mocinho evitar de ouvir a conversa.

O problema é que a curiosidade ficou pela metade uma vez que não se dava pra a voz que falava com a menina. Com apenas um lado da história, o enredo ficou por conta da imaginação do nosso amigo besbilhoteiro.

Terve (Oi!)
Hm, é alguém conhecido pq senão ela teria dito o nome e ficado menos alegrinha ao parar o ring tone das Pussy Cat Dolls.

Niin (ahã...)
Aconteceu alguma coisa...a outra pessoa tá contando e ela vai dando corda...quer ouvir mais.

Niin (ahã...)
E mais...

Niin (ahã...)
...haja corda...

Niinkö?!!! (é mermo?!!!)
Pronto. Eu sabia. Provavelmente a amiga (sim, pra falar tanto só pode ser amiga. afinal homem não fofoca) contou alguma sobre o marido de alguém. Provavelmente o camarada ficou bêbado e saiu por aí perturbando o juízo das colegas de trabalho.

Herra Jumala! (Meu Deus!)
Não disse!!!??? Esse filho da mãe deve ter cantado e mulher do chefe, provavelmente uma senhora mais velha, porém enxuta e bem conservada. Como ainda é Setembro, deve ter sido algo especial no escritório. Se fosse Dezembro eu diria logo: Foi no pikkujoulu, aquela festa de natal famosa onde colegas perdem a linha!

Tä!!!!???? (O quê!?)
Puta que pariu! Ela disse "Tä!!!". A merda foi maior do que eu imaginava. O marido deve ter chegado na hora e pegou os dois no flagra no momento em que o cara bêbado beijava a mulher dele. Meu Deus, que absurdo!

(puxa o ar pra dentro e diz ao mesmo tempo) Uskomatonta! (Inacreditável!)
Que absurdo!!! O chefe pra se vingar deu em cima da mulher do bebum. Nossa, que coisa mais mexicana, uma pouca vergonha! Como pode esse pessoal ser assim tão sem-noção quando tá com a cara cheia?

Uns "Tä?" e outras coisas do tipo depois, a conversa acabou. Ao chegar na estação, porém, o homem não se conteve e quis saber qual era o assunto ao qual a mulher tanto reagiu. Pensou, pensou...se aproximou e disse em Inglês:

Anteeksi, não deu pra evitar ouvir sua conversa. Está tudo bem, tudo está resolvido agora, né? Se sua amiga quiser dar uns sopapos naquele salafrário, é só avisar. De onde eu venho essa sem-vergonhice se resolve é no tapa! Eu tb odeio esse tipo de baixaria. Vou te contar, viu? Eu pensei que isso aqui fosse primeiro mundo!

domingo, 20 de setembro de 2009

Contos de Lahti ou Loucuras do Léo?


Foi derrubado da bicicleta e ao que seus joelhos se espatifaram no chão ele recebeu socos e pontapés de todos os lados. Dizem que Lahti é a Chicago finlandesa, mas ele nunca pensou em ser atacado assim, bem no centro da cidade.

"Mas, mas mas...o que é isso!?", gritou antes de soluçar e cuspir o sangue que lhe subiu pela garganta depois do chute no estômago que recebera.

"Nunca mais, entende? Nunca mais!!!", ouviu antes de seus olhos apagarem.

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...1 minuto antes...
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A senhora tentou mas não conseguiu empurrar seu andador a tempo de passar antes da mudança do apito mais rápido ao mais lento. Apertou o botão, ajeitou suas bolsas de compras e esperou. Meio sem vontade, mas esperou porque é isso que se deve fazer.

A mãe segurou os braços da filha e explicou: espera-se pois assim é a lei, é a ordem. O certo. E todos devem fazer o que é certo e ela devia aprender a controlar sua energia inconsequente.

Do outro lado, o rapaz parecia preocupado. De longe se via que ele queria aproveitar o ritmo que lhe conduzia em seu iPod e seguir seu caminho numa velocidade que lhe recuperasse o tempo do atraso. Mas parou, parou desesperado porque é isso que se faz. Não se deve desrespeitar as senhoras, não se deve dar mau exemplo às crianças.

beep......beeeeeep....

