O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.
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sábado, 12 de dezembro de 2009

O dilema dos tomates

Hoje, juntei tudo que é garrafa e lata e fui pro mercado comprar coisas pro almoço. Meu recibo deu 3,90 €. Então resolvi ver o que eu compraria com esse valor. Decidi comprar cebola, alho e tomate. A cebola estava 0,59 por kilo. O alho, três por 0,89. Tranquilo. E o tomate?

Na Finlândia, tomate pode ser nacional ou importado. O da casa estava 3,90/kg. O "gringo" 1,49/kg. Qual você compraria? Então, eu pensei a mesma coisa. Fui no mais barato. Mas aí lembrei de ontem, ao me despedir da minha amiga na nossa formatura do mestrado. Ela disse: "volto para o Brasil. Pretendo que este seja meu último vôo". Ela decidiu não encher mais a atmosfera de fumaça querosene. Aí, no meio do corredor, fiquei olhando para os tomates.

Os que eu peguei vieram das Ilhas Canárias, suponho que de avião. Como eu quero cortar meus níveis pessoais de poluição, me enchi de orgulho e devolvi los tomates à prateleira. Peguei o nacional. Mas veio o diabinho capitalista: "Você vai dar quase quatro euros por um quilo de tomates? Heeiiinnnn!?" Aí, de novo, no meio do corredor, fiquei olhando os tomattit. "Já sei! Claro! Porque não pensei nisso antes?!"

Como a Wife está viajando, peguei menos tomates nacionais. Ta-dãã!!! Resolvido. Mas aí, no meio do corredor, olhei pros outros produtos: cebola espanhola, alho num sei de onde...várias coisas do Brasil, como contou a Irene esses dias. Aí o diabinho riu: "Bróder! Vai no mais barato...até porque quase tudo que você gosta aqui é importado mermo, mermão! [sim, o maldito tem sotaque carioca]. Do que você quer abrir mão por causa dessa sua tal mudança, rapá?"

Resisti quanto aos tomates e comprei o Finlandês. Mas não quero abrir mão do melão, do feijão, do arroz, das tangerinas, das laranjas... eu admiro a minha amiga na força de vontade que ela tem em colocar seus ideais em prática. Mas acho que ainda não cheguei a este ponto e nem sei se chegarei. Assim como sei que a produção de carnes causam mais danos ao ambiente, mas não me imagino vivendo sem bifes. O bom é que o exemplo dela vai sempre ficar como o anjinho argumentando contra o capeta muquirana e egoísta da minha consciência.

Nesta de matar um tomate por dia, a pergunta que fica é: até que ponto estamos dispostos a mudar pelo que acreditamos ser melhor pro mundo?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Impressões do Fim de Semana | Weekend Impressions

Como minhas impressões mudam desde que vim pra cá.
How my impressions have changed since moving here.

Leia:|Read:
Mudanças|Changes
Mais mudanças | More Changes
O (meu) Brazil | (My) Brasil by Wife


Numa conversa entre amigos as pessoas também ouvem.
In a conversation among friends people also listen.

Querer mudar algum mundo não é utopia.
É projeto de médio à longo prazo.
Wanting to change some world is not utopia.
It is a medium and long range project.

Discussão sobre política pode ser agradável e levar à algum lugar.
Discussing politics can be pleasant and have positive outcomes.

Crimes e violência nos jornais podem ser genuínos casos isolados.
Crime and violence in the news can be genuine isolated cases.

O silêncio profundo numa conversa não é a incômoda falta de assunto.
É a não-obrigatoriedade de se dizer coisas só por dizer e não dizer nada.
The deep silence in a conversation is not the unpleasant lack of subject.
It is the non-obligation of saying things for saying and end up saying nothing.


