O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Grito em Helsinki

Historia baseada em aviso real e na pintura "O Grito", de E. Munch. A gente viu o aviso no prédio da minha sogra, em Helsinki.

Em uma certa noite chuvosa de outono, em Helsinki, Edvard (norueguês residente aqui) chegou em casa cansado do trabalho, estacionou o seu carro zerinho atrás do prédio e subiu pro seu apartamento. Estava tão exausto que nem pensou em ler os avisos no mural da entrada. Deixou as luzes do corredor apagadas, se curvou e subiu os três lances de escada.

Na manhã seguinte, ouviu-se um grito, um choro desesperado e depois, o silêncio.

As luzes dos apartamentos se acenderam e nas sombras viam-se silhuetas curiosas querendo saber o que houve. Um senhor do primeiro andar pegou seu velho Nokia, deixou o 112 preparado e correu para ver o que havia acontecido. Ao que viu, de imediato ligou para a emergência e se agachou vendo se poderia fazer alguma coisa, mas já era tarde.

"O que aconteceu?", perguntou sua esposa sonolenta ao encontrá-lo no corredor voltando ao seu apartamento depois q a ambulância chegou. "Eu não disse!? Eu avisei! Será que ele não leu o aviso que eu coloquei no mural?", reclamou o homem com o joelho sujo com lama e folhagem. "O que foi, homem!!!???", perguntou a esposa preocupada.

"O vizinho, aquele do carro novo, morreu. As pêras o mataram."

Pararam os dois na frente do mural onde o seguinte aviso alertava aos moradores:

"Atencão motoristas,
CUIDADO COM AS PÊRAS CAINDO DAS ÁRVORES

Recomendamos deixar os veículos no estacionamento superior (especialmente em dias com vento)"


Ao ver o carro destruído, o coracão de Edvard não aguentou. Lá fora, os paramédicos recolhiam o corpo enquanto algumas senhoras recolhiam as pêras de cima do Audi amassado para fazer tortas e servi-las no seu funeral.

O grito de Edvard

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Quando não se sabe Finlandês, imagina-se... :)

História fictícia. Qualquer semelhança, você sabe, é pura coincidência. Ou não...rs

Um homem que pouco falava finlandês estava num trem da VR. Atrás dele, uma menina de uns vinte e poucos anos recebia uma ligação no celular. Como eram 8 e pouca da manhã chuvosa, não deu para o mocinho evitar de ouvir a conversa.

O problema é que a curiosidade ficou pela metade uma vez que não se dava pra a voz que falava com a menina. Com apenas um lado da história, o enredo ficou por conta da imaginação do nosso amigo besbilhoteiro.

Terve (Oi!)
Hm, é alguém conhecido pq senão ela teria dito o nome e ficado menos alegrinha ao parar o ring tone das Pussy Cat Dolls.

Niin (ahã...)
Aconteceu alguma coisa...a outra pessoa tá contando e ela vai dando corda...quer ouvir mais.

Niin (ahã...)
E mais...

Niin (ahã...)
...haja corda...

Niinkö?!!! (é mermo?!!!)
Pronto. Eu sabia. Provavelmente a amiga (sim, pra falar tanto só pode ser amiga. afinal homem não fofoca) contou alguma sobre o marido de alguém. Provavelmente o camarada ficou bêbado e saiu por aí perturbando o juízo das colegas de trabalho.

Herra Jumala! (Meu Deus!)
Não disse!!!??? Esse filho da mãe deve ter cantado e mulher do chefe, provavelmente uma senhora mais velha, porém enxuta e bem conservada. Como ainda é Setembro, deve ter sido algo especial no escritório. Se fosse Dezembro eu diria logo: Foi no pikkujoulu, aquela festa de natal famosa onde colegas perdem a linha!

Tä!!!!???? (O quê!?)
Puta que pariu! Ela disse "Tä!!!". A merda foi maior do que eu imaginava. O marido deve ter chegado na hora e pegou os dois no flagra no momento em que o cara bêbado beijava a mulher dele. Meu Deus, que absurdo!

(puxa o ar pra dentro e diz ao mesmo tempo) Uskomatonta! (Inacreditável!)
Que absurdo!!! O chefe pra se vingar deu em cima da mulher do bebum. Nossa, que coisa mais mexicana, uma pouca vergonha! Como pode esse pessoal ser assim tão sem-noção quando tá com a cara cheia?

Uns "Tä?" e outras coisas do tipo depois, a conversa acabou. Ao chegar na estação, porém, o homem não se conteve e quis saber qual era o assunto ao qual a mulher tanto reagiu. Pensou, pensou...se aproximou e disse em Inglês:

Anteeksi, não deu pra evitar ouvir sua conversa. Está tudo bem, tudo está resolvido agora, né? Se sua amiga quiser dar uns sopapos naquele salafrário, é só avisar. De onde eu venho essa sem-vergonhice se resolve é no tapa! Eu tb odeio esse tipo de baixaria. Vou te contar, viu? Eu pensei que isso aqui fosse primeiro mundo!

domingo, 27 de setembro de 2009

Picasso em Helsinki: Uma vida no Ateneum

É 1901.

Como pode a morte gerar tanta vida?

Ao lado direito na primeira sala vê-se o corpo defunto brilhando à luz da vela que queima amarela, laranja e vermelha cortando o corpo esverdeado do morto. Ele se matou como fizera Van Gogh. Picasso o pintou como se uma homenagem ao artista holandês fizesse. Ou seria uma homenagem ao amigo morto? Seria a vela uma vagina representando o amor entre os amigos antes que o outro se suicidasse? Muitas perguntas pras quais as respostas são o que menos interessa.
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Essa é a grande sacada das exibicões de arte. Cada instante, cada história de cada quadro ou escultura ou figura te joga pra dentro da sua mente. Não tem sentido certo, apenas a busca pelo sentido. Se Picasso sabia pintar arte clássica, porque ele resolveu "baguncar" tudo? É certo que por isso virou gênio, mas porque?

Essa foi a pergunta que eu tentei me fazer nas duas horas em que passamos no Ateneum em Helsinki vendo as obras de Pablo Picasso. Acho que isso é que dá graca. Ao invés de fingir saber tudo de arte, é melhor se admitir que não se sabe pra poder curtir o aprendizado ao invés de se preocupar em manter a cara de conteúdo e as aparências de intelecto. E o bom desta exposicão é que é de fato possível entender o que faz de Picasso um dos maiores artistas do século XX.

Se você for à exibicão, prepare pelo menos 22 euros pros custos essenciais no museu. A entrada está 16 e (14 para estudante). Além disso, invista 3e no guia escrito e mais 3e no guia de áudio. Ambos estão disponíveis em finlandês, sueco e inglês e dão as informacões básicas pra se entender porque o negócio esquisito na parede é um violino, ou porque o pé, o braco e a cabeca estao virtualmente no mesmo lugar, entre outras coisas. O guia e o áudio se completam, mas se tiver que escolher, escolha o áudio. Te ajuda a não ouvir a barulheira e te dá informacões q não estão disponíveis no pequeno parágrafo numa folha perto das portas das salas.

A exibicão é dividida em períodos: o jovem artista (1901-07), indo ao cubismo (1907 - 1909), cubismo (1909 - 1919), do cubismo ao clacissismo (1914 - 24), surrealismo (1924 - 34), surrealismo (1930 - 1935), Espanha em guerra (1936 - 39), Anos de guerra (1941 - 52), pop art (1946 - 1970), os últimos anos (1970 - 73).

