O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Entre Lahti, Magé e o Porre

Sabe a ressaca?

É, exatamente. Aquele mal-estar depois da embriaguez. É tão ruim que em certos lugares do Brasil há uma gíria que serve pra tudo quanto é tipo de coisa ruim, chata, enjoativa. Você sabe, né? Já teve alguma vez em que você já se pegou dizendo que isso ou aquilo é um porre? Pois é.

A ressaca é um porre, mas não há como negar: enquanto na rebordosa do dia seguinte às tantas doses de vinho, lonkero, cerveja e ... o que era aquilo mesmo?, a capacidade filosófica e reflexiva do ser humano chega a níveis que parecem extrapolar os meros 10% de atividade cerebral à que a maioria de nós está confinada.

Hoje, após um domingo de trevas recolhendo garrafas vazias, desgrudando chão grudendo e retorcendo a cara entre pensamentos e estômago embrulhados, eu me peguei pensando na minha Magé, lá na Baixada Fluminense, e numa das coisas que Lahti tem em comum com ela:

- E aí, Léo? Vai sair hoje?
- Porra, pra onde? Pra praça? Ficar rodando feito pião, parar num bar daqueles e encher os cornos até tantas horas?
- Po, dá pra dar um pulo no baile tb, ou pro pagode.
- Ah, cara. Sempre a mesma merda: funk no Mageense ou pagode no Baixa Renda, praça, cerveja no semi-deus ou em outro lugar, casa. Cansei dessa vida, chega. Prefiro ficar em casa vendo a "Praça é nossa".

Nos dias em que eu de fato saía e bebia, a ressaca do dia seguinte era muito pior justamente por isso: por lembrar que aquilo era o máximo que se poderia esperar daqui. De lá também, mas em Lahti, - cidade-dia como eu escrevi esses dias atrás - as oportunidades da noite podem ser um porre tal e qual antigamente.

Esse fim de semana, por exemplo, a gente foi pro Armas, anexo da danceteria Ilon Talo, aqui no centro da cidade. Nosso processo foi mais ou menos o mesmo de sempre: recebemos amigos em casa, bebemos, nos divertimos muito e pensamos: "vamos pra cidade! Yuppieeee!!!", mais pela animação bêbada de passar mais tempo com amigos do que pela cidade em si.

"Seria melhor se tivéssemos ficado em casa", disse a Wife no dia seguinte. Verdade.

O lugar estava lotado demais e a night ou a balada ali é diferente. Não sei, tem uma coisa pesada no ar, sei lá. Muitos, como nós, já chegaram lá "alterados". Além disso, eu adoro rock, mas sempre pensei nele como o estilo que toca no momento em que você quer dar um tempo da pista de dança (ou quando a danceteria quer encerrar o expediente) e não como o som da noite toda. E a gente sabia que iria ser assim, pq em Lahti é sempre assim.

Tem os bares: a cervejaria Teerenpeli (minha favorita) e tantos outros pubs pela cidade com tema esportivo, karaokê, mas q no fim, todos têm a mesma essência. Aí, tem as danceterias: Onnela (nunca fui, mas parece ser mais adolescente), Ilon Talo (jovens e adultos, decoração bacana, bom espaço, música animada e por isso sempre cheia), Jackalope (pros trintões). Não lembro se tem mais alguma... rolam umas festas também, e tem uns eventos no hotel Cumulus que um amigo me disse q são bons, mas tb nunca fui pq não parecem que eu gostaria de ir.

O problema é que tirando a diferença de público, essas danceterias tocam o mesmo tipo de coisa. Sempre. Logo, a escolha do destino depende se eu quero ouvir Guns and Roses, Bon Jovi ou Rihanna com a molecada ou com os contemporâneos. E esse tipo de constatação é uma das coisas que fazem a ressaca daqui ser tão deprimente quanto a ressaca lá em Magé. Sempre a mesma merda.

Felizmente, o que salvava lá na terrinha é o que salva aqui. Nos momentos tontos da bebedeira da noite anterior, um sorriso sempre sai quando se pensa que pelo menos os amigos são companhias ideais pra se criar a própria balada. Se a noite lá fora é um porre, pelo menos aqui na sala é inesquecível sempre que rola.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Fofoca e put@ria em Helsinki sábado a noite*

Você sabe que eu não sou de fofoca, mas de vez em quando é bom a gente contar uma ou outra pra gente ver que nem sempre é brasileiro que inventa esse tipo de sacanagem.

Este fim de semana, a Wife e eu fomos pra Helsinki comemorar nosso terceiro aniversário de casamento. Foi lá na capital que a gente ficou sabendo dessa situação no mínimo muito enrolada. Eu diria até que é uma tremenda putaria. Safadeza mesmo, dessas que você ouve e pensa: "só pode ser novela". Nesse caso, não era.