O apito se arrastava e se perdia no silêncio. Pararam, olharam e nada além do apito escutaram. De um lado, nada vinha. Do outro, nenhum motor se fazia ouvir. Nada. Mas ao olhar pro alto, ele ainda estava lá: vermelho como o sangue que correria pelo asfalto caso eles ousassem colocar os pés além dos limites da calçada.

"Vambora, velha! Se você for eu vou e dane-se a educação da criança. Se nenhuma delas estivessem ali, eu já estaria lá...que merda!", pensou o rapaz ao frangir a sombrancelha como se fulminasse a menina e pressionasse a senhora sem que a mãe notasse a conspiração da que seria vítima.

"Depois falam que essa geração de atualmente não respeita a ordem. Veja só: a menina ensinando a filhinha a se comportar...o jovem apressado, mesmo apressado, esperando...dá até orgulho", pensou a senhora enquanto seus olhos agradeciam ao rapaz e seus ouvidos se deliciavam com a moça e a filha.

"Está vendo? É isso que se faz. Mesmo que não venham carros, se espera até que o apito se apresse e que o mocinho vermelho se acalme e fique verde. Aí sim, você pode continuar, entendeu?", falava a mãe inclinada para olhar nos olhos da filha. Virava seu rosto para o rapaz e para a senhora para justificar sua explicação.

"Mamãe, de bicicleta pode atravessar?", perguntou a menina ao olhar sobre os ombros da mãe. "Porque aquele moço lá não parece que vai parar pra esperar não," explicou ao ver um homem de aproximadamente 30 anos vindo em disparada detrás do rapaz.

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beep........beeppp....
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A mãe virou-se e viu que o homem não iria parar. A senhora também percebeu e as duas se entreolharam. Ao ver a reação das mulheres, o rapaz olhou para trás e viu o homem como uma bala se aproximando. Voltou os olhos para as mulheres. Os três ao mesmo tempo enrugaram a testa de raiva, firmaram os punhos. Com os dentes a mostra, rangiram em cólera.

A criança esperava a resposta quando viu o rapaz com o iPod esticar o braço direito no momento em que a roda dianteira da bicicleta atingiu o asfalto da rua. Desequilibrado, o homem cambaleou mas seguiu. Não por muito tempo.

A senhora empurrou seu andador na direção da bicicleta. As compras voaram enquanto o homem era arremessado por cima do guidão. Antes de cair, a mãe foi rápida e lhe deu um sopapo nas costas. O rapaz com o iPod correu para cima do homem. Dane-se a luz ainda vermelha. Ele lhe dava os chutes, enquanto a senhora o batia com o pepino e a mãe lhe esmurrava a cara. A menina chorava enquanto suas lágrimas se misturavam ao sangue do homem.

"Nunca mais, entende? Nunca mais!!!! Nunca mais você vai atravessar o sinal vermelho, mesmo que não venha carro; mesmo que a rua esteja deserta! Nunca mais!", gritavam os três enquanto a menina chorava com o rosto branco vermelho de sangue e desespero.

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beep beep beep beep beep...o apito intensifica. A luz verde acende.

Esfrego meus olhos e vejo o rapaz impaciente correndo em direção ao ponto de ônibus. A senhora empurra vagarosamente seu andador a caminho de casa. A menina sorri e saltitante atravessa a rua livre das mãos da mãe, que sorri ao ver a filha respeitar a lei da cidade. Ao longe, vai o homem que atravessou o sinal antes que o verde acendesse.

Eu sabia que assistir aos filme sobre "Kafka" com o Jeremy Irons, "The Tenant" (O Inquilino) de Roman Polansky, "Inglorious Basterds" de Tarantino, "Vertigo" de Hitchcock e começar a ler "Vigiar e punir" do Michel Foucault na mesma semana não me fariam bem...

...ainda assim, será que eu sou o único que tem esses pensamentos ezquizofrênicos ao respeitar à risca e as vezes à contra-gosto as regras de trânsito para pedestres e ciclistas aqui na Finlândia?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Se eu fosse poeta e este post uma carta, assim seria escrito

Koli, em algum lugar no tempo

Nossa breve estada no monte Koli me fez desejar dar-te uma lembranca que traga em si a grandeza do que sinto por ti. Das rochas que escalamos e do dia longo que felizes passamos juntos veio-me um pensar súbito n’aquele que melhor lhe diria sem palavras o que és em minha vida.

