O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pesadelo no Mercado de Hakaniemi (conto de Natal)

Tinhamos decidido: eu iria ao mercado de Hakaniemi no dia 23. Ou seja, na manhã seguinte. Ajustei o alarme do celular pra bem cedinho, separei a mochila surrada, coloquei o cartão do banco perto do cartão do ônibus e da chave do apartamento na mesa da cozinha. Assim, tudo o que precisaria estaria no caminho quando acordasse. Num pedaço de papel, a lista do que precisaria: salmão defumado, salmão fresco, silli (herring nórdico) em conserva, presunto assado e queijos.

As compras em Hakaniemi são uma tradição compartilhada por muita gente em Helsinki. Por isso é bom ir cedo: o lugar é pequeno e a quantidade de gente é enorme. Isso acaba gerando um empurra-empurra muito desconfortável. Fui dormir me preparando psicologicamente para a aventura do dia seguinte.

...

No susto acordei e pulei da cama. Não ouvi o alarme. Fui pra cozinha, abri a janelinha 23 do calendário do advento, troquei de roupa, engoli duas fatias de ruisleipää com suco de frutinhas da floresta, peguei o que precisava, vi o horário do próximo ônibus pra Hakaniemi e saí. 20 minutos depois cheguei na praça onde fica o mercado.

Como eu tinha dito, fazer as compras de Natal no mercado de Hakaniemi talvez seja uma das maiores tradições desta época do ano na capital da Finlândia. Aberto em 1914, o mercado hoje é reconhecido por ter lojas tradicionais especializadas com produtos frescos e de ótima qualidade. E o Natal talvez seja o seu auge comercial. Quase todo mundo vai lá: idosos, jovens e crianças. Todos atrás do frescor dos produtos e da experiência de manter a tradição viva mesmo que custe um pouco mais caro do que as cadeias de supermercado. Em geral, o mercado de Hakaniemi é um lugar muito agradável com seus aromas, sabores e receptividade. Mas o Natal é um caso a parte. Por isso eu fui preparado.

Antes de entrar, encontrei um cantinho vago para amarrar meu espírito natalino. Como todas as outras pessoas lá dentro, ali fora do mercado eu deixei minha gentileza, educação e cordialidade presos num cadeado vermelho. Em seguida, tirei um soco-inglês do bolso, frangi os olhos e entrei.

Assim que passei pela primeira porta, vi que esse ano seria intenso. Ao passar pela loja de doces, uma velhinha com capacete de goleiro de hóquei me jogou pra longe. Ela estava correndo para fora com o presunto de Natal embaixo do braço. Quando tentei levantar, meu pé foi puxado com o guarda-chuva por um velinho que vinha atrás de mim. Caí e levantei, mas o velho entrou primeiro. Rindo.

Parecia que toda Helsinki estava ali. Os corredores devem ter uns dois metros e meio de largura. Nesse espacinho, tem a fila de gente que vai, a fila de gente que vem, todos aqueles que param nos balcões das lojinhas e os sem noção que param no meio do caminho sem motivo aparente.

Espremido, tentei chegar na loja de peixes. Para minha sorte, uma velhinha passou abrindo caminho com sua bengala catucando canelas, espremendo dedões e acertando as partes baixas de um ou outro valentão que se recusava a deixar ela passar. Colei atrás dela e logo vi o balcão com os salmões. Mas como chegar perto com tanta gente na frente?

Com o soco-inglês, dei um murro no cliente da esquerda e com o cotovelo dei um chega-pra-lá na moça que estava prestes a fazer o pedido. Encostei o umbigo no vidro quando o vendedor gritou: "Seuraava!" (próximo!). Rapidinho eu gritei "minä!" (Eu!) e fiz meu pedido. Me empurrei para trás, coloquei os peixes na mochila e mirei a loja de presunto.

Mais uma vez, dei sorte. No corredor, dois homens trocavam ofensas. Na loja do lado, a mais tradicional, tinha só um salmão finlandês. O resto era norueguês. Eles brigavam pra ver quem levaria o melhor peixe (o finlandês, é claro). Nisso uma multidão se espremeu na frente da loja gritando "kotimainen! kotimainen!" ("Local!Local!") num protesto por mais salmões finlandeses.