A gente soube na noite de sábado. A parada foi escandalosa. Parece que um homem e uma mulher, entre 25 e 30 anos, estavam noivos pertos do casamento. O problema é que eles trabalhavam para o mesmo patrão, um coroa que queria porque queria levar a noiva do cara pra cama. Só que esse coroa ricaço era casado e morria de ciúmes da mulher. Ele ouviu dizer que um molecote estava tentando lhe dar uma bolada nas costas, entende? Não? Po, o garotão queria passar a perna no velho e lhe colocar um par de chifres enquanto ele só pensava em tomar a futura esposa do outro. O pior é que o muleque prestava uns serviços pra mulher do coroa e um dia quase que rolou um flagrante que certamente terminaria em morte. Se o garotão não tivesse fugido pela janela daria merda com certeza.

Eu avisei. Eu não falei que era sem-venhorguice? O pior é que não acaba por aí.

A Wife e eu estávamos ali na Mannerheimintie perto do Hesperian Puisto quando a gente ficou sabendo desse rolo. Eu não lembro bem dos detalhes, mas fiquei sabendo que quando o cara e a moça iam se casar, apareceu uma velha falando que o noivo era, na verdade, seu noivo. Ela tinha uns papéis e tudo comprovando. Num to dizendo? Não parece um daqueles casos que acontecem em novelas tipo "Tieta" ou em peça de Nelson Rodrigues? Nesse caso, porém, eu posso adiantar que não teve morte nem sangue.

No fim, os noivos se casaram. A velha que queria o noivo era na verdade a mãe dele (pasmem!). O coroa ricaço pediu e ganhou o perdão da mulher. O mulecote se deu bem e terminou dando uns peguetes numa das amantes do coroa ricaço. Enfim, parece que ficou tudo em paz no fim das contas.

Eu sei que mais tarde na noite de sábado, eu e a Wife só falávamos disso enquanto ela bebia uma cervejinha e eu me deliciava com um Mojito (caipirinha de mexicano) geladinho no bar do hotel. Você pode até pensar que é mentira, mas não é. O problema é que pode não ser necessariamente verdade. Vai saber... a parada começou a ser contada há muito tempo, e você sabe como é. Um aumenta aqui, outro ali... no fim, a gente fica com a versão que nos foi descrita nesse fim de semana.

Agora não vai sair por aí dizendo que eu falei isso ou aquilo. Afinal, todo mundo sabe que eu não sou de fofoca. Pra você ver que eu não estou de brincadeira, eu dou nome aos bois. Quem contou esse cenário pra gente foi um cara chamado Jussi, enquanto seu amigo Jan e os colegas dele tocavam uma música atrás da outra. O que sei é que esse papo está rolando desde 1786, quando um tal de Johannes cismou de dramatizar o caso.

Eu avisei, não era novela. Eu também avisei que não tinha brasileiro, se você pensou que eram finlandeses é por causa de suas próprias conclusões. Você está ouvindo de mim, mas não diz que fui eu quem começou com essa história. Pra não deixar dúvida, saiba:

A gente soube desse rolo na ópera.

"O Casamento de Fígaro" está em cartaz na Kansallisoopera (Ópera Nacional) pelo menos até Janeiro. A Ópera fica na esquina da Mannerheimintie com Helsinginkatu, número 58. Se você for de Tram (bondinho moderno), desça na parada Oopera, a primeira depois da Hesperian Puisto. A obra é dirigida por Jussi Tapola, a orquestra é regida por Jan Latham-König e foi escrita por W.A. Mozart, cujo primeiro nome de batismo e usado pelos íntimos era Johannes.

...

Foi maneiro demais ir à ópera, principalmente pra ver como ali aparecem vários elementos que hoje são muito comuns em filmes, musicais, novelas (agora entendi perfeitamente o soap opera, em inglês). Não há lugar melhor pra se brindar a alegria de estar junto com quem se ama. Parabéns e obrigado Wife.

* Desculpa o título do post. Sabe como é: sensacionalismo é o que a gente aprende na faculdade de jornalismo pra entrar no mercado... tem horas que é difícil se livrar desse mal. :)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Caralho!

Desculpa, não tinha outra palavra. E a falta da tarja preta censurando o palavrão também é proposital. Não tem outro jeito de demonstrar exatamente o que eu passou na minha cabeça assim que eu vi a primeira disputa no estádio do Centro Esportivo (Urheilukeskus) daqui de Lahti.

"Caralho", como você sabe, serve para expressar todos os tipos de emoções. Não é como "merda", que geralmente se refere à coisas ruins. No post em que descrevo como perdi na corrida pra um peladeiro finlandês, o que me veio à cabeça imediatamente foi um alto e sonoro "Merda!" assim que caí, seguido de um "Caralho..." suspirado na respiração esbaforida de um velho moribundo. Eu poderia ter gritado "Filho da puta!!!", mas convenhamos: a culpa do meu mal-estar físico não era do cara. O "Merda!" refletiu meu momento, e o "Caralho..." meu desespero. Mas eu também usaria a palavra pra comemorar um belo gol, por exemplo. Então "Caralho!" é o Bombril das emoções expressas em palavras.

