O Léo continua na Finlândia, mas o blog chegou ao fim. As postagens favoritas do autor estão aí para a memória dele e de quem tiver sem nada melhor pra fazer além de ler blog velho. :) Qualquer coisa, entra em contato por e-mail: lecczz@gmail.com.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Bom do Outono - Parte 2

Não há coisa melhor do que aproveitar o ar molhado e a brisa fria pra dar uma corridinha (juro que não estou forçando barra pra gostar do Outono). Se você, como eu, acha que a academia fica insuportável com o calor incontrolado dos aquecedores, coloca seu tênis Goretex, sua roupa a prova de vento/d'água, e libere o Forrest Gump dentro de você.

Eu, correndo em Lahti às 16:00.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Caralho!

Desculpa, não tinha outra palavra. E a falta da tarja preta censurando o palavrão também é proposital. Não tem outro jeito de demonstrar exatamente o que eu passou na minha cabeça assim que eu vi a primeira disputa no estádio do Centro Esportivo (Urheilukeskus) daqui de Lahti.

"Caralho", como você sabe, serve para expressar todos os tipos de emoções. Não é como "merda", que geralmente se refere à coisas ruins. No post em que descrevo como perdi na corrida pra um peladeiro finlandês, o que me veio à cabeça imediatamente foi um alto e sonoro "Merda!" assim que caí, seguido de um "Caralho..." suspirado na respiração esbaforida de um velho moribundo. Eu poderia ter gritado "Filho da puta!!!", mas convenhamos: a culpa do meu mal-estar físico não era do cara. O "Merda!" refletiu meu momento, e o "Caralho..." meu desespero. Mas eu também usaria a palavra pra comemorar um belo gol, por exemplo. Então "Caralho!" é o Bombril das emoções expressas em palavras.

No estádio, vi senhoras e senhores de todas as categorias entre 35 e 85 anos competindo no World Masters Athletics Competitions (WMA) realizado aqui na cidade entre o dia 28 de Julho e 08 de Agosto. Arregalei os olhos com as senhoras de 60 e poucos terminando 200 metros livres em menos de 40 segundos. Com o sorriso no canto da boca, meus olhos brilharam. Como o som dos cristais balançando ao vento e batendo levemente um no outro fazendo aquele som gostoso de mágica, as vibrações das minhas cordas vocais subiram pela minha garganta e, ao atravessar meus dentes, se fizeram ouvir levemente: "Caralho!" Em seguida, blasfemei colocando o Patrão logo depois da representação verbal da genitália masculina: "Meu Deus!"

Eu admito: quando saí de casa, pensei que veria os velhos correndo lentamente e se superando nas suas dificuldades. Que nada. Surpreso, acompanhei os milhares de expectadores nas palmas batidas dos primeiros aos últimos colocados. O som das mãos era orgulho para filhos, netos e talvez bisnetos. Também era a alegria de ver amigos terminando as provas e sorrindo. Pra mim, eram tapas, daqueles que se dão com as palmas e as costas das mãos, incessantemente, como se dissessem: "Toma isso! É para você aprender a não duvidar de nós! Nunca mais!!!"

O "Caralho!" de dor me saiu disfarçado no sorriso. Meus cotovelos doeram como se tivesse caído de bruços no asfalto da pista e olhado os senhores e as senhoras passando por mim e rindo como se eu fosse aquele menino engraçadinho e simpático na minha derrota, que ainda tem muito a aprender da vida. Enquanto os via passar feito mísseis, ou saltando feito crianças no banco de areia ou sobre a a barra, eu ficava admirado com seus corpos. "Aquele ali deve ter 30! É gato*, só pode!!!", resmunguei antes de ver no placar o indicador M65, indicando a idade mínima de cada competidor das categorias. O cara fez 200 metros em 23 segundos: "Caralho!!!!" "Mas todos eles já praticam esportes há séculos", questionou uma amiga.

Tá, pode ser. Mas no caso de Maria Correa Alves, por exemplo, eu vi uma história que parece ser muito comum entre os participantes. Ela nasceu em 1925 e sempre gostou de esportes. Só que no Espírito Santo, onde nasceu, não haviam incentivos e ela não fez nada até a idade adulta. Ao ver seus filhos já crescidos, ela decidiu correr. Por conta própria e quase sempre sem incentivo do governo, Maria já participou de maratonas no mundo todo, como a de Nova Iorque. Hoje, acompanhada da filha Nilda, sua fisioterapeuta, ela está participando dos jogos aqui em Lahti. Na semana passada, ela conquistou a medalha de prata na caminhada de 8 km. "Poxa, mas só foram duas competidoras", ela explica como se quisesse desmerecer sua medalha. Mas uma senhora de 83 anos que participa e termina 8 mil metros em 1h e 22min merece ou não medalha? Merece ou não ver um muleque invejoso de 30 anos pensar nela como um exemplo pra vida?

