O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Entre Finlandeses e Brasileiros

Um dos papos que mais se ouve em relacão aos finlandeses é de que eles são calados, frios, bêbados...enfim, essas coisas não tão boas. Aí, quando se tem brasileiro na história, a coisa sempre fica polarizada: como os dois fossem lados opostos onde a tendência é o brasileiro ser "cool" e os finlandês ser "mala". Na boa, uma coisa que aprendi aqui é não dar moral pra estes estereótipos. Na minha festinha de aniversário, por exemplo.

Éramos uns trinta: brasileiros e finlandeses. Teve gente dancando quadrilha na sala: brasileiros e finlandeses. Alguns ficaram conversando no quintal: brasileiros e finlandeses. Uns beberam demais e se soltaram: brasileiros e finlandeses. Outros seguraram a onda e ficaram sossegados e mais quietos: brasileiros e finlandeses. No fim, alguns brasileiros e finlandeses foram pra pista e se acabaram de dancar na boate ou no bar. Outros finlandeses e brasileiros foram pra casa descansar. Todos se divertiram.

A moral da história é: enquanto se perde tempo julgando ou analisando a cultura e o comportamento de um em relacão ao outro, vai se perdendo a oportunidade de se conhecer pessoas diferentes e gente boa tanto daqui quanto do Brasil. No fim, percebe-se que ser "cool" ou "mala" vai além de regiões geográficas, trópicos e círculos polares.

Afinal, é tudo gente.


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Aprendendo a viver aos 30 - Como a vida mudou na Finlândia

Perdi a bola numa das muitas trombadas com finlandeses troncudos e caí. Dobrei os joelhos, coloquei as mãos espalmadas no campo de terra batida e brita. Ali, com o joelho meio ralado e com a respiracão funda de um touro abatido e moribundo eu decidi dar um novo rumo na vida. As pernas pálidas que voavam por mim me abriram os olhos: ou eu cuidava mais de mim, ou a sensacão dos noventa aos trinta dominaria não só meu corpo, mas minha mente e definiriam de vez a morte da minha juventude.

**

Quando vim do Brasil, meu estilo de vida padrão dos vinte-e-poucos da minha cidade na região metropolitana do Rio de Janeiro: trabalho e estudo o dia todo, choppinho no fim da tarde. Churrasco todo fim de semana, talvez com um quilo de carne e três caixas de Brahma. Festas, pouco sono, muita ressaca. Mediamos a resistência do corpo em aguentar mais álcool. Bons tempos sim, mas idos. Precisei vir pra Finlândia e não aguentar uma partida de futebol para acordar para a vida.

Fala-se muito que os finlandeses bebem demais. É verdade. Mas esquecem-se de falar que grande parte deles não são vistos caídos pelas tabelas dos pubs, esquinas e parques. Depois de perceber o péssimo estado do meu corpo, comecei a correr ao redor do Pikku Vesijärvi, em Lahti. Naquelas duas ou três voltas iniciais pra ganhar ritmo há um ano e meio atrás, eu via famílias jogando discos, brincando de badminton, correndo, andando de bicicleta, pescando. E se você pensa que isso se resume ao verão, você está enganado. Quando a neve cai e cobre tudo de branco e os corpos de goretex e lã, ainda se vêem jovens e não-tão-jovens esquiando aqui, caminhando ali, patinando acolá... E a inveja que eu fui sentindo foi me dando mais forca: como que eu, aos vinte e alguns, não tinha disposicão para nada?

