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domingo, 13 de setembro de 2009

Trabalho para Imigrantes na Finlândia

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão
("Meu caro amigo", Chico Buarque e Francis Hume)
Dos versos da música do Chico Buarque algumas coisas poderiam mudar (além do futebol, se joga de tudo aqui; samba e choro? ã-hã...), mas no restante é isso mesmo: o bicho está pegando pra todo mundo na Finlândia e pra estrangeiro então nem se fala.

Umas das perguntas que mais tenho que responder quando ligo pra casa ou troco mensagens com o pessoal do Brasil são: "Tá trabalhando?" ou "Como tá de trabalho aí?" Pra vocês que não sabem, eu conto.

Cheguei à Finlândia em 2007 com a vaga garantida no mestrado aqui. Por ser casado com uma finlandesa, não precisei ter desde o início a grana pra me manter no país. Pelo mesmo motivo, após ter meus documentos regularizados, eu tive direito ao mesmo dinheiro chamado opintotuki que os estudantes finlandeses recebem, além de um extra como um auxílio-moradia. No total, a quantia que recebi nestes dois anos pra estudar foi pouco menos de 500 euros.

Em 2008, após ver um recado sobre trabalho na comunidade "Brasileiros na Finlândia" no orkut, eu me inscrevi pra vaga em uma empresa de tecnologia que precisava de um brasileiro pra testes de software. Com o apoio de amigos dentro da empresa, consegui o emprego e lá fiquei até Junho desse ano, quando a tal da crise acabou com o meu e muitos outros contratos de período pré-fixado não só naquela empresa, mas em todo o país.

Numa série de reportagens chamada "Estrangeiros na Finlândia na Crise (em inglês)" produzida pela jornalista Zena Iovino pro site da Yle International (mídia estatal), a situação de imigrantes no mercado de trabalho finlandês descreve não só o meu, mas o drama de muitos outros no país.

Ao todo, são cinco matérias com o que eu considero alguns dos perfis mais comuns entre os estrangeiros e suas relações com trabalhos aqui: procurando emprego, o estudante, o empresário, o mais velho e a mãe tentando voltar ao mercado. Ao ler as cinco matérias, acredito que todos que morem aqui se identifiquem (na atual ou em outra circunstância) com pelo menos um dos cenários vividos pelos personagens descritos. No meu caso, eu tiraria um pouquinho de alguns dos casos pra descrever minha situação.

Assim como a russa Oksana Chuvjurova, eu trabalhei numa área diferente pra qual estudei e demorei a perceber a importância de entrar num sindicato desde o início. Só que diferente do caso dela, eu ainda recebi (até Agosto) o opintotuki. Ela está no auxílio desemprego, que no caso dela equivale a aproximadamente 26 euros por dia. Segundo a matéria, em junho o número de desempregados procurando emprego (incluindo finlandeses) aumentou em 67,500 pessoas (de acordo com o site do Ministério do trabalho, esse número subiu pra mais de 69 mil em Julho) gerando um total de mais ou menos 276 mil na fila.

Com o estudante chinês Tianyan Liu eu me identifico na necessidade que ele sugere de ampliar os conhecimentos acadêmicos nesse momento de crise. Ele propõe que os recém-chegados da graduação ampliem ainda mais seus conhecimentos pra aumentar seu diferencial no mercado de trabalho. A merda é que ter mais estudo não quer dizer muita coisa por aqui, como se vê no caso da cientista ambiental turca Zeynep Pekcan-Hekim.

Pekcan-Hekim está tentando voltar ao mercado de trabalho depois do período em que ficou em casa com o filho, agora com 15 meses. Ela tem phD na área, mas depende de bolsas de estudo pra ter um trabalho na área. O problema é que segundo a reportagem, o número de doutores está "minando o valor dos diplomas mais avançados". Ou seja, é tanto phD que a disputa está feia. Pekcan-Hekim, diferente de Liu, diz que não aconselharia pessoas a buscar diplomas como solução pra desemprego, apesar dela ter feito exatamente isso. No meu caso, é o meu caminho, meu poker, como escrevi esses dias. Se eu conseguir a vaga pro doutorado, vou ser uma feliz excessão. Se não...serei mais um na estatística.

A matéria ajuda a entender a situação de trabalho pra estrangeiros aqui, mesmo que não fale dos que trabalhem com mão-de-obra pesada em construções (como meu cunhado inglês), ou entregando jornais pela manhã (como o carinha que ficava na praça perto de onde eu trabalhava), e muitos outros casos. Porém, o que há em comum entre todas estas situações é o sentimento de insegurança e incerteza sobre um futuro estável a longo prazo.

Para mais informações sobre trabalho e estudo aqui na Finlândia, visite os sites:

Discover Finland - Para quem quiser saber o que é necessário pra estudar aqui.
International Study Programmes Database - Serviço de busca para saber as vagas em programas educacionais pelo país.
Finnish Imigration Service - Site com links importantes para conhecer os procedimentos de imigração e trabalho aqui.
Working in Finland - Um documento em pdf que apresenta o país e as oportunidades aqui.
Foreigners working in Finland - Página do ministério do trabalho sobre trabalho estrangeiro aqui.
Se você mora na Finlândia e tem outras experiências, comente este post e ajude a criar uma database com mais casos praqueles que estão querendo vir pra cá.

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