Com o clarão aberto no caminho, cheguei rapidinho na loja de carne e comprei o presunto. Mas quando peguei meu cartão e tentei sair, um homem alto e braçudo me empurrou pra cima do balcão de compotas da loja vizinha. Tonto, limpei a geléia de framboesa do casaco, tirei os cacos de vidro do rosto e ensanguentado fui pra loja de queijos. Como eu parecia que estava bêbado, todo mundo se espremia pra deixar eu passar.

A loja de queijos é a mais popular e por isso tem fila dupla: uma pra esquerda e outra pra direita. Num momento de agilidade, empurrei o primeiro de uma fila e dei um chute no outro. Com o efeito dominó dos dois lados, não foi difícil comprar o queijo. Sorri, mas não por muito tempo: o povo das duas filas se juntou, me encheu de sopapos e me jogou na rua. Desmaiei.

...



O alarme tocou e eu dei um pulo. Passei a mão no rosto e não vi sangue. Não senti dores no corpo. Aliviado por perceber que tudo tinha sido um pesadelo, levantei, fui pra cozinha e me preparei pra sair. Quando cheguei à Hakaniemi só sabia sorrir apesar do empurra-empurra e da falta de educação. No sacrifício, comprei as coisas e saí jurando que nunca mais voltaria lá nessa época. Do mesmo jeito que fiz no ano passado. Quer saber? Acho que o sufoco das compras de Natal também seja parte da tradição do mercado de Hakaniemi. No fim, com ou sem sofrimento, vale a pena: tudo lá é muito fresco e gostoso. Se vier à Helsinki, não deixe de passar lá pras compras de Natal. E não esqueça o porrete. Brincadeirinha. Paciência basta.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O álcool e a azaração na Finlândia

Saí com uns amigos pra dançar ontem aqui em Lahti. Nos primeiros minutos, fiquei parado na pista de dança reparando como os finns (aprox.) entre 20 e 35 anos que estavam ali paqueravam (não lembro um termo menos brega...rs). Foi interessante ver como o álcool tem um papel importantíssimo no processo de acasalamento da solteirada. Pra bem ou mal.

A maioria das meninas finlandesas naquela pista pareciam bêbadas, mas naquele estilo "porre feliz." Dançavam e sorriam com as girlfriends, se abraçavam, sorriam em direção aos caras que as interessavam, mas nada ao estilo "vem ni mim que sou facinha." Como as finlandesas se produzem muito bem para sair, a imagem que elas passavam era de controle total do pilequinho.

Controle que faltava a alguns finlandeses homens. Haviam os moderados, que ficavam no canto batendo papo com os amigos enquanto desciam uma cervejinha. Mas no meio da pista o ritmo era outro. Ali o porre de alguns caras daria pane em bafômetro. E estes doidos eram os mais indiscretos nas cantadas. O que é irônico: muitos pareciam se aventurar ao pé do ouvido quando nem conseguiam ficar mais em pé direito. Imagina pra falar? É entre esses que surgiam as cenas mais constrangedoras.

Tinha um camarada enorme que se chegava nas meninas como se fosse um Boneco de Olinda: endurecia o corpo pra não demonstrar que estava bêbado e cercava a menina com braços abertos tipo siri. Outros inclinavam o corpo pra falar com as meninas e derramavam a bebida pra tudo que é lado. Entre casos diferentes de comportamento manguaçado eu reparei uma coisa interessante. Aquele lance que nós brasileiros adoramos de dar cantada colocando a mão no ombro ou na cintura aqui não rola. Contato físico parece sinônimo de intimidade e não de simpatia cretina, como é pra muita gente no Rio, pelo menos. Mas foi com contato que se deu a cena mais patética da noite.