Eu já havia tentando malhar antigamente, ainda em Magé, por diversas vezes. Mas por pura vaidade e só. Tinha que ficar sarado porque era estético, tinha que ficar "no estilo". Malhava de dia, bebia e fumava a noite (mesmo que o cigarro por mtas vezes só me fizesse sentir mal). Era a onda e eu tinha que ficar nela. Afinal, eu não era fraco. Mudei de ambiente e percebi que a fraqueza estava em mim. A vaidade me cegou das estatísticas que dizem que os finlandeses são obesos, que usam carros pra tudo... Para mim, eles são pessoas que cuidam de si, que voam pelos campos de futebol (ou arena de hockei, ou entre as bases do Superpesis), que aguentam passar dias subindo e descendo ladeiras a pé ou de bicicleta, dos que vestem roupas justas sem medo e sem "silhueta acentuada", apesar dos seus trinta, quarenta e tantos. Minha vaidade tem inveja desses. Dos pecados capitais surgiu a minha nova virtude.

**
O vento soprava meu rosto enquanto o pensamento se perdia nas trilhas do meu mp3 player. Um par de Puma eu calçava, como uma puma eu me sentia. O Pikku Vesijärvi agora é uma parte pequena de um caminho que rodeia o centro de Lahti. A formação geológica da cidade garante subidas leves pela Harjukatu e longas pela Hirsimetsäntie, íngrimes pela Mustankalliontie, e retas planas pela marina às margens do Vesijärvi. Os morros e suas trilhas garantem os trajetos off-road. A cada passada, o pensamento mais distante da preguiça, a pele cada vez mais próxima dos músculos, o fôlego restaurado sem pausa. A dor me fazia cócegas, me fez rir ao constatar que ao virar a esquina, eu teria corrido milhares de metros que antes eu só seria capaz em tão pouco tempo se montado na motocicleta de outrora.

Coloquei as mãos espalmadas sobre a cerca da sacada do nosso apartamento e sentei. Dobrei os joelhos e me estiquei pelo chão. Com a respiração funda de um urso ao despertar, sorri ao ver que a vida está ótima do jeito que está. O suor escorria umidecendo a camisa e refrescando minha pele cada vez menos flácida. Essa semana, eu viro os trinta, mas sem a sensação dos noventa. Hoje, eu domino meu corpo e minha mente, onde minha juventude é eterna sem que morra, sem que me faltem pernas para acompanhar os fortes e ágeis peladeiros finlandeses.
**
Há um ano, entrei na academia (Finnbody). De lá para cá, perdi quase 10 quilos, consigo abaixar para amarrar o tênis sem dobrar o joelho e sem perder a respiração, minha barriga de chopp finalmente está sumindo (finalmente aprendi o que é beber moderadamente). Ter vindo para a Finlândia ajudou muito: a cerveja é mais cara, os hábitos são diferentes... Mas se não tiver atitude, não há comida saudável e exercícios físicos que te façam sentir bem.
Minha meta agora é: terminar a corrida de São Sebastião, em Janeiro, no Rio, em 55 minutos. Eu hoje faço a distância em mais ou menos 1 hora. É pra esses cinco minutos que eu dedico cada pensamento na hora de comer, de beber, de dormir...de viver. E depois deles, eu penso em outra coisa pra continuar seguindo.
E você? No que pensa?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Se eu fosse poeta e este post uma carta, assim seria escrito

Koli, em algum lugar no tempo

Nossa breve estada no monte Koli me fez desejar dar-te uma lembranca que traga em si a grandeza do que sinto por ti. Das rochas que escalamos e do dia longo que felizes passamos juntos veio-me um pensar súbito n’aquele que melhor lhe diria sem palavras o que és em minha vida.

Em silêncio, te deixei aos cuidados de Morfeu. No teu sono vi paz, nos lencóis que te abracavam te senti protegida. Despreocupado, apanhei a caixa das almas na esperanca de dentro dela trazer-te do monte a maior obra, o mais grandioso momento do dia.

Ao longe penumbro vi seu fogo brando aquecer o horizonte. Como eu despertara depois do adormecer da noite, por pouco não o vi acordar. Corri para as rochas e ansioso lhe pensei cantigas para que se levantasse feliz e belo. Aos poucos, o gigante revelou-se mesmo forte, mas tímido e sonolento. Ele brilhava como brilham seus olhos d’água, parecia sorrir teu sorriso nas frescas manhãs de verão. Ao perceber minha audácia de capturá-lo, apressou-se e ergueu-se em sua magnitude.