Essa divisão por períodos é bacana pq ajuda a entender as transformacões na obra do Pablo. Entre as obras que eu mais gostei estão A morte de Carlos Casagemas (Descrito acima), Corrida: La mort du torero, Homme à la Guitare, Tête de Taureau (pela simplicidade), La femme qui pleure, Portrait of Dora Maar e a peca sobre a guerra da Coreia. Tem outros tb, claro, mas estes foram os que me fizeram pensar mais seja pela estética, seja pela história ou seja pela complexidade das obras.

Enfim, vale a pena mesmo ir ao Ateneum mesmo que alguns dos trabalhos mais famosos de Picasso - como Guernica - não estejam lá. Eu estava tentado a colocar as imagens dos quadros e esculturas que mais gostei aqui. Mas não, é melhor você ir lá ver. Dá uma lida preparatória sobre o artista na Wikipedia (onde os períodos estao divididos mais ou menos como na exibicão), pega o trem ou metrô pra Helsinki (ou o tram/a bicicleta/ o tênis confortável se você mora na capital) e se deixe levar pela paixão que guiou as mãos de Picasso por toda sua vida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O dia do "peladão" no Estádio Municipal de Lahti

Não preciso dizer que meus primeiros momentos aqui - segundo semestre de 2007 - foram de descobertas e novidades. Mas uma das coisas que mais me marcaram foi o dia do peladão no estádio municipal, no Urheilukeskus (Centro esportivo) da cidade.

Aqui na cidade tem o time chamado FC Lahti e aquela foi a minha primeira de muitas partidas que fui assistir ao vivo.

Futebol aqui é muito popular, mas a torcida não é tão barulhenta como no Brasil. Na verdade, eles são bem recatados (ao ponto de me deixar puto as vezes pq quero gritar e eles só batem palma).

Esses dias, quando o FC Lahti estava na etapa inicial da Copa da UEFA, uma de nossas amigas discutiu com um torcedor-senhor pq ela e algumas criancas estavam cornetando (literalmente, com aquelas cornetinhas). Foi engracado.

Enfim, no FC Lahti joga o brasileiro Rafael, agora parceiro, mas há dois anos atrás a primeira vez que eu ouvi pessoas falando dele foram os torcedores do Lahti gritando o nome dele toda vez q ele tocava na bola. E eu me encolhendo no frio da arquibancada praticamente vazia (pra padrões brasileiros). O jogo estava como o tempo: frio, sem emocão...até que...

Olha aquilo!!! Olha! O cara tá correndo pelado no campo!, eu exclamei pra Wife, que comecou a rir.
Todos riram ao ver aquela bunda branca dando "olé" no segurancas do estádio. Naqueles dois minutos (sim, acho que ele ficou esse tempo todo correndo e fugindo até sumir no morro que cerca o estádio) a friaca do recém-chegado outono foi esquecida. E o pior: foi um jogo transmitido ao vivo pelo Urheilukanava (Canal dos esportes).

Nem lembro quanto foi o resultado. Só sei que a lua aquele dia brilhou, pelo menos deu pra ver o reflexo dela na brancura do mocinho q invadiu o estádio como veio ao mundo.





domingo, 20 de setembro de 2009

O que comer na Finlândia? Parte 1: Lihamuki

Uma de minhas bandas finlandesas favoritas - a finada UltraBra - tem uma música que começa assim:

"Suomalainen ruokka on pahaa, älä tuhlaa siihen rahaa"

Segundo o Google translator quer dizer: "A comida finlandesa é muito ruim, não desperdice dinheiro com ela." Tem um certo tom de ironia e brincadeira, principalmente com o que estrangeiros normalmente falam sobre a comida daqui.

Como eu nunca consigo explicar o que é a "comida finlandesa", vou escrever aqui sobre "o que eu passei a comer (ou ver os outros comerem) quando vim pra Finlândia".

O primeiro prato é típico de Lahti. A revista de uma agência de viagens daqui - a Lahti Travel - descreve esta iguaria como: "o melhor exemplo de comida gourmet em Lahti". Eu pessoalmente acho que rola outra certa ironia. Afinal, eles estão descrevendo o Lihamuki, ou seja, copo de carne. Pra saber o que ele é, eu conto a primeira e única vez que experimentei.


Meu primeiro (e último) Lihamuki

Há um tempinho atrás, eu resolvi seguir o ritual local de noitada. Depois de dar uma passadinha na Alko - loja de bebidas alcólicas - uns amigos vieram pra cá e começamos a beber socialmente.

Certa hora da noite, quando todos estávamos "no grau", alguém disse: "Vamos pra cidade!" Aí fomos pra um pub. Depois de beber mais um cadinho, a Wife veio pra casa e eu fiquei na rua com meu amigo. Lá pras tantas, bêbados, veio aquela baita fome. Aí é só esperar alguém dizer:

"Vamos pro Zanzibar!"

É lá que fica o paraíso da gordura pra curar o porre.

Ali é que se encontra - além de kebab, batata frita e hamburguer - "esta especialidade de carne servida em um copo de coca-cola cheio de carne de kebab" e, no meu caso, um molho bizonho de maionese. Esse copinho é "um dos mais populares 'lanchinhos da madrugada' ou das primeiras horas da manhã", continua a revista da agência.

Eu tentei, eu juro. Mas nem depois de bêbado demais eu consegui dar conta do meu copinho de carne. Tá certo que se precisa dessas comidas gordurentas pra tirar o gosto de guarda-chuva da boca e o embrulho do estômago, mas lihamuki (com carne fatiada daquilo que no Rio e em SP chamam de churrasquinho grego) nunca mais.

Enfim, fica a dica pros guerreiros. Como eu disse, os posts serão sobre o que eu como e o que vejo comerem aqui. Pra saber se é gostoso ou não, só experimentando.

Então, tá esperando o que? Vem pra Lahti, beba suas cervejas sem moderação e deixe seu corpo e a multidão te guiarem ao Zanzibar, ali pertinho da loja Sokos.

Boa sorte.

Contos de Lahti ou Loucuras do Léo?


Foi derrubado da bicicleta e ao que seus joelhos se espatifaram no chão ele recebeu socos e pontapés de todos os lados. Dizem que Lahti é a Chicago finlandesa, mas ele nunca pensou em ser atacado assim, bem no centro da cidade.

"Mas, mas mas...o que é isso!?", gritou antes de soluçar e cuspir o sangue que lhe subiu pela garganta depois do chute no estômago que recebera.

"Nunca mais, entende? Nunca mais!!!", ouviu antes de seus olhos apagarem.

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...1 minuto antes...
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A senhora tentou mas não conseguiu empurrar seu andador a tempo de passar antes da mudança do apito mais rápido ao mais lento. Apertou o botão, ajeitou suas bolsas de compras e esperou. Meio sem vontade, mas esperou porque é isso que se deve fazer.

A mãe segurou os braços da filha e explicou: espera-se pois assim é a lei, é a ordem. O certo. E todos devem fazer o que é certo e ela devia aprender a controlar sua energia inconsequente.