E não é só ela. O que mais se tem por aqui nesses dias são momentos propícios pra se sair por aí dizendo sonoros "Caralho!" aos ventos. Se você se acha acabado (a), olha o cara que parece ter sofrido AVC correndo os 200 metros. Se você se acha gordo (a), olha a senhora na categoria W75 correndo ao seu ritmo sacudindo sua pele flácida e seus "pneuzinhos" pra terminar a prova sob os aplausos das arquibancadas. É difícil sim, mas o que todos os participantes têm em comum - sejam os ex-atletas profissionais ou os amadores - é a vontade de viver bem e feliz consigo e com seu corpo. Querem viver mais e bem e pronto. Aí eu, na cadeira azul, ao sol, pensei: "Caralho..." não como "porra, os velhinhos lá correndo pra cacete e eu aqui na merda...", mas como "O que eu estou esperando pra transformar minha vida, meu corpo e tentar ser ainda mais feliz?"

...

* "Gato" é um termo do futebol que se refere a atletas que falsificam documentos para poder competir em categorias diferentes de sua real faixa etária.

Para ver e saber mais das competições, visite o site do WMA (clique aqui). Têm fotos e vídeos tb. Ainda esta semana eu voltarei ao estádio e vou tirar mais fotos pra colocar aqui (ou no flickr).

Este post é um complemento/resposta para o texto "É preciso mudar alguns hábitos" escrito pela Aline Pereira, no blog Manhã com Bafo de Menta.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Aprendendo a viver aos 30 - Como a vida mudou na Finlândia

Perdi a bola numa das muitas trombadas com finlandeses troncudos e caí. Dobrei os joelhos, coloquei as mãos espalmadas no campo de terra batida e brita. Ali, com o joelho meio ralado e com a respiracão funda de um touro abatido e moribundo eu decidi dar um novo rumo na vida. As pernas pálidas que voavam por mim me abriram os olhos: ou eu cuidava mais de mim, ou a sensacão dos noventa aos trinta dominaria não só meu corpo, mas minha mente e definiriam de vez a morte da minha juventude.

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Quando vim do Brasil, meu estilo de vida padrão dos vinte-e-poucos da minha cidade na região metropolitana do Rio de Janeiro: trabalho e estudo o dia todo, choppinho no fim da tarde. Churrasco todo fim de semana, talvez com um quilo de carne e três caixas de Brahma. Festas, pouco sono, muita ressaca. Mediamos a resistência do corpo em aguentar mais álcool. Bons tempos sim, mas idos. Precisei vir pra Finlândia e não aguentar uma partida de futebol para acordar para a vida.

Fala-se muito que os finlandeses bebem demais. É verdade. Mas esquecem-se de falar que grande parte deles não são vistos caídos pelas tabelas dos pubs, esquinas e parques. Depois de perceber o péssimo estado do meu corpo, comecei a correr ao redor do Pikku Vesijärvi, em Lahti. Naquelas duas ou três voltas iniciais pra ganhar ritmo há um ano e meio atrás, eu via famílias jogando discos, brincando de badminton, correndo, andando de bicicleta, pescando. E se você pensa que isso se resume ao verão, você está enganado. Quando a neve cai e cobre tudo de branco e os corpos de goretex e lã, ainda se vêem jovens e não-tão-jovens esquiando aqui, caminhando ali, patinando acolá... E a inveja que eu fui sentindo foi me dando mais forca: como que eu, aos vinte e alguns, não tinha disposicão para nada?

Eu já havia tentando malhar antigamente, ainda em Magé, por diversas vezes. Mas por pura vaidade e só. Tinha que ficar sarado porque era estético, tinha que ficar "no estilo". Malhava de dia, bebia e fumava a noite (mesmo que o cigarro por mtas vezes só me fizesse sentir mal). Era a onda e eu tinha que ficar nela. Afinal, eu não era fraco. Mudei de ambiente e percebi que a fraqueza estava em mim. A vaidade me cegou das estatísticas que dizem que os finlandeses são obesos, que usam carros pra tudo... Para mim, eles são pessoas que cuidam de si, que voam pelos campos de futebol (ou arena de hockei, ou entre as bases do Superpesis), que aguentam passar dias subindo e descendo ladeiras a pé ou de bicicleta, dos que vestem roupas justas sem medo e sem "silhueta acentuada", apesar dos seus trinta, quarenta e tantos. Minha vaidade tem inveja desses. Dos pecados capitais surgiu a minha nova virtude.