Ágil, eu me desviava de suas lancas de fogo desveladas sobre o orvalho que cobria as águas turvas do Pielinen. A sombra dos pinheiros me protegia de sua luz crescente que me cegava a lente e me impedia de enxergá-lo. Tão grande quanto sua beleza era sua vaidade, mas minha ambicão não se fez covarde, dele consegui guardar imagens para te dar. Mas o sábio Rei gargalhava, sabia que eu poderia trancá-lo, porém seu calor nunca poderia levar.

Por isso, amor, trago nesta pequena caixa retratos frios do sol nascente para alegrar seus dias quando as nuvens o impedirem de brilhar. E se frio sentires, deite-se em meus bracos. O Rei é soberano, mas só. Não sabe do calor dos beijos e abracos amantes que nossos corpos podem se dar.


***

Neste momento, estamos dirigindo de volta para Lahti. Deixamos o hotel e fomos à vila os avós da wife cresceram. Visitamos uma tia da minha sogra e agora seguimos viagem. Foi uma semana ótima, de descanso e tranquilidade. Agora, é hora de voltar para casa e preparar as duas festas de aniversário: 30 anos com a família na sexta, e com os amigos no sábado.

Em tempo, pra conseguir tirar a foto do nascer do sol, eu tive que acordar pouco depois das três da manhã e correr pra um lugar mais alto do morro onde ficava nosso hotel. Valeu a pena, as fotos ficaram lindas. Depois coloco elas no Flickr, Orkut e Facebook.

Abracos!

domingo, 19 de julho de 2009

Se "catar latas" fosse conto, assim seria contado

ou

"10 segundos olhando a velha catadora de latas"

O lenço que a protegera do sol, no cair da noite clara de Joensuu aquecia suas orelhas sem deixar de impedir que seus tímpanos vibrassem com o ruído estrondoso que atravessava as cercas e varava a cidade. Seus olhos cansados pareciam não se importar com o rugir das guitarras e baterias.

Milhares de olhos semi-mortos vagavam avermelhados sem perceber a velha e suas rugas queimadas de sol, sua boca destrocada pelo tempo e suas mãos umidecidas pelo veneno que os fizeram vagar zumbis ao seu redor. Envergavam-se com o peso de suas cabeças encharcadas. A brisa lhes soprava como se os chacoalhassem em tentativa vãs de despertá-los do transe.

E a senhora seguia, do Ilosaarirock nada sabia. No rastro dos bêbados, desviava-se dos corpos e se contorcia sofrida para tirar dos restos sua sobrevida. Olhos sãos viam seu sorriso quebrado, aberto a cada cálice erguido, como se brindasse com o sol quase ido num rápido gozo logo perdido ao voltar seus olhos para o chão.

No dia seguinte, os olhos azuis despertarão sem saber que do feitiço que os consumira, a velha senhora e tantos outros tiravam o elixir essencial de suas vidas. Se é que em algum momento vivem.

....

Na noite de ontem, passamos bons momentos com a mãe da wife e seus tios em Joensuu. Passamos um tempinho nos arredores do Ilosaarirock (onde 21 mil pessoas se esbaldavam num dos mais conhecidos festivais de verão e curtiam Children of Bodon, Stratovarius, e outros astros do rock e outros ritmos). Depois andamos pro centro da cidade, onde bebemos cerveja e comemos fritas com salsicha numa barriquinha de uns turcos. Hoje, depois de um almoço ótimo, seguimos para Koli, de onde escrevo no hotel. A vista é linda, uma das imagens clássicas da Finlândia: lagos, pequenas ilhas e pinheiros por todo lado. Amanhã cedo, pretendo acordar pra ver o nascer-do-sol. O problema é que o sol nasce pelas 4, 5 da manhã...ixi! Vamos ver no que dá!


sábado, 18 de julho de 2009

Se fosse aquela coceira um conto, assim seria contada

ou

"Já que não é para tomar mais banho, que a desculpa seja bem contada"

Foi como mágica, ninguém sabe o que lhe causou tanto sofrimento. Horas depois, ele pensa e em nada mais consegue encontrar a razão se não nas gotas d'água que lhe atingiram enquanto aproveitava um dia de sol no verão finlandês.