Do outro lado, o rapaz parecia preocupado. De longe se via que ele queria aproveitar o ritmo que lhe conduzia em seu iPod e seguir seu caminho numa velocidade que lhe recuperasse o tempo do atraso. Mas parou, parou desesperado porque é isso que se faz. Não se deve desrespeitar as senhoras, não se deve dar mau exemplo às crianças.

beep......beeeeeep....

O apito se arrastava e se perdia no silêncio. Pararam, olharam e nada além do apito escutaram. De um lado, nada vinha. Do outro, nenhum motor se fazia ouvir. Nada. Mas ao olhar pro alto, ele ainda estava lá: vermelho como o sangue que correria pelo asfalto caso eles ousassem colocar os pés além dos limites da calçada.

"Vambora, velha! Se você for eu vou e dane-se a educação da criança. Se nenhuma delas estivessem ali, eu já estaria lá...que merda!", pensou o rapaz ao frangir a sombrancelha como se fulminasse a menina e pressionasse a senhora sem que a mãe notasse a conspiração da que seria vítima.

"Depois falam que essa geração de atualmente não respeita a ordem. Veja só: a menina ensinando a filhinha a se comportar...o jovem apressado, mesmo apressado, esperando...dá até orgulho", pensou a senhora enquanto seus olhos agradeciam ao rapaz e seus ouvidos se deliciavam com a moça e a filha.

"Está vendo? É isso que se faz. Mesmo que não venham carros, se espera até que o apito se apresse e que o mocinho vermelho se acalme e fique verde. Aí sim, você pode continuar, entendeu?", falava a mãe inclinada para olhar nos olhos da filha. Virava seu rosto para o rapaz e para a senhora para justificar sua explicação.

"Mamãe, de bicicleta pode atravessar?", perguntou a menina ao olhar sobre os ombros da mãe. "Porque aquele moço lá não parece que vai parar pra esperar não," explicou ao ver um homem de aproximadamente 30 anos vindo em disparada detrás do rapaz.

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beep........beeppp....
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A mãe virou-se e viu que o homem não iria parar. A senhora também percebeu e as duas se entreolharam. Ao ver a reação das mulheres, o rapaz olhou para trás e viu o homem como uma bala se aproximando. Voltou os olhos para as mulheres. Os três ao mesmo tempo enrugaram a testa de raiva, firmaram os punhos. Com os dentes a mostra, rangiram em cólera.

A criança esperava a resposta quando viu o rapaz com o iPod esticar o braço direito no momento em que a roda dianteira da bicicleta atingiu o asfalto da rua. Desequilibrado, o homem cambaleou mas seguiu. Não por muito tempo.

A senhora empurrou seu andador na direção da bicicleta. As compras voaram enquanto o homem era arremessado por cima do guidão. Antes de cair, a mãe foi rápida e lhe deu um sopapo nas costas. O rapaz com o iPod correu para cima do homem. Dane-se a luz ainda vermelha. Ele lhe dava os chutes, enquanto a senhora o batia com o pepino e a mãe lhe esmurrava a cara. A menina chorava enquanto suas lágrimas se misturavam ao sangue do homem.

"Nunca mais, entende? Nunca mais!!!! Nunca mais você vai atravessar o sinal vermelho, mesmo que não venha carro; mesmo que a rua esteja deserta! Nunca mais!", gritavam os três enquanto a menina chorava com o rosto branco vermelho de sangue e desespero.

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beep beep beep beep beep...o apito intensifica. A luz verde acende.

Esfrego meus olhos e vejo o rapaz impaciente correndo em direção ao ponto de ônibus. A senhora empurra vagarosamente seu andador a caminho de casa. A menina sorri e saltitante atravessa a rua livre das mãos da mãe, que sorri ao ver a filha respeitar a lei da cidade. Ao longe, vai o homem que atravessou o sinal antes que o verde acendesse.

Eu sabia que assistir aos filme sobre "Kafka" com o Jeremy Irons, "The Tenant" (O Inquilino) de Roman Polansky, "Inglorious Basterds" de Tarantino, "Vertigo" de Hitchcock e começar a ler "Vigiar e punir" do Michel Foucault na mesma semana não me fariam bem...

...ainda assim, será que eu sou o único que tem esses pensamentos ezquizofrênicos ao respeitar à risca e as vezes à contra-gosto as regras de trânsito para pedestres e ciclistas aqui na Finlândia?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Entre Fabiano e eu: entre o sertão e Helsinki*

Assim que coloquei os pés no prédio Metsätalo da Universidade de Helsinki, não deu pra evitar meu pensamento em Fabiano. Você o conhece? Eu já o conhecia de passagem, mas ele fora me apresentado um dia antes numa de minhas viagens para Tampere. Dali em diante - até hoje - não parei de pensar como somos muito parecido apesar de nossas vidas serem tão diferentes.

Fabiano é ruivo, de pele encruada pelo tempo dos anos e da secura do sertão nordestino brasileiro. Atravessou secas a procura de uma vida mais farta, para que pudesse tirar seu sustento e o alimento para sua mulher e seus dois filhos. Desde os tampos raquíticos de criança ele vive se desdobrando entre o barro seco, os esqueletos bovinos e a incerteza. Não quer muito da vida além de vivê-la dentro do pouco que ele considera o bastante.

Na verdade não nos conhecemos pessoalmente. Não sei se ele ainda vive, mas falo dele como se vivesse porque não devemos jogar no passado verbos que decretariam a morte e espalhariam mau agouro à um vivente. Sua história foi me soprada por Ramos, de quem também conheço pouco, mas que me acompanhou esses dias a caminho da universidade onde sou gringo. Vai saber se ele de fato conhece esse tal Fabiano. Pode ser fruto da cabeça dele, pois a riqueza de detalhes sobre a vida alheia me causou suspeitas. Uns chamariam isso de fofoca. Mas mesmo que seja, como o Ramos sabia que o sofrimento da alma de Fabiano no dia seguinte responderia a inquietação da minha?

Fato é que, verdade ou não, esse Fabiano sofre. Sua vida seca é marcada pela exploração de sua força durante toda sua vida de cabra submetido às leis e ordens dos patrões. Uma vez, foi preso por um guardinha de nada (mas guarda) que se irritara porque Fabiano não se despediu ao que os dois perderam muito dinheiro jogando num bar. Pode? E isso o fizera perder as estribeiras ao ver que em certos lugares, ele nada mais é do que nada.

Ramos disse que em casa - quando tem uma - ele é soberano. Mesmo quando não tem teto nem nada, ainda assim ele é o herói do filho pequeno e o tirano do filho mais moço. Da mulher, é o companheiro que mesmo no mais profundo silêncio de fome lhe dá forças para continuar com esperanças de que o sofrimento um dia se finda. Só que essa força se derrete quando ele sai de seu...da sua, como dizem por aí, zona de conforto.

Na rua, não questiona. Se lhe tentam ludibriar no mercado ou no bar, cala-se pois provavelmente a culpa do erro é dele. Se a venda lhe rende menos do que sua esposa calcula, a culpa é da esposa que não sabe contar tão bem quanto o branco rico. Um dia, quando levou a família pra uma quermesse, tomou um porre e gritou feito louco contra todos. Só bêbado para soltar a voz e se fazer notar na multidão. Sóbreo, se convence de que ali não é seu lugar. Não tem jeito com as palavras, não as domina. Por isso preferia o silêncio e a fala gutural do pasto, onde é forte, bravo. Na cidade, ele reconhece e aceita sua insignificância. É nessa postura, de certo modo, que nos unimos em semelhança.

