sábado, 8 de janeiro de 2011

A função do e-mail

Um relato sobre a relação entre empresas de serviços e clientes no Brasil e na Finlândia

Essa semana, eu e a Wife estávamos resolvendo a renovação de matrícula do meu afilhado em um curso de inglês no Rio. Na conversa com a secretária, por telefone, ela disse que só a diretora poderia responder a uma de nossas dúvidas. Como a diretora não estava lá, eu pedi um telefone de contato. "Não posso divulgar o telefone dela", respondeu. Pedi o e-mail. "O quê?" Repeti. "Ah, o e-mail ela tem, mas quase não usa". Insisti. "Ela estará aqui talvez na quarta ou na sexta, daí você pode ligar novamente." Da Finlândia? Ficou no ar aquele silêncio tipo "fazer o quê" ou "problema seu" ou "incomodado que se mude".

Está aí uma coisa com a qual eu vou demorar muito pra me readaptar enquanto estivermos no Brasil ou caso voltemos a morar lá. Aqui na Finlândia, praticamente tudo é resolvido pela Internet. E é resolvido mesmo. Serviços bancários, reserva de vaga em médico, serviços de impostos, desvinculação da igreja. Por isso, as pessoas levam e-mails muito a sério. Por exemplo, quando tiraram meu programa favorito do ar, mandei um email pra emissora e em algumas horas eles me explicaram o problema. Em outro caso menos fútil, precisei pedir mais um dia pra pegar um livro da biblioteca. Na manhã seguinte, a resposta da bibliotecária me dando mais um dia de reserva. E nessa, o e-mail vai deixando a vida de todo mundo mais simples.

No caso do nosso afilhado, o serviço que nos foi prestado foi tão ruim que decidimos procurar outra escola. Talvez se a diretora usasse mais seu e-mail, ela ouviria o que nós tinhamos a dizer. Mesmo discordando, se respondesse rápido sobre as nossas dúvidas, talvez nossa impressão sobre a escola mudasse. Talvez nos sentíssemos mais respeitados, tal qual na Finlândia. Dizem que o Brasil é um país atrasado. Besteira. Atrasadas são pessoas que, mesmo tendo ferramentas disponíveis, não fazem um esforço maior pra melhorar a maneira como as coisas são feitas por lá. De que adianta se transformar em uma grande potência econômica quando a mentalidade é de país rural do século XIX?

9 comentários:

Celia na Italia disse...

E olha que isto é só uma amostra deste atraso.
Que pena!

A. Paulsen disse...

Sim, as pessoas aqui têm uma resistência incompreensível à emails, e eu realmente não entendo o por quê. Um dos meus chefes falou, logo que entrou na empresa, que não é para eu passar nada desta forma porque ele não gosta de ler emails. Ele é o Controller de uma multinacional. Como pode?

Há dois meses mandei um email para um conhecido na Finlândia e ele me respondeu um dia depois, pedindo desculpa pela demora. Quase chorei de rir - um dia, considerando-se fuso e tudo, não é nada. Aqui no Brasil, as pessoas respondem quando querem, se querem, e você fica à mercê.

Às vezes sinto, com pesar, que a resistência ao avanço faz parte do 'consciente coletivo' brasileiro. E os que escapam remam contra a maré.

Ah, e obrigada por mais um post interessante sobre a cultura local. :)

Angela

Teea disse...

Nossa... ótimo post - triste, mas muito real.

bjos

Cristina disse...

Nossa disse tudo, sempre que precisei dos serviços aqui me atenderam tão bem !

Ah, se me permite tem uma coisa que eu acho que seria legal ver do ponto de vista de outra pessoa que também tenha vindo de fora morar aqui, o preconceito que o povo no Brasil tem com determinados tipos de trabalho que eu não vejo acontecer aqui !

Outra coisa, cabelo, ja vi gente em departamentos publicos lojas tudo que vc imaginar com os cabelos mais doidos possíveis, no Brasil essa pessoa seria a 1a a ser cortada da vaga...


Abraço,
Cristina

Teea disse...

Cristina, quanto ao "cabelo", acho que faz parte de "aqui as pessoas podem ser diferentes". Acho que Léo escreveu uma vez sobre isso... como não se ri às pessoas que não vestem como" todo mundo".

bjos

Tiago disse...

Acho interessante que muitos brasileiros não mandam e-mail mas respondem tudo rapidinho pelo Orkut.Já repararam isso gente?
Aqui nos E.U.A. o pessoal anda com a cara no telefone, é a moda do tal "texting" que pegou geral. Outro dia estava no restaurante e vi uma mãe e seus dois filhos com as caras nos telefones usando o texting.Fiquei pasmo.
Será que no Brasil o texting também pegou?

Léo C. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Léo C. disse...

É, acho que escrevi sobre esse lance de poder ser diferente por aqui em algum lugar (já publiquei e arquivei tanto post que nem lembro...rs). Vou ver se acho nessa arrumação que to fazendo.

Tiago,rola um papo que o sms foi inventado por um finlandês. Vou procurar saber e postar aqui.Mas no Brasil num sei como anda nao. Aqui é pra cima e pra baixo também.

Obrigado pelos comentários, pessoal.

Cíntia Echel disse...

Eu que o diga, viu?!
Aqui no trabalho, a gente fica direto em contato com todo mundo por e-mail e eu sinceramente prefiro mil vezes a internet ao telefone (embora saiba da necessidade de ambos). Mas para resolver certos assuntos, o telefone faz você dedicar seu tempo exclusivamente àquilo. A internet te permite ser multitarefa de fato...
Enfim, vc sabe como é meu trabalho aqui. É super comum ver Supervisores com contra-cheque acima de 15mil mensais que não sabem a diferença de algo com www ou @. O engraçado é que normalmente não é exclusão digital, é só desinteresse mesmo. Porque no Orkut, no Badoo ou em qualquer outro site pra "azarar" a mulherada, eles sabem mexer que é uma beleza. Mas quando é assunto sério, eles pedem pra gente mandar os e-mails porque eles não sabem nada "de computador".
O brasileiro no geral ainda usa muito a internet apenas pra "futilidades", não é só aqui na plataforma não...