Em silêncio, te deixei aos cuidados de Morfeu. No teu sono vi paz, nos lencóis que te abracavam te senti protegida. Despreocupado, apanhei a caixa das almas na esperanca de dentro dela trazer-te do monte a maior obra, o mais grandioso momento do dia.

Ao longe penumbro vi seu fogo brando aquecer o horizonte. Como eu despertara depois do adormecer da noite, por pouco não o vi acordar. Corri para as rochas e ansioso lhe pensei cantigas para que se levantasse feliz e belo. Aos poucos, o gigante revelou-se mesmo forte, mas tímido e sonolento. Ele brilhava como brilham seus olhos d’água, parecia sorrir teu sorriso nas frescas manhãs de verão. Ao perceber minha audácia de capturá-lo, apressou-se e ergueu-se em sua magnitude.

Ágil, eu me desviava de suas lancas de fogo desveladas sobre o orvalho que cobria as águas turvas do Pielinen. A sombra dos pinheiros me protegia de sua luz crescente que me cegava a lente e me impedia de enxergá-lo. Tão grande quanto sua beleza era sua vaidade, mas minha ambicão não se fez covarde, dele consegui guardar imagens para te dar. Mas o sábio Rei gargalhava, sabia que eu poderia trancá-lo, porém seu calor nunca poderia levar.

Por isso, amor, trago nesta pequena caixa retratos frios do sol nascente para alegrar seus dias quando as nuvens o impedirem de brilhar. E se frio sentires, deite-se em meus bracos. O Rei é soberano, mas só. Não sabe do calor dos beijos e abracos amantes que nossos corpos podem se dar.


***

Neste momento, estamos dirigindo de volta para Lahti. Deixamos o hotel e fomos à vila os avós da wife cresceram. Visitamos uma tia da minha sogra e agora seguimos viagem. Foi uma semana ótima, de descanso e tranquilidade. Agora, é hora de voltar para casa e preparar as duas festas de aniversário: 30 anos com a família na sexta, e com os amigos no sábado.

Em tempo, pra conseguir tirar a foto do nascer do sol, eu tive que acordar pouco depois das três da manhã e correr pra um lugar mais alto do morro onde ficava nosso hotel. Valeu a pena, as fotos ficaram lindas. Depois coloco elas no Flickr, Orkut e Facebook.

Abracos!

domingo, 19 de julho de 2009

Se "catar latas" fosse conto, assim seria contado

ou

"10 segundos olhando a velha catadora de latas"

O lenço que a protegera do sol, no cair da noite clara de Joensuu aquecia suas orelhas sem deixar de impedir que seus tímpanos vibrassem com o ruído estrondoso que atravessava as cercas e varava a cidade. Seus olhos cansados pareciam não se importar com o rugir das guitarras e baterias.

Milhares de olhos semi-mortos vagavam avermelhados sem perceber a velha e suas rugas queimadas de sol, sua boca destrocada pelo tempo e suas mãos umidecidas pelo veneno que os fizeram vagar zumbis ao seu redor. Envergavam-se com o peso de suas cabeças encharcadas. A brisa lhes soprava como se os chacoalhassem em tentativa vãs de despertá-los do transe.

E a senhora seguia, do Ilosaarirock nada sabia. No rastro dos bêbados, desviava-se dos corpos e se contorcia sofrida para tirar dos restos sua sobrevida. Olhos sãos viam seu sorriso quebrado, aberto a cada cálice erguido, como se brindasse com o sol quase ido num rápido gozo logo perdido ao voltar seus olhos para o chão.

No dia seguinte, os olhos azuis despertarão sem saber que do feitiço que os consumira, a velha senhora e tantos outros tiravam o elixir essencial de suas vidas. Se é que em algum momento vivem.

....