Meu estômago já estava desassossegado ainda no trem e se retorcia ainda mais ao que me aproximava da estação na capital. Certamente estava ansioso. O encontro me abriria portas em Helsinki pra que eu fizesse contatos com intelectuais que se dedicam há décadas e anos ao terreno onde eu gostaria de gravar o meu nome. O problema é que também me sentia como Fabiano: angustiado por me achar insuficiente diante dos donos das palavras.

Logo eu que sempre fui certo de mim por onde passei. Ali, eu certamente me calaria, como me calei por muito tempo em algumas palestras do mestrado. A Wife brinca que eu sou quase um finlandês típico: "não vou falar porque certamente tem um ou outros que sabe mais do que eu." Mas Fabiano nunca pôs os pés em algum chão que não fosse rachado pelo sol a pino sob a sombra fina da Linha do Equador, então isso é coisa de gente e não dos finns. Você se sente assim as vezes?

Ao apertar o botão para o sexto andar, eu lembrei das últimas palavras do Ramos sobre a vida do Fabiano. Antes de encerrar, meu companheiro de viagem deixou entender que o sertanejo calejado e sua família partiram em busca de uma vida que assegure aos filhos uma vida diferente da dele. Esse é o sonho que a mulher dele o convenceu a seguir. Ela não queria que eles passassem quando adultos pelo sofrimento da infância. Arrumaram as trouxas e as carnes salgadas das aves de rapina e, calados, seguiram sabe-se lá pra onde.

Ao que tudo indica, Fabiano não se deixou mudar e continua resignado sobre seu papel na cidade: sempre será empregado, sempre será insignificante. Talvez seus filhos dependam menos da chuva pra mudar suas vidas, talvez tenham mais apreço pelas palavras. Mas a vida dele era aquela e daquele jeito viveria até que os urubus viessem lhe beliscar os olhos como faziam com os bois moribundos a beira do rio seco.

Abriu-se a porta da sala e fui convidado a entrar. Sorri ao senhor dos livros que leio na universidade. Nos cumprimentamos, nos sentamos e nos apresentamos oficialmente. A roda girou de maneira em que eu fosse o último. Minhas mãos tremiam como tremera Fabiano sufocado pelo terno em seu surto na quermesse. Todos faziam um pouco que pareceu muito ao que falavam de seus trabalhos...meu sorriso desfarçava o pavor que meus olhos descaravam.

Em breve, eu teria a voz, mas teria as palavras?

Fabiano me acenava como se me chamasse para seguí-lo numa estrada distante dos lugares ao qual não pertencemos. Depois dessa menina sou eu...


Olá, me chamo Leonardo. Acabei de terminar minha pesquisa prévia sobre comunicação em organizações não-governamentais e pretendo desenvolver um trabalho único de investigação do processo de construção de identidade coletiva. Espero que eu aprenda com vocês e contribua pro grupo com meu trabalho. Obrigado.

Meus dedos continuavam tremendo, mas de excitação, como se não acreditassem. Meus olhos se levantaram depois daqueles segundos em que nada viram além dos papéis sobre a mesa. No olhar de cada um dos componentes da mesa eu vi interesse e respeito. No reflexo do vidro, eu vi Fabiano sorrir e virar as costas antes de continuar sua caminhada.

Ali foi a primeira vez em que eu me senti totalmente diferente dele apesar de ter sido muito parecido durante muito tempo. Ali, eu o vi realizado pela minha audácia de desrespeitar os papéis que nossas vidas tentaram por muito tempo nos fazer atuar. Falei, falei porque acho que tenho o que falar. Fabiano também acha, mas não fala. Ele busca uma maneira de viver de bem com si, mesmo que calado. Porém, fica sempre contente quando um ou outro se liberta e flutua igualmente pelas roças e cidades como senhores de suas próprias fortunas.

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* Este post é dedicado aos 70 anos da publicação do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Clique na imagem para visitar o site oficial feito pela família do autor.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Entre raios e trens da VR

"Senhores passageiros, por problemas técnicos a viagem estará um pouco atrasada, desculpe-nos a incoveniência."

Sim, acontece aqui também.

Não é na mesma frequência e com as mesmas consequências como lá no Rio, mas acontece. A diferença é que quando um ônibus (trem não tem entre Magé e Niterói, meu trajeto de sempre) quebra na estrada, nenhuma voz por alto-falante nos informa do problema: a gente sente na fumaça, ou ouve no motor que não quer pegar... o pessoal já está condicionado. Sabe aquele ritual que ensinam no avião caso haja acidente? Pois bem, no Rio é na vida que se aprende:
Ônibus quebra e encosta - passageiros levantam, vão para a lateral da pista - esperam o próximo ônibus - rezam pra ter lugar pra sentar - nunca tem - se bobear, têm que pagar outra passagem - chegam 2 horas depois no destino final.
O meu caso ocorrido hoje, indo pra Tampere, foi no trem da VR. No ano passado, principalmente no inverno, os trens estavam atrasando com uma frequência anormal: pelo menos uma vez por semana o trem vinha 5 minutos, ou 10 depois do horário. Um dia, demorou mais de uma hora (aí eu troquei o bilhete pra outro dia e peguei o ônibus). Só que o tipo de problema de hoje - o trem parar no caminho - foi a primeira vez que experimentei aqui. E olha que viajo quase sempre.

"O problema está sendo resolvido. Chegaremos à Tampere em alguns minutos"

Na verdade, nesses dois anos de viagens quase diárias (principalmente até junho desse ano) eu praticamente não tive um problema sequer com transporte. A viagem de Lahti pra Tampere dura duas horas, seja de ônibus ou trem. Se eu quero dormir no caminho, vou de ônibus pois a viagem não tem paradas. Se quero mais espaço, vou de trem mesmo que tenha que trocar em Rihimäki, cidade no meio do caminho. Ambos, de qualquer modo, são muito confortáveis.

"Problema resolvido, em breve continuaremos nossa viagem. Obrigado e desculpe pelo transtorno"

20 minutos.

Esse foi o tempo que levou pra resolver o problema. Aqui, o pessoal é bem eficiente em resolver dificuldades, e a impressão que eu tenho é que o passageiro está sempre em primeiro lugar. Na única vez que vivi um ônibus dar problema, a solução foi uma ótima surpresa pra mim e pras outras cinco pessoas que estavam no ponto.

O motorista, vendo que o ônibus não pegaria, chamou um taxi-van (aqui num tem transporte alternativo) pra nós. Daí, fomos de taxi até a empresa mandar outro ônibus pra nos alcançar. Tudo para manter o horário. Pensei logo nas vezes em que saí de um ônibus onde estava sentado pra entrar em outro lotado disputando suvaqueira com o pessoal do cheirinho...

Chegamos na estação e no fim, todos ficaram bem na linda manhã ensolarada (11 graus e caindo) de hoje. Como eu estava sem pressa, não me estressei. Fui pra universidade e resolvi o que tinha que resolver. Voltei pra estação, comprei meu bilhete na máquina automática, entrei no vagão, achei meu lugar, inclinei o assento e tentei cochilar.

20 minutos.

Esse foi o tempo que me levou até acordar com um calor dos infernos e com uma voz informando pelo alto-falante aquilo que só acontece com a mesma proporção dos raios que caem no mesmo lugar.