O mais bêbado de todos, aquele que vagava feito zumbi, se aproximou e inclinou pra conversar com uma menina. Não sei como, mas ele perdeu o equilíbrio e ploft! Abriu aquele clarão no salão, típico de brigas no Brasil. Quando olhamos, ele caído e rindo de um lado, ela levantando rápido envergonhada e sumindo do outro. Ajudado, ele levantou, riu e continuou sua saga de morto-vivo no salão (ele ainda estava lá quando fomos embora bem mais tarde).

Resumindo, beber para ter coragem pra paquerar, como dizia vovó, é normal em todo o mundo. Pessoas malas também são. Mas a impressão que tive ontem é de que naquela pista daquele bar a proporção de caras chatos e muito bêbados era alta em relação aos que de fato estavam curtindo. Acho que não dá pra generalizar e dizer que "finlandês é assim." Mas parece que aqui o álcool é muito mais essencial pra azaração. Afinal, finns em geral parecem muito tímidos e reservados. O problema de muitos é não saber encontrar o limite entre drink social e pagação de chacota.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tempo de Pikkujoulu (ou entre relacionamentos no Brasil e Finlândia)

"[...] Sabe aquelas coisas que não se pode fazer no Brasil? Imagina, falar pro meu marido: 'vai cozinhar, toma conta das crianças aí que eu vou pra rua com minhas amigas e chegar as 5 horas da manhã'. Imagina, dá certo isso, filha?"

Dá. Não só na Alemanha, onde mora a carioca Sandra, que deu esse depoimento para um documentário sobre brasileiros vivendo em Munique. Tenho percebido esta como uma das grandes diferenças entre meu Brasil e minha Finlândia (ou seja, as partes das sociedades que vivo e observo): mulheres aqui, nativas ou não, geralmente podem muito mais. 

Há algum tempo, eu escrevi sobre a força da tradição feminista do país e algumas consequências não-tão-cívicas no cotidiano. Nesta época das festas de fim de ano, outra tradição demonstra o quanto a relação entre homens e mulheres aqui pode ser bem diferente do que no Brasil: o pikkujoulu, as festas de Natal entre colegas de trabalho onde pra muitos o lema é  beber até cair e, se der, levantar pra continuar bebendo. Mas, diferente do meu outro post-conto sobre isso, eu não vou falar da biritagem. Antes, porém, vejamos pelo lado de lá do Atlântico Sul.

O Brasil é um país machista demais. Ironicamente machista ao ponto de muitas mulheres (como algumas amigas minhas) se aceitarem como donas-de-casa porque "a vida é assim." E não é só uma visão das que vivem a colar o umbigo no tanque. Pra muitas mulheres que trabalham fora esse é o preço da vida profissional: correr atrás da carreira e cuidar da casa, como minha mãe fez por muito tempo. E o homem? Muitas ainda tem a idéia de que uma característica de "marido bom" é ajudar nos afazeres. Só que a mãozinha caridosa tem limites. Quantos homens você vê sozinho passeando com neném nas ruas brasileiras, por exemplo? 

Fato: numa sociedade extremamente patriarcal, compartilhar os perrengues domésticos não é da nossa cultura. Em relação à curtição, as regras também parecem claras. Se você está num relacionamento, sair sozinho(a) é dar mole ou querer ter experiências além-cerca. E, pra variar, quem sofre mais com isso são as mulheres. Afinal, homem ("tudo safado", como dizem por aí) dar uma saidinha é normal. Mas, como disse a Sandra, dá pra imaginar a mulher saindo pra uma girls' night enquanto o marido fica (por consenso e sem pensar em forra) em casa? Pois é. O pikkujoulu é só um exemplo dessa diferença entre a Finlândia e o Brasil que eu conheço de viver, ver e ouvir falar.

É muito comum ver mulheres na Finlândia saindo pro barzinho ou uma noitada com amigas ou, como no caso do pikkujoulu, com os colegas de trabalho. Para meus amigos isso não parece ser problema. Se têm filhos, eles ficam em casa cuidando das proles porque é obrigação deles também. Cenas de ciúme ou aquela sensação de relação abalada por essas saídas? Nunca vi nem percebi (talvez por finlandeses serem muito reservados e discretos). As vezes, algumas amigas minhas saem, bebem e no meio da noite ligam para o maridão ir buscar.  Imagina como esse cara seria chamado no Brasil? Pois aqui os homens não são considerados patetas ou submissos por isso. Também não quer dizer que sejam todos santos. O pikkujoulu é reconhecido como a época onde muitos homens e mulheres bebem e se pegam com algum colega (e a ressaca moral dura por muito tempo). Mas em comparação com o Brasil, o respeito (mútuo e de outras pessoas) é bem mais visível e praticado pelas bandas de cá.