Na noite de ontem, passamos bons momentos com a mãe da wife e seus tios em Joensuu. Passamos um tempinho nos arredores do Ilosaarirock (onde 21 mil pessoas se esbaldavam num dos mais conhecidos festivais de verão e curtiam Children of Bodon, Stratovarius, e outros astros do rock e outros ritmos). Depois andamos pro centro da cidade, onde bebemos cerveja e comemos fritas com salsicha numa barriquinha de uns turcos. Hoje, depois de um almoço ótimo, seguimos para Koli, de onde escrevo no hotel. A vista é linda, uma das imagens clássicas da Finlândia: lagos, pequenas ilhas e pinheiros por todo lado. Amanhã cedo, pretendo acordar pra ver o nascer-do-sol. O problema é que o sol nasce pelas 4, 5 da manhã...ixi! Vamos ver no que dá!


sábado, 18 de julho de 2009

Se fosse aquela coceira um conto, assim seria contada

ou

"Já que não é para tomar mais banho, que a desculpa seja bem contada"

Foi como mágica, ninguém sabe o que lhe causou tanto sofrimento. Horas depois, ele pensa e em nada mais consegue encontrar a razão se não nas gotas d'água que lhe atingiram enquanto aproveitava um dia de sol no verão finlandês.

A semana vinha sendo perfeita: viajando pelo leste finlandês com a mulher e, depois de uns dias, a sogra. Passaram por lagos, passearam de barca, beberam, se recolheram numa casa confortável a beira do lago Viinijärvi, ao norte da Karjala, perto de Joensuu. Aproveitaram a sauna, o sol, comeram um delicioso salmão e, cansados, foram dormir. Ele mal sabia que, no dia seguinte, sentiria na pele o que veio a descobrir depois do ocorrido ser algo rotineiro nessa época do ano, por essas bandas. Se ao menos ele soubesse quando fechou os olhos e adormeceu ao nao ouvir o zunido dos mosquitos que disputam bracos e pernas com abelhas e outros insetos.

Descansado, acordou feliz. Despertou a mulher e foram para mais um café da manhã antes de novas aventuras. Mais uma vez, passearam pelos arredores, visitaram lugares, amenizaram o calor com sorvetes, não fizeram nada que pudesse ter causado aquilo que em algumas horas lhe faria desesperar ao ponto de lhe arrancar a própria pele com as unhas.

"Daqui a pouco vamos passear de lancha", a mulher avisou. Em pouco tempo, embarcavam todos na máquina veloz que cortava o vento e as ondas, espalhando a água do lago pelo o ar, como se brincasse de sacudir os navegantes e sorrisse a cada gota que os molhavam. "Olha isso... estranho não tinha sentido nada até então", dizia ele enquanto apontava a axila direita para a mulher. Um pequeno caroco, como uma picada dos malditos zunidores. Nao poderia ser...eles não vivem tão distante da margem. Aos poucos, viram que aquele não era trabalho dos pequenos voadores do mal.

"Está enorme", ela se surpreendeu. Aos poucos, suas unhas rasgavam-lhe as pernas, os bracos e as costas. Nada parecia parar aqueles carocos de espalharem e se juntarem e formarem camadas vermelhas e inchadas em sua pele. Enquanto a máquina voava pelas águas, ele já não mais apreciava a vista. Só via suas pernas, e bracos e sentia seus olhos fecharem inchados. "Vamos voltar para casa, parece alergia. Nossa, está muito espalhado", disseram nos companheiros medindo a vermelhidão de sua pele que se extendia por ambos os bracos, e pernas, e costas...a cada salto da lancha, uma sensacão de agonia. "O que é isso? E se não parar de inchar?", pensava. Chegaram à borda, a máquina deu sua última risada enquanto ele corria parando a cada passo para tentar parar o incômodo encravando suas unhas na própria carne.

"Tome esta pílula. Vamos levá-lo para Joensuu, você precisa ir ao hospital", disse a mulher. A sogra vou pelo asfalto. No caminho, as unhas já não tinham tanto motivo para continuar. Foi se sentindo melhor até que a médica lhe deixou entender que esse tipo de alergia - sabe-se lá porquê tenha sido causada - é muito comum e que não havia com o que se preocupar. No fim, sentiu-se aliviado com o fim da angústia e a possibilidade de poder aproveitar a noite com tranquilidade. O mistério ainda continua: não se sabe a causa da alergia.

Por via das dúvidas, ele decidiu nunca mais chegar perto d'aguas, incluindo aqueles que até então lhe banhavam diariamente.

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O problema foi identificado como urticália - não alergia - e veio e foi em algumas horas sem maiores consequências. Eu, quer dizer, "ele" já está bem e indo pra noitada com a família aqui em Joensuu.

:)