"Senhores passageiros, por problemas técnicos a viagem estará um pouco atrasada, desculpe-nos a incoveniência."

Sim, acontece aqui também...

Finlândia: Causo sobre igualdade dos sexos

Eu já tinha falado rapidinho sobre a tradição igualitária entre homem e mulher na Finlândia naquele post onde eu conto o episódio do Homem-Audi. Hoje, aqui em Tampere onde vim resolver minha inscrição pro doutorado, eu lembrei de um causo de alguns meses atrás ocorrido bem no centro da cidade.

É um exemplo bem direto de como homem e mulher têm os mesmos direitos por aqui, por mais infames que este especificamente possa ser...

Era uma tarde do comecinho do verão, ao fim de Junho. Eu lembro bem porque naquela época eu andava pensativo pela cidade, imaginando como seria a saída do agora antigo emprego.

Saí da empresa que fica ali nos arredores da antiga indústria Fynnlaison e caminhei lentamente pela margem do canal Tammerkoski até a rodoviária. O dia estava lindo, o sol estava forte e a brisa fresquinha. Ou seja, perfeito pra se esquecer um dia longo de um trabalho chato. E não fui o único a ter a mesma idéia.

A margem do Tammerkoski é um ponto popular de encontro do pessoal nas tardes longas e ensolaradas de verão. Estudantes, aposentados, "a toas", trabalhadores em horário de almoço , ou depois do expediente, ou no popular coffeebreak mais longo do que o permitido... muitos vão para ali, sentam na grama e relaxam.

Uns levam suas garrafas térmicas com café, outros sentam e ficam olhando pro nada curtindo seu momento tupakka (quando saem pra fumar), outros acendem, puxam, prendem e soltam a névoa do cigarrinho do tinhoso (como alguns amigos chamavam maconha na faculdade em Niterói), quase todos têm alguma coisa alcólica pra beber: seja olutta (cerveja), seja siideri (cidra), seja lonkero (long drink), e no caso tradicional dos velhos bebuns, vodka e kosu. Enfim, geralmente não pega muito bem beber em lugar público, mas ali, no verão e sem fazer algazarra, pode.

Aí, desviando de moleques fazendo presença pras meninas, de velhos curvados falando sabe-se lá do quê enquanto compartilham a garrafinha ... desviando desses eu segui meu caminho. Com um pouco de inveja da cervejinha, mas pensando que aquilo daquele jeito (cerveja quente), naquela hora não era pra mim. Ia caminhando pro meu ônibus, contando os minutos pra pontualidade finlandesa mais uma vez se comprovar...e de repente, no que olhei pro lado, vi aquilo que não me espantaria em qualquer situação semelhante, mas ali foi um baque de leve.

A pessoa senta e bebe, bebe, bebe...uma hora tem que sair, certo?

Pois as muitas árvores pelo caminho viram possibilidade pra que aquela multidão de indivíduos preocupados com o meio-ambiente exercitem seus deveres de cidadão: todos vão regar as plantas e mantê-las hidratadas enquanto a chuva não cai. E de trás de uma saiu uma pessoa que acabara de fazer seu xixizinho sem se preocupar com o fato de haver no outro lado um terraço cheio de gente a vendo aliviar a pressão.

"E daí, Léo? Vai dizer que em momentos de aperto você se incomoda com a presença do público na hora de sair do aperto?", você pode perguntar.

Claro que não me incomodo, apesar de não ter precisado do recurso da via pública aqui na Finlândia ainda. Mas o que chamou a minha atenção - e do pessoal do terraço, pq eu vi que eles estavam olhando surpresos, e rindo... - foi o fato de que aquele que vinha ajeitando as calças deve ter precisado de muita coragem pra arriá-las e agaixar pra sair do sufoco.

Detrás da árvore eu vi o símbolo da igualdade entre homens e mulheres na Finlândia: afinal, todos têm o direito de fazer xixi em lugar público. Tão simbólico e mais econômico e ecologicamente sustentável do que queimar sutiãs, ninguém pode negar.

Nota do Blogueiro: Esse foi um daqueles famosos casos isolados, tá? Não vai sair por aí dizendo que eu falei que as finlandesas (como em "todas as finlandesas") fazem a mesma coisa.

domingo, 13 de setembro de 2009

Trabalho para Imigrantes na Finlândia

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão
("Meu caro amigo", Chico Buarque e Francis Hume)
Dos versos da música do Chico Buarque algumas coisas poderiam mudar (além do futebol, se joga de tudo aqui; samba e choro? ã-hã...), mas no restante é isso mesmo: o bicho está pegando pra todo mundo na Finlândia e pra estrangeiro então nem se fala.

Umas das perguntas que mais tenho que responder quando ligo pra casa ou troco mensagens com o pessoal do Brasil são: "Tá trabalhando?" ou "Como tá de trabalho aí?" Pra vocês que não sabem, eu conto.

Cheguei à Finlândia em 2007 com a vaga garantida no mestrado aqui. Por ser casado com uma finlandesa, não precisei ter desde o início a grana pra me manter no país. Pelo mesmo motivo, após ter meus documentos regularizados, eu tive direito ao mesmo dinheiro chamado opintotuki que os estudantes finlandeses recebem, além de um extra como um auxílio-moradia. No total, a quantia que recebi nestes dois anos pra estudar foi pouco menos de 500 euros.

Em 2008, após ver um recado sobre trabalho na comunidade "Brasileiros na Finlândia" no orkut, eu me inscrevi pra vaga em uma empresa de tecnologia que precisava de um brasileiro pra testes de software. Com o apoio de amigos dentro da empresa, consegui o emprego e lá fiquei até Junho desse ano, quando a tal da crise acabou com o meu e muitos outros contratos de período pré-fixado não só naquela empresa, mas em todo o país.

Numa série de reportagens chamada "Estrangeiros na Finlândia na Crise (em inglês)" produzida pela jornalista Zena Iovino pro site da Yle International (mídia estatal), a situação de imigrantes no mercado de trabalho finlandês descreve não só o meu, mas o drama de muitos outros no país.

Ao todo, são cinco matérias com o que eu considero alguns dos perfis mais comuns entre os estrangeiros e suas relações com trabalhos aqui: procurando emprego, o estudante, o empresário, o mais velho e a mãe tentando voltar ao mercado. Ao ler as cinco matérias, acredito que todos que morem aqui se identifiquem (na atual ou em outra circunstância) com pelo menos um dos cenários vividos pelos personagens descritos. No meu caso, eu tiraria um pouquinho de alguns dos casos pra descrever minha situação.

Assim como a russa Oksana Chuvjurova, eu trabalhei numa área diferente pra qual estudei e demorei a perceber a importância de entrar num sindicato desde o início. Só que diferente do caso dela, eu ainda recebi (até Agosto) o opintotuki. Ela está no auxílio desemprego, que no caso dela equivale a aproximadamente 26 euros por dia. Segundo a matéria, em junho o número de desempregados procurando emprego (incluindo finlandeses) aumentou em 67,500 pessoas (de acordo com o site do Ministério do trabalho, esse número subiu pra mais de 69 mil em Julho) gerando um total de mais ou menos 276 mil na fila.