No estádio, vi senhoras e senhores de todas as categorias entre 35 e 85 anos competindo no World Masters Athletics Competitions (WMA) realizado aqui na cidade entre o dia 28 de Julho e 08 de Agosto. Arregalei os olhos com as senhoras de 60 e poucos terminando 200 metros livres em menos de 40 segundos. Com o sorriso no canto da boca, meus olhos brilharam. Como o som dos cristais balançando ao vento e batendo levemente um no outro fazendo aquele som gostoso de mágica, as vibrações das minhas cordas vocais subiram pela minha garganta e, ao atravessar meus dentes, se fizeram ouvir levemente: "Caralho!" Em seguida, blasfemei colocando o Patrão logo depois da representação verbal da genitália masculina: "Meu Deus!"

Eu admito: quando saí de casa, pensei que veria os velhos correndo lentamente e se superando nas suas dificuldades. Que nada. Surpreso, acompanhei os milhares de expectadores nas palmas batidas dos primeiros aos últimos colocados. O som das mãos era orgulho para filhos, netos e talvez bisnetos. Também era a alegria de ver amigos terminando as provas e sorrindo. Pra mim, eram tapas, daqueles que se dão com as palmas e as costas das mãos, incessantemente, como se dissessem: "Toma isso! É para você aprender a não duvidar de nós! Nunca mais!!!"

O "Caralho!" de dor me saiu disfarçado no sorriso. Meus cotovelos doeram como se tivesse caído de bruços no asfalto da pista e olhado os senhores e as senhoras passando por mim e rindo como se eu fosse aquele menino engraçadinho e simpático na minha derrota, que ainda tem muito a aprender da vida. Enquanto os via passar feito mísseis, ou saltando feito crianças no banco de areia ou sobre a a barra, eu ficava admirado com seus corpos. "Aquele ali deve ter 30! É gato*, só pode!!!", resmunguei antes de ver no placar o indicador M65, indicando a idade mínima de cada competidor das categorias. O cara fez 200 metros em 23 segundos: "Caralho!!!!" "Mas todos eles já praticam esportes há séculos", questionou uma amiga.

Tá, pode ser. Mas no caso de Maria Correa Alves, por exemplo, eu vi uma história que parece ser muito comum entre os participantes. Ela nasceu em 1925 e sempre gostou de esportes. Só que no Espírito Santo, onde nasceu, não haviam incentivos e ela não fez nada até a idade adulta. Ao ver seus filhos já crescidos, ela decidiu correr. Por conta própria e quase sempre sem incentivo do governo, Maria já participou de maratonas no mundo todo, como a de Nova Iorque. Hoje, acompanhada da filha Nilda, sua fisioterapeuta, ela está participando dos jogos aqui em Lahti. Na semana passada, ela conquistou a medalha de prata na caminhada de 8 km. "Poxa, mas só foram duas competidoras", ela explica como se quisesse desmerecer sua medalha. Mas uma senhora de 83 anos que participa e termina 8 mil metros em 1h e 22min merece ou não medalha? Merece ou não ver um muleque invejoso de 30 anos pensar nela como um exemplo pra vida?

E não é só ela. O que mais se tem por aqui nesses dias são momentos propícios pra se sair por aí dizendo sonoros "Caralho!" aos ventos. Se você se acha acabado (a), olha o cara que parece ter sofrido AVC correndo os 200 metros. Se você se acha gordo (a), olha a senhora na categoria W75 correndo ao seu ritmo sacudindo sua pele flácida e seus "pneuzinhos" pra terminar a prova sob os aplausos das arquibancadas. É difícil sim, mas o que todos os participantes têm em comum - sejam os ex-atletas profissionais ou os amadores - é a vontade de viver bem e feliz consigo e com seu corpo. Querem viver mais e bem e pronto. Aí eu, na cadeira azul, ao sol, pensei: "Caralho..." não como "porra, os velhinhos lá correndo pra cacete e eu aqui na merda...", mas como "O que eu estou esperando pra transformar minha vida, meu corpo e tentar ser ainda mais feliz?"

...

* "Gato" é um termo do futebol que se refere a atletas que falsificam documentos para poder competir em categorias diferentes de sua real faixa etária.

Para ver e saber mais das competições, visite o site do WMA (clique aqui). Têm fotos e vídeos tb. Ainda esta semana eu voltarei ao estádio e vou tirar mais fotos pra colocar aqui (ou no flickr).

Este post é um complemento/resposta para o texto "É preciso mudar alguns hábitos" escrito pela Aline Pereira, no blog Manhã com Bafo de Menta.