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O vento soprava meu rosto enquanto o pensamento se perdia nas trilhas do meu mp3 player. Um par de Puma eu calçava, como uma puma eu me sentia. O Pikku Vesijärvi agora é uma parte pequena de um caminho que rodeia o centro de Lahti. A formação geológica da cidade garante subidas leves pela Harjukatu e longas pela Hirsimetsäntie, íngrimes pela Mustankalliontie, e retas planas pela marina às margens do Vesijärvi. Os morros e suas trilhas garantem os trajetos off-road. A cada passada, o pensamento mais distante da preguiça, a pele cada vez mais próxima dos músculos, o fôlego restaurado sem pausa. A dor me fazia cócegas, me fez rir ao constatar que ao virar a esquina, eu teria corrido milhares de metros que antes eu só seria capaz em tão pouco tempo se montado na motocicleta de outrora.

Coloquei as mãos espalmadas sobre a cerca da sacada do nosso apartamento e sentei. Dobrei os joelhos e me estiquei pelo chão. Com a respiração funda de um urso ao despertar, sorri ao ver que a vida está ótima do jeito que está. O suor escorria umidecendo a camisa e refrescando minha pele cada vez menos flácida. Essa semana, eu viro os trinta, mas sem a sensação dos noventa. Hoje, eu domino meu corpo e minha mente, onde minha juventude é eterna sem que morra, sem que me faltem pernas para acompanhar os fortes e ágeis peladeiros finlandeses.
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Há um ano, entrei na academia (Finnbody). De lá para cá, perdi quase 10 quilos, consigo abaixar para amarrar o tênis sem dobrar o joelho e sem perder a respiração, minha barriga de chopp finalmente está sumindo (finalmente aprendi o que é beber moderadamente). Ter vindo para a Finlândia ajudou muito: a cerveja é mais cara, os hábitos são diferentes... Mas se não tiver atitude, não há comida saudável e exercícios físicos que te façam sentir bem.
Minha meta agora é: terminar a corrida de São Sebastião, em Janeiro, no Rio, em 55 minutos. Eu hoje faço a distância em mais ou menos 1 hora. É pra esses cinco minutos que eu dedico cada pensamento na hora de comer, de beber, de dormir...de viver. E depois deles, eu penso em outra coisa pra continuar seguindo.
E você? No que pensa?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Spring and the colours of Finland

"It has been so cold here. Oh, my... I am already wearing some coats. You see, yesterday, in the late afternoon, it was about 18 degrees!!"

I heard this from my father last Sunday (Mothers' Day). I laughed. What else to do? If only he had seen how people here are happy in these early spring days. It hasn't reached the 20ies yet, but who cares? In Finland, even if it is still a bit chilly, just the idea of spring is enough to change the moods and the landscapes.

The darker and heavier clothes are slowly disappearing. They will be stored for the next frozen season along with the little rocks the cities spread around during winter so people won't go slipping and breaking bones on the icy streets. Luckily, the loud vehicles that clean the snow will hibernate and disappear for a while as well. On the other hand, it is time the colours make their way back, which leads me to make a (reasonable or weird, make your pick) proposal.

Finland should have two national flags for the two distinct countries it is. The current one is about the lakes and the snow, where the white prevails in the imaginary of those who have never been to the land of the thousands of drinkable-water lakes. People abroad (especially from warmer and remote places like, say, Rio) generally think of Finland as a branch of the North Pole where polar bears and Santa Claus live their regular lives in the cold. Many are unaware of the other Finland. The colourful and cheerful one. The one you would never guess from Kimi Räikkonen's unexistent smiles.

In this moment, still in the first weeks of spring, there are flowers everywhere. On the t-shirts and dresses, around the lakes or by the rivers, lining up the walking tracks., on the concrete walls in the city centres...yes, you read well. Because if there is a place flowers don't grow, no probs: Finns bring them ready-made from some greenhouse and place them everywhere. It is interesting to see people decorating the public spaces as if it was their own houses. In Rio (Brazil?), it is usually said that when something is public it means it has no owner, so you can mess up as much as you please. Here most of the people feel responsible and care for it as if it was their own yard. Totally understandable since in the spring and summer, people spend much more time outside than in.

The sun rises and shines at about 5 am now. It only sets after 10 pm. In the summer, the day will be much longer while the darkness takes (gives us) a break and saves its energy for working double shift in the winter. Since people are aware that sunny days are counted, every break in the day is an opportunity to go out. Families make picnics in the parks; workers make sure to walk a bit on their lunch/coffee breaks; rollerblades and bikes are dusted, oiled and put back to functioning; Restaurants and bars set their terraces for us to have a delicious cold beer enjoying the breeze under the sun...yes, Finland definitely needs another flag.

There should be a national symbol which represents not only snow and water, but the bright smiles of the kids running free of their waterproof winter gear; or the sunburned skin of those who are so eager to be in the sun that forget about the problematic relation between the UV rays and their extremely pale skin; or the grass that has grown extremely fast to hide the dog crap disclosed after the snow melted...anyway, I think I have made my point.

Now, let me put my Puma shoes on! Gotta run, guys! Literally. There is no better way of enjoying the colours of Finland than going out and being part of them.

:) Nähdään!