Com o estudante chinês Tianyan Liu eu me identifico na necessidade que ele sugere de ampliar os conhecimentos acadêmicos nesse momento de crise. Ele propõe que os recém-chegados da graduação ampliem ainda mais seus conhecimentos pra aumentar seu diferencial no mercado de trabalho. A merda é que ter mais estudo não quer dizer muita coisa por aqui, como se vê no caso da cientista ambiental turca Zeynep Pekcan-Hekim.

Pekcan-Hekim está tentando voltar ao mercado de trabalho depois do período em que ficou em casa com o filho, agora com 15 meses. Ela tem phD na área, mas depende de bolsas de estudo pra ter um trabalho na área. O problema é que segundo a reportagem, o número de doutores está "minando o valor dos diplomas mais avançados". Ou seja, é tanto phD que a disputa está feia. Pekcan-Hekim, diferente de Liu, diz que não aconselharia pessoas a buscar diplomas como solução pra desemprego, apesar dela ter feito exatamente isso. No meu caso, é o meu caminho, meu poker, como escrevi esses dias. Se eu conseguir a vaga pro doutorado, vou ser uma feliz excessão. Se não...serei mais um na estatística.

A matéria ajuda a entender a situação de trabalho pra estrangeiros aqui, mesmo que não fale dos que trabalhem com mão-de-obra pesada em construções (como meu cunhado inglês), ou entregando jornais pela manhã (como o carinha que ficava na praça perto de onde eu trabalhava), e muitos outros casos. Porém, o que há em comum entre todas estas situações é o sentimento de insegurança e incerteza sobre um futuro estável a longo prazo.

Para mais informações sobre trabalho e estudo aqui na Finlândia, visite os sites:

Discover Finland - Para quem quiser saber o que é necessário pra estudar aqui.
International Study Programmes Database - Serviço de busca para saber as vagas em programas educacionais pelo país.
Finnish Imigration Service - Site com links importantes para conhecer os procedimentos de imigração e trabalho aqui.
Working in Finland - Um documento em pdf que apresenta o país e as oportunidades aqui.
Foreigners working in Finland - Página do ministério do trabalho sobre trabalho estrangeiro aqui.
Se você mora na Finlândia e tem outras experiências, comente este post e ajude a criar uma database com mais casos praqueles que estão querendo vir pra cá.

sábado, 12 de setembro de 2009

O "Racista" na TV Finlandesa*

*Desculpa, mas eu não resisto. O Título é exagerado como capa de jornal sensacionalista de propósito. Se você ler o texto, vai ver que as coisas não são tão simples assim. As aspas indicam: relativizem a palavra racista, não só aqui mas na vida.

Ontem a noite, no canal MTV3, estreou o programa Totuuden Hetki (tipo "A Hora da Verdade") onde uma pessoa comum (não-celebridade) passa por 7 baterias de perguntas pessoais e cabeludas enquanto um sensor de verdade julga se o que foi respondido é verdadeiro ou falso. Se a voz feminina disser "Totta" (Verdadeiro), o jogo continua. Se não...babau. Além disso, os convidados (amigos e família do participante) poderiam cancelar uma das perguntas.

De cara, o programa parecia que seria interessante.

Pessoalmente, foi uma boa surpresa saber que eu consegui acompanhar algumas das perguntas sem a ajuda da Wife. Ainda não falo finlandês, mas fiquei feliz em ver que não estou mais totalmente perdido. Só que depois de algumas perguntas pesadinhas - tipo "Você gosta de transar com sua esposa?" enquanto a esposa sentava do outro lado do palco parecendo envergonhada, ou "Você já teve atração sexual por sua amiga Paula?", sentada do lado da mulher dele -, chegou a bateria de perguntas que valeriam 10 mil euros. Nessa hora, a mulher do cara, a amiga e a irmã se sentiram muito mal. Nós também.

"Você preferiria ter vizinhos finlandeses à vizinhos imigrantes?" foi mais ou menos a primeira pergunta. "Sim", o cara disse. "Totta" a voz respondeu enquanto a família comemorava o acerto, mas não tinham onde colocar a cara de tão sem-graça que estavam. A relação dos finlandeses com imigrantes - e vice-versa - é um dos assuntos mais sensíveis do debate público. É no mínimo complicado.

Há muita confusão na compreensão de imigração. Muitos acham ruim porque eles acreditam que os imigrantes vêm pra tirar proveito do sistema social daqui. Nesse caso, muitos se referem aos africanos (o alvo mais comum é o pessoal da Somália). Há um tempo atrás, ao conversar com amigos de amigos numa rodada de cerveja, um deles disse:

"Você tá tranquilo, porque você estuda. Você faz alguma coisa. Agora tem esse pessoal (deduzi que fossem os africanos) que vem pra cá e não faz nada. Os turcos, você vê. Os turcos vêm e abrem pizzaria, kebab, eles tentam trabalhar e tal. Esse pessoal fica só sugando"

Como tem um tempinho, eu não lembro se o que isso que o cara disse foi antes ou depois dele tentar tirar de si o peso de suas palavras: "Eu não sou racista, mas..." O problema desse ponto de vista é que as pessoas falam e, ao passo que começa o telefone sem-fio (fofoca), os dados concretos são ignorados. Se mais informações oficiais fossem discutidas, esse papinho não teria tanta repercussão. No site do Finnish Refugee Council tem umas perguntas (em inglês) que falam justamente sobre os discursos mais comuns que rolam por aqui.


Outro dia eu estava falando com a Wife e alguns amigos que é muito estranho quando pessoas vêm falar comigo - principalmente pessoas q não conheco, tipo em bar e tal - sobre como imigrantes só querem saber de montar nas costas do governo. Eu costumo brincar: "Acho que o pessoal, assim que sabem que eu sou brasileiro e estudante, pensa que eu sou hóspede e não imigrante...rs"Tá, tem pessoas que querem exatamente tirar essas vantagens, inclusive brasileiros também (por mais charmosos e simpáticos que sejamos) além de alguns finlandeses espertinhos. Afinal, tem gente que se acha malandro em qualquer parte do mundo. Mas daí a generalizar são outros quinhentos.


Enfim, depois daquela pergunta embaraçosa, o cara recebeu outra no mesmo padrão: "Você já proibiu seus filhos de brincar com filhos de imigrantes?" O cara respondeu "Kyllä!" (sim) e a voz feminina confirmou: Totta.

A platéia já não mais aplaudia com tanta empolgação. A irmã do cara arregalava os olhos, a amiga e a mulher pareciam que estavam morrendo de vergonha e com pena do cara. Ele justificou dizendo que as vezes as brincadeiras dos pequenos estrangeiros era muito bruta.

Compreensível e justificável. Essa pergunta poderia servir tb pra explicar qualquer tipo de veto às crianças (quem nunca levou bronca pra não brincar com esse ou aquele pra não se machucar?). Mas naquele contexto, só serviu pra aumentar a impressão negativa surgindo como uma nuvem carregada de estereótipos em cima do cara.

Quando o camarada provavelmente pensava que as coisas não poderiam ficar piores, o apresentador apontou, mirou, calibrou, o cara do áudio caprichou no som de suspense e o câmera jogou o foco nos cornos do cara no momento em que ele ouviu:

VOCÊ SE ACHA RACISTA?