Aqui eu nunca tive "disputas neandertais", por exemplo. Sabe aquela situação onde um cara vê a mulher com outro cara e decide tentar ganhá-la? É isso. Por atração à mulher, lógico, mas principalmente pra mostrar poder em relação ao outro macho. Não sei como é entre as mulheres, mas entre homens no Rio o bicho pega. Várias vezes, deixei companhias sozinhas pra comprar uma bebidinha e, ao voltar encontrei camaradas gastando o "larga esse cara e vem comigo, gatinha" Naqueles meus tempos macholinos, já reagi de várias maneiras: querendo brigar com o cara, dizendo um cínico-puto "sem chance, palhaço" e as vezes reclamando com a menina por ela dar confiança. Ou seja, não ciúme, mas orgulho e sentimento de posse ferido do território sendo ameaçado. Sim, igual cachorro. Felizmente mudei. De qualquer forma, nunca passei por nada parecido aqui com a linda (♥) Wife.

Enfim, tudo isso pra dizer que aqui eu vejo mais respeito e confiança entre casais do que no Rio. Ou será que a falta de respeito e de confiança não aparecem por conta da independência feminina típica na Escandinávia?  Ou será que a traição é uma coisa menos dramática aqui do que na terra das novelas? Como o ciúme se manifesta na Finlândia? Enfim, é pra observar e pensar. Ainda assim, seja no pikkujoulu ou em qualquer época do ano, é bacana ver muitos relacionamentos com companherismo a ponto de entender e respeitar a necessidade que temos de as vezes fazer nossas próprias coisas, com nossos próprios amigos. Afinal, como diria aquela aplicação no facebook:


Amor não é ter alguém ao nosso lado o tempo todo pro resto da vida.
O nome disso é prisão perpétua.
Amor é outra coisa. 

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bolsa Família e Finlândia

Uma das coisas que muita gente mais reclama do Bolsa Família é o fato do programa não colaborar pros beneficiados buscarem autonomia. Tipo, "se já recebe mole, não vai querer trabalhar." Aí chamam de Bolsa Esmola, Bolsa Preguiça... essas coisas. Aí eu perguntaria aos tais donos da razão: "O que você acha da Finlândia?"  E ao que eles respondessem "Isso sim que é país, primeiro mundo!" eu, com tom de sarcasmo, diria pelo canto da boca: "É? Mas isso do Bolsa Família é uma iniciativa de bem-estar social, característica mais marcante da Finlândia. Sabia?" O veneno realmente escorreria no primeiro "É mesmo!?"


quarta-feira, 10 de março de 2010

O Balde da Sauna | Sauna's Bucket

Quer saber se você já está adaptado à Finlândia? Repare seu comportamento diante de situações com o baldinho d'água para o löyly numa sauna pública.
Do you want to know whether or not you are already adapted to your Finnish life? Pay attention to your behaviour when you see yourself in different situations involving the small bucket of water for löyly in public saunas.
Você se sente no dever cívico 
de repor a água quando sai? 
Do you feel it is a civic duty 
to fill the bucket after you leave?

Fica todo orgulhoso quando dá o balde que acabou de encher e o(a) pelado(a) desconhecido(a) lhe diz kiitos?
Do you feel proud when you give the full bucket to someone else in the heat and the naked one whispers kiitos from inside?

Você fica resmungando tudo que é palavrão
se alguém gasta a água, sai e não repõe?
 Do you mumble all sorts of swear words if 
someone else uses all water, gets out and doesn't fill it?

É... você já está bem adaptado às coisas finlandesas.
Yes...you're already living a very Finnish life.