A semana vinha sendo perfeita: viajando pelo leste finlandês com a mulher e, depois de uns dias, a sogra. Passaram por lagos, passearam de barca, beberam, se recolheram numa casa confortável a beira do lago Viinijärvi, ao norte da Karjala, perto de Joensuu. Aproveitaram a sauna, o sol, comeram um delicioso salmão e, cansados, foram dormir. Ele mal sabia que, no dia seguinte, sentiria na pele o que veio a descobrir depois do ocorrido ser algo rotineiro nessa época do ano, por essas bandas. Se ao menos ele soubesse quando fechou os olhos e adormeceu ao nao ouvir o zunido dos mosquitos que disputam bracos e pernas com abelhas e outros insetos.

Descansado, acordou feliz. Despertou a mulher e foram para mais um café da manhã antes de novas aventuras. Mais uma vez, passearam pelos arredores, visitaram lugares, amenizaram o calor com sorvetes, não fizeram nada que pudesse ter causado aquilo que em algumas horas lhe faria desesperar ao ponto de lhe arrancar a própria pele com as unhas.

"Daqui a pouco vamos passear de lancha", a mulher avisou. Em pouco tempo, embarcavam todos na máquina veloz que cortava o vento e as ondas, espalhando a água do lago pelo o ar, como se brincasse de sacudir os navegantes e sorrisse a cada gota que os molhavam. "Olha isso... estranho não tinha sentido nada até então", dizia ele enquanto apontava a axila direita para a mulher. Um pequeno caroco, como uma picada dos malditos zunidores. Nao poderia ser...eles não vivem tão distante da margem. Aos poucos, viram que aquele não era trabalho dos pequenos voadores do mal.

"Está enorme", ela se surpreendeu. Aos poucos, suas unhas rasgavam-lhe as pernas, os bracos e as costas. Nada parecia parar aqueles carocos de espalharem e se juntarem e formarem camadas vermelhas e inchadas em sua pele. Enquanto a máquina voava pelas águas, ele já não mais apreciava a vista. Só via suas pernas, e bracos e sentia seus olhos fecharem inchados. "Vamos voltar para casa, parece alergia. Nossa, está muito espalhado", disseram nos companheiros medindo a vermelhidão de sua pele que se extendia por ambos os bracos, e pernas, e costas...a cada salto da lancha, uma sensacão de agonia. "O que é isso? E se não parar de inchar?", pensava. Chegaram à borda, a máquina deu sua última risada enquanto ele corria parando a cada passo para tentar parar o incômodo encravando suas unhas na própria carne.

"Tome esta pílula. Vamos levá-lo para Joensuu, você precisa ir ao hospital", disse a mulher. A sogra vou pelo asfalto. No caminho, as unhas já não tinham tanto motivo para continuar. Foi se sentindo melhor até que a médica lhe deixou entender que esse tipo de alergia - sabe-se lá porquê tenha sido causada - é muito comum e que não havia com o que se preocupar. No fim, sentiu-se aliviado com o fim da angústia e a possibilidade de poder aproveitar a noite com tranquilidade. O mistério ainda continua: não se sabe a causa da alergia.

Por via das dúvidas, ele decidiu nunca mais chegar perto d'aguas, incluindo aqueles que até então lhe banhavam diariamente.

----

O problema foi identificado como urticália - não alergia - e veio e foi em algumas horas sem maiores consequências. Eu, quer dizer, "ele" já está bem e indo pra noitada com a família aqui em Joensuu.

:)