Na platéia o som gutural de como se dissessem: "Ui", ou "Jesus", ou "oi oi oi..." (maneira finlandesa de dizer tsc tsc tsc...em situações desconfortáveis). A mesma reação aqui em casa. Naquela hora, o programa deixou de ter a graça que poderia. O cara olhava pro alto, sabia que diria sim. A irmã dele abaixou a cabeça, a mulher e a amiga balançavam a cabeça mais resignadas. Sabiam que ele diria sim. E ele disse:

Kyllä! com a voz confirmando: Totta.

A platéia vaiou de leve. A irmã parecia não acreditar e demonstrava tristeza. A mulher e a amiga continuavam cada vez mais envergonhadas. É o tipo de coisa que muitos - finlandeses, brasileiros, seja lá nossa nacionalidade - têm dentro de si mas que dificilmente se admitiria em público.

E ele falou, em rede nacional.

Confessou um dos piores pecados da nossa sociedade global contemporânea que, como todo pecado, infelizmente nunca é discutido racionalmente. Parece um dogma ainda pior do que aqueles das religiões. Afinal, esse dogma é social e não-justificável pelas leis divinas (a maior das verdades do mundo pra quem acredita nelas). Logo, o mal está incuravelmente no indivíduo.

Você pode pecar, mas se rezar/orar/refletir/etc. , você tem cura. Mas se você é racista, você vai queimar no inferno porque isso está encruado no seu ser, forjado na sua testa como marca que nunca irá desaparecer.

Eu juro que vi a marca do ferro em brasa da opinião pública escrevendo racista na cabeça daquele cara.

Fiquei imaginando ele passando na rua e os vizinhos de outros grupos étnicos dele virando a cara, cuspindo no chão. Os filhos dele sendo massacrados na escola por causa do pai. Ele, curvado e envergonhado indo pro seu trabalho e no trabalho sendo julgado por quem quer que seja que lhe cruze o caminho. Será que isso vale os tais 10 mil ou 20, ou 30? Vale por você ser rotulado pro resto de sua vida como o cara que falou que era racista na televisão? Vale por você virar exemplo pra pessoas mal-intencionadas dizerem: "não falei que finlandeses eram racistas? você viu o cara na tv?" ou "Eu sou finlandês mas não sou racista como aquele carinha na televisão."

O problema do racismo é que ele rotula e a partir disso, dificilmente haverá relativização. O pior: muitos confudem racismo com uma série de outras coisas. Pra muitos desavisados, racismo é o mesmo que desrespeito por qualquer coisa do outro. Esses dias, um cara disse em um fórum da internet: "quando os imigrantes vêm pra cá e falam mal dos finlandeses, do salmiakki (aquela bala amarga que eles adoram), isso não é racismo..." Não gostar de um doce (mesmo que ele seja preto) é racismo?

Outros têm preconceito sobre o desconhecido. Entenda-se preconceito aqui como "ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério." Vai se criando uma bola de neve a respeito do outro que, quando menos se percebe, essa idéia é passada ao status de verdade. Aí as diferenças religiosas, culturais, essas diferenças vão se tornando barreiras, muros cada vez mais altos que fazem com que os indivíduos nem se dêem o trabalho de atravessar pra conhecer o outro lado. Lembra da piada do preto correndo ser ladrão e do branco correndo estar atrasado? Então.

A pergunta seguinte pro cara seria uma pá de cal pra ele em seu trabalho de supervisor na IBM. "Você contrataria um africano (ou foi imigrante?) pra trabalhar em sua equipe?" Ao que ele virou os olhos provavelmente pensando "fudeu...", a amiga correu e apertou a lâmpada e cancelou a pergunta. Imagina a merda que daria pro cara se ele dissesse "Não" e a maquininha dissesse "Totta"?

Como a Wife disse, imagina a merda que seria se ele já tivesse entrevistado algum imigrante e não contratado o cara? Ele certamente precisaria ir até o final e ganhar os 50 mil, pq depois disso acho que dificilmente a empresa o manteria. E penso eu, ele não seria contratado em nenhum outro lugar. Você vincularia a imagem de sua empresa à um racista? Pq naquele instante, diante de todo país, era isso que ele era. Por mais hipócritas que muitos que o julgassem assim fossem - pois muitos pensam na mesma lógica do cara - ele ali pode ter passado a ser parte da escória que envergonha nações. Aquela que dizem ser pequena - a minoria, como dizemos no Brasil - que na verdade paga o pato por nossa mania de não secularizar e iluminar esse lado escuro (e escondido) de nossas vidas.

Aí trocaram a pergunta: "Você convidaria islâmicos para juntar em sua casa?" "Não", ele respondeu. "Totta", a maquininha confirmou. "Eu não saberia o que cozinhar pra eles", ele justificou. Sim, ali ele já estava fazendo papel de ridículo principalmente pelas respostas anteriores.

Por fim, ele seguiu adiante, garantiu 20 mil e não quis enfrentar as outras duas perguntas que valeriam 30 e 50, respectivamente. Fez bem. Fez mesmo?

Esses tipos de perguntas não podem ser respondidas em joguinhos de "sim" ou "não" em rede nacional. Nesse jogo, eram três envolvidos intencionalmente: a emissora querendo audiência, o cara querendo uma grana, e os telespectadores querendo entretenimento. Quem mais ganhou com isso tudo foi a emissora. O cara ganhou uma merreca se comparada ao tamanho da cicatriz social que ganhou na testa. E nós, ganhamos um incômodo tão grande pra considerar não mais assistir ao programa.

Não que queiramos fugir ou evitar o assunto (a cor da minha pele - pra mim - e o fato de ser casado com um negro - pra Wife - nos impedem de evitar o assunto, por mais que a gente esteja cansado dele). Mas só achamos que ver pessoas correndo o risco de prejudicar suas vidas sociais (talvez suas integridades físicas tb) por um vintém e pelos índices de audiência não tem graça nenhuma.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Quando progresso não é balela

Essa semana, a ministra de transportes finlandesa informou que após a conclusão da estrada que liga Turku ao porto de Hamina a Finlândia não vai mais precisar de estradas.

Aí você pergunta: "E o quico?"
(pra quem não conhece (teve infância não? rs), a pergunta quer dizer: "e o quicotenho a ver com isso?")

Bem, acho que nada.

Eu só fiquei pensando:

"Porra, sem a historinha de que tem que abrir os caminhos para o crescimento do país, como esse povo vai ganhar voto?"

Eu, como cidadão brasileiro, nunca tinha me atinado pro fato de que progresso não precisa necessariamente ser um incessante processo de mudança. Tem horas que basta porque simplesmente progedir não é mais necessário.

Porque no fim, insistir em mudar o que funciona é pura invenção de moda.

A ministra daqui acha que a Finlândia, em estradas, já chegou nesse ponto.

Será que um dia nós chegaremos lá tb? Será que um dia ajustaremos (1a pessoa do plural proposital) nosso país de maneira que ele não precise mais progredir?*

*Pergunta retórica pq sinceramente ela é hipócrita e falsa uma vez que o autor já tem uma resposta pra ela.

domingo, 6 de setembro de 2009

Helsinki

A Teea indicou, eu li, gostei e passo pra vocês como presente de fim de semana.

Semana passada, a Adriana do blog Dri Everywhere publicou um post muito maneiro, com fotos muito maneiras da capital Helsinki.

Querendo ver, é só dar um clique no link acima.
Abraços e boa semana!

sábado, 5 de setembro de 2009

O Absurdo do Beijo

Da série: "Você sabe quando está há muito tempo na Finlândia quando..."