Talvez continue...
Maybe continues...

sábado, 28 de novembro de 2009

Quando Deus é palavrão | When God is a swearword

Sabe quando alguém faz uma besteira com alguma coisa sua e você automaticamente diz: "Po%&a!", ou "Car#lho!" ou "P%&a quil P@riu!" ? Pois é. Em Finlandês, você diria, entre outras possibilidades, Jumalauta! Pois bem, ainda estou tentando entender como um termo que significa "Deus ajude" virou motivo de se lavar as bocas infantis com sabão.

Do you know when somebody screws up with something of yours and you automatically say: "Damn it!" or "Fucking hell!"? Well then. In Finnish, you'd say, among other possibilities, Jumalauta! I am still trying to figure out why on earth a term that means "God, help" became a reason to wash a child's mouth up, as we say in Portuguese when they curse.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

(O meu) Brazil | (My) Brasil - by Wife

The Wife wrote about some aspects between Brazil and Finland through her own lived experiences in the lands of cariocas.
A Wife escreveu sobre alguns aspectos entre Brasil e Finlândia por sua experiência vivida nas terras cariocas.

(O meu) Brazil - Cute & Curious things
(My) Brasil - Coisas curiosas e bonitinhas

...no queueing numbers are needed to know whose turn is next.
...não se precisa de números na fila pra saber de quem é a vez.

...fresh food costs less than those in vacuum package.
...comida fresca custa menos do que aquelas a vácuo.

...mannequins in the shop windows have butts.
Consequently, the jeans sold in those stores also have space for a round-ish female butt.
...manequins nas vitrines têm bunda.
Logo, o jeans nas lojas também tem espaço pra uma bunda arredondada feminina.

...those who get seats in crowded buses hold the bags of those who stand.
...quem consegue sentar no ônibus segura a bolsa daqueles que ficam em pé.

...having your guests contribute for the party doesn't mean you're stingy.
It means there will be more parties.
…pedir os convidados pra fazer vaquinha não significa pão-durice.
Quer dizer que vai ter mais festas.

...men don't feel castrated if asked to carry a woman's handbag.
...homens não se sentem castrados se uma mulher os pedem pra carregar a bolsa.

…there's nothing your manicurist won't understand.
...não há nada que sua manicure não entenda.

Maybe continues...
Talvez continue...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Mais mudanças | More changes

Mais coisas que mudaram em mim na Finlândia.
More things that changed in me in Finland.

Comprar em brechó não é pobreza. É escolha barata.
Shopping at used-clothes store is not poverty, but an inexpensive choice.

Visitar alguém é estranho se não marcado.
Stopping by someone is strange if not agreed.

Um cara que deixa de trabalhar para cuidar do bebê não é submisso. É pai.
A man who leaves work to take care of a baby is not submissive.
He is a father.

Só bêbados sentam na esquina para tomar uma cerveja com os amigos.
Only drunkards sit on the corner to have a beer with the friends.

Bife é caro. Salmão é mais em conta.
Beef is expensive. Salmon is more affordable.

Programas de TV estrangeiros não são dublados.
Têm legendas tanto em canais pagos quanto abertos.
Foreign TV programs are not dubbed.
They have subtitles both in paid and open channels.

Não é nojento separar lixos.
It is not disgusting to sort rubbish.

Não é maluquice estocar latas e garrafas quando se recebe por elas.
It is not weird to stock cans and bottles when you get paid for them.


talvez continue...
maybe continues...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Mudanças | Changes

Algumas coisas que mudaram em mim na Finlândia.
Some things that changed in me in Finland.


Lixo na rua me dá raiva, não tristeza.
Garbage on the street makes me angry, not sad.

Compra é na mochila velha,
não nas bolsas de plástico do mercado.
Groceries are in the old backpack,
not in the market's plastic bags.

Ser só estudante não é estar desempregado.
Mesmo que não haja salário.
Being only a student is not being unemployed.
Even without a salary.

Velas vermelhas são de Natal, não de magia negra.
Red candles are for Christmas, not for black magic.