...você fica de certo modo incomodado com coisas que até pouco tempo atrás não faziam a mínima diferença na sua vida pq sabe...eram normais.

Hoje, há 10 minutos: "Caraca, o que é isso? Nossa, um absurdo! Que horas são? 18:45?????Um sol desse... No meio da rua? Meu Deus, que mundo é esse! Os sobrinhos da Wife esperando eu voltar da Makuuni com Shrek 3, duas crianças inocentes, enquanto esses daí...humpf!"
Agora vocês vêem! Estou eu passando de bicicleta pela rua da biblioteca e, quando viro a esquina, olho e vejo essa falta de respeito.

Um absurdo mesmo.

Os dois ali, logo ao lado da seção das crianças, cheio de livros infantis e eles ali. Ai Deus, que mundo é esse hein? Vê se pode:

UM CARA E UMA MOCA SE BEIJANDO NA RUA!
Num têm vergonha não? Get a room!!!!

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Só rindo do meu processo de afinlandização...rs

Aos imbecis, nem um AUDI ajuda (Audimies)

(A Teea escreveu sobre isso e tem uma opinião bem pessoal a respeito do assunto no blog dela).

A Finlândia tem uma história longa de igualdade entre sexos. Já em 1906, a Finlândia se tornou o primeiro país europeu a garantir o direito feminino à voto e o primeiro do mundo onde mulheres poderiam se candidatar. Pouco depois, em 1930, a igualdade entre marido e mulher foi garantida. Ou seja, leis que pregam o respeito à mulher como cidadãs vêm de muito tempo. A gente que vem de países machistas como o Brasil tende a ver essa situação no dia a dia.

Há um tempo atrás, conversando com um amigo que tinha uma namorada finlandesa (e estava assustado com a atitude forte da garota), eu disse: "mulheres finlandesas são feministas e femininas ao mesmo tempo. Tem que se aprender a viver com isso." Essa dualidade se vê no quotidiano. Quando você, brasileiro, pensa numa mulher motorista de ônibus, ou que trabalhe em uma obra, ou qualquer outro trabalho "pra homem", o que você pensa?

Muitos vão responder: "hum, sapatão" (termo vulgar pra mulheres não-tão femininas, em geral lésbicas). Isso está no nosso subconsciente nutrido com os preconceitos da nossa terrinha. Minha educação me permite policiar e corrigir essas idéias, mas não evitar esse tipo de pensamento (eles vêm e vão rápido, mas vêm). Ou seja, eu quando cheguei aqui e vi meninas bonitas e senhoras retocando a maquilagem atrás de um volante de um ônibus, ou dentro de um macacão de obras, por exemplo, foi um choque.

Essas visões ajudam a desfazer o preconceito que vem impresso na mente latino-americana (pelo menos na minha) e você aprende a entrar no clima e respeitar ainda mais as mulheres como iguais. Outra coisa perigosa - que deve ser evitada se você quiser evitar confusão - é não fazer piada sobre o papel feminino na sociedade. Se você está entre amigos e amigas e sendo claramente irônico, tudo bem. Agora não vá fazer piada em público sobre mulher e afazeres domésticos, ou coisas do tipo, pois vai dar merda. E como se um cara branco faz piada entre negros e macacos no Brasil perto de um negro: tá pedindo pra arrumar confusão. O que surpreende é que há homens finlandeses que, apesar de estarem vivendo aqui a vida toda, parecem que não aprendem. Aí, se fodem de azul e branco.

Essa semana, Esko Kiesi, gerente de vendas da Audi na Finlândia, deu uma entrevista pra uma edição especial da revista Anna pra profissionais (será que ele achou que nenhuma mulher leria?) comparando carros com mulheres (ui!), dizendo que porque mulheres são emotivas elas nunca podem ser chefes (não tão boas quanto os homens) (au!), que se uma mulher se recusa a lavar e passar a relação está comprometida (putz!) e que as mulheres precisam de homens pra cuidar de coisas técnicas (cala-te anta!). Mesmo admitindo que muitos homens mais velhos ainda pensam assim, ele foi brincar.

Advinha a merda que deu.

Choveram críticas de tudo que é lado, é claro. Esko "pediu demissão" do cargo dizendo:

"I am sorry of the hurt and damage that I have caused with my poorly considered statements, which were mainly intended as humour. I have worked together with hundreds of professionals to build a strong Audi brand, and I sincerely hope that my thoughtless action will not negate my years of effort.” [Desculpe-me pela mágoa e prejuízo que eu causei com meus comentários sem um mínimo de consideração, que foram feitos como um pouco de humor. Eu trabalhei em conjunto com centenas de profissionais para construir uma marca Audi forte, e eu sinceramente espero que minhas ações impensadas não venham a negar meus anos de esforço]
Rapidamente, em paródia à uma música antiga conhecida como Apinamies [Homem-macaco, tipo troglodita], os famosos Aamupojat [Garotos da manhã] da Rádio NRJ - que fazem um programa de humor e notícias ao estilo da Rádio Transamérica - criaram a música Audimies (Homem-Audi) que já é um hit no país. Ouça e veja a letra traduzida abaixo.



Audimies, Audimies, mä oon Audimies
[Homem-Audi, Homem-Audi, eu sou o Homem-Audi]
Sinussa on roimaa audimiehen voimaa
[Você tem a força bruta de um Homem-Audi]
ota minut kyytiin, Audimies
[vamos dar uma voltinha]
Suojaan luksuskaaraan kantaa voisit naaraan
[você pode proteger a fêmea no carrão de luxo]
oisit mulle machoin, Audimies, kenties
[você seria o mais macho, Homem-Audi, talvez]
machoin, Audimies
[o mais macho, Homem-Audi]

Ei lattakenkäfeministit kelpaa sulle laisinkaan, jee jee jee
[Você não é afim de feministas sem salto alto, ié ié ié]
korkkareista toisenlaisen potkun saat
[You get other kinds of kicks of high heels (ñ dá pra traduzir a piada pro Português]
silitys on hyvä, siivous on hyvä
[Passar roupa é bom, limpar é bom]
kunhan nainen tekee sen
[Se é a mulher quem faz]

Sinussa on roimaa saksalaista voimaa
[Você tem a força bruta alemã]
parkkeeraa mun talliin Audimies
[Coloca o carro na minha garagem, Homem-Audi]
Sä haluut nuoren naisen
[Você quer uma mulher nova]
kauniin, kuuliaisen
[bonita e obediente]
silittämään paidat, Audimies, kenties
[Pra passar sua camisa, Homem-Audi, talvez]
siistipaitainen Audimies
[um Homem-Audi de roupa limpa]

Ei tasa-arvoyhteiskunta maistu sulle laisinkaan
[A igualdade não cheira bem pra você]
Anna-lehden juttuun pääsit aatteitasi laukomaan
[Você tem a chance de ter voz na revista Anna]
Nainen, sä oot sorja, tunteittesi orja
[Mulher você é escrava das suas emoções]
Et sä pysty johtamaan
[Você não tem condições de ser chefe]

Sinussa on roimaa Audimiehen voimaa...

Sinussa on roimaa saksalaista voimaa...
Agora vamos esperar a reação da Audi pra tentar mudar essa relação da marca com esse tipo de pensamento. Enquanto isso, Esko vai sendo homenageado cada vez mais por aí na web.