Gritar "Viado", "Favelado" e "Piranha" é preconceito.
Mesmo em jogo de futebol.
Shouting "Queer", "favelado" and "bitch" is prejudice.
Even in a football pitch.

Um ou dois copos de cerveja basta.
One or two glasses of beer is enough.

Saber inglês é básico, não luxo.
Konwing English is basic, not a luxury.

Prefiro trens à ônibus.
I prefer trains to buses.

Vou mais à biblioteca do que à locadora.
I go more often to the library than to the video store.

Beber e não dirigir é hábito, não sacrifício.
Drinking and not driving is a habit, not a sacrifice.

Recusar carona de amigo bêbado é respeito, não palhaçada.
Refusing a ride from a drunk friend is respect, not stupidity.

talvez continue...
maybe continues...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Saudade, Identidade...e confusão.

Complicando e contradizendo momentos dos dois últimos posts.
Vantagens de se ter uma Wife inteligente, pensante e provocadora. :)

Durante as duas últimas semanas, eu participei de palestras, seminários e workshops na Universidade de Helsinki. Ontem foi a última quando apresentei o tema da minha pesquisa de doutorado pra uma mesa de doutorandos e um doutor belga especializado em sociologia da mídia e discurso. Eu tinha tudo para estar nervoso e preocupado. Se você leu meu antigo e extinto post "A ovelha e os lobos" sabe porque. Mas ao contrário, tudo correu bem. Desta vez, falei bem e fui convincente. Seguro. Não fui ovelha, falei de igual para igual com os lobos. Em menos de uma semana trabalhei nas minhas fraquezas e articulei melhor o que tinha a dizer. E o que tem isso a ver com os posts anteriores? Bem, é "simples": Eu não sou ovelha. Eu não sou lobo. Eu sou eu tentando dar conta de situações diferentes. Assim como o que eu faço por conta da saudade não me definem nem como brasileiro, nem como pessoa.


Ou seja, saudade não tem a ver com identidade como eu deixei escapar antes. O fato de eu ouvir música brasileira aqui na Finlândia e me sentir super-bem ou super-triste ou extravasar como eu fiz no Clube Brasil não definem a pessoa que eu sou, apenas as coisas das quais eu sinto falta. Um pedaço num tempo ido (vivido ou não) que me remetem a lembranças de outros tempos (que não existem mais nem pras pessoas que continuam lá no meu Brasil). Lembranças e só. Essas coisas me aliviam ao viver no novo, tiram um peso das costas e da mente. Mas no fim, minha vida vai continuar e minhas facetas vão se formando de acordo com o que vivo a cada dia, em situações diferentes. Essa confusão me deixa me perguntando com muita curiosidade: Por que eu misturei saudade com identidade?


Por que tive essa necessidade confusa, mesmo que momentânea, de confundir deliberadamente meus gostos com meu "eu"? Logo eu que sempre fui tão certo de mim, tão disposto a ir contra a todas as dificuldades de adaptação pra me adaptar. Logo eu que critico quem se prende ao passado com medo do presente, tão incerto quanto o futuro. Eu fiz o mesmo. Talvez tenha sido isso: Medo. Uma pontinha subconsciente de receio das incertezas do novo. Ou seria uma pontinha de cansaço por ter de lidar, constantemente, com o caos da vida onde somos indivíduos soltos tendo que forçadamente se adaptar à situações diferentes o tempo todo? Se aliviar a saudade é essencial pra reforçar o que somos (nossa identidade pessoal), será que estamos condenados a nunca sermos completamente nós mesmos em situações onde não podemos ter contato com o que consideramos essencial do nosso passado? Ou podemos nos descobrir muito mais se separarmos uma coisa da outra?


Eu, nesta sexta, pela manhã.
Já reparou que a imagem clássica de pessoa confusa equivale a seu rosto quando você olha pra si mesmo?
Coincidência????