Para muitos, o inverno na Finlândia traz um sentimento jururu que eventualmente extravasamos nas coisinhas bobas e impensadas que dizemos no dia-a-dia.
Esses dias, por exemplo, encontrei um africano conhecido distante na academia. Não sei vocês, mas o frio as vezes me faz querer ficar na minha, sem socializar, meio que pensando no falecimento da bezerra. Só que é preciso ser educado, né? Assim, fui no sarcasmo óbvio: "E aí? Curtindo o friozinho?" Com olhar sem-graça ele disse "é...", sorriu meia-boca e foi se matar no supino. Melhor assim. Mas as vezes a coisa sai da normalidade vazia.
Na última segunda, eu puxei o mesmo assunto com outro gringo. Aí o sorriso amarelo foi meu ao ouvir "claro que não estou curtindo, está muito frio. Mas está frio para todos, pois somos todos humanos. Finlandeses também sofrem." Doeu, mas mereci. Minha piadinha cotidiana carregava a idéia torta (que muitos acreditam como verdade) de que finlandeses são ursos polares. Quantas vezes a gente destila nosso lado superficial nessas coisinhas bobas do cotidiano? Quantas vezes a gente destila nosso lado desumano nos nossos pitis nas manhãs antes do café (ou seja lá qual o ápice do seu mau-humor)?
Ontem, depois de uma noite mal-dormida, acordei às cinco com um barulho distante vindo lá de fora. Não perdi tempo: "é esse maldito trator que remove a neve de novo! Essa hora é sacanagem." Foi automático, sem pensar culpei um outro disponível pelos meus problemas. Quantas vezes não despejamos a razão dos nossos males numa realidade que nem nos esforçamos para entender?
Tem gente, por exemplo, que nestes tempos de tensão diz que o Rio seria muito melhor se as favelas tivessem o destino de Hiroshima. Do mesmo jeito eu achei que meu sono seria mais longo se não fosse aquele "filho da puta". Mas assim como eles não se lembram que muitas vezes muitas pessoas das favelas sustentam suas rotinas, minha juruzice me fez ignorar o(a) camarada atrás do barulho do trator.
Neve é linda e romântica, mas causa tanto sufoco quanto as águas de verão na terrinha. Quando a neve acumula, atrapalha o trânsito. Quando derrete e congela, causa vários acidentes. É aí que entra o pessoal do trator. Eles acordam lá pelas duas ou três da manhã num frio danado, bebem um café pra esquentar, colocam tantas camadas de roupa, pegam o tratorzinho e saem a tirar a neve e espalhar pedrinhas anti-derrapantes nas ruas, calçadas e até quintais. Por causa do escuro, o trator emite um beep constante pra evitar acidentes. Ou seja, não é o barulho maldito, mas a música da nossa conveniência urbana.
Conveniência e conforto que nutrem nosso egoísmo que nos faz esquecer que as vezes é preciso segurar a onda e pensar por uma fração de segundos antes de extravasar. Palavras bobas, besteirinhas, tem mais impacto e importância na nossa vida e consequentemente na vida alheia do que geralmente nos damos conta
Esses dias, por exemplo, encontrei um africano conhecido distante na academia. Não sei vocês, mas o frio as vezes me faz querer ficar na minha, sem socializar, meio que pensando no falecimento da bezerra. Só que é preciso ser educado, né? Assim, fui no sarcasmo óbvio: "E aí? Curtindo o friozinho?" Com olhar sem-graça ele disse "é...", sorriu meia-boca e foi se matar no supino. Melhor assim. Mas as vezes a coisa sai da normalidade vazia.
Na última segunda, eu puxei o mesmo assunto com outro gringo. Aí o sorriso amarelo foi meu ao ouvir "claro que não estou curtindo, está muito frio. Mas está frio para todos, pois somos todos humanos. Finlandeses também sofrem." Doeu, mas mereci. Minha piadinha cotidiana carregava a idéia torta (que muitos acreditam como verdade) de que finlandeses são ursos polares. Quantas vezes a gente destila nosso lado superficial nessas coisinhas bobas do cotidiano? Quantas vezes a gente destila nosso lado desumano nos nossos pitis nas manhãs antes do café (ou seja lá qual o ápice do seu mau-humor)?
Ontem, depois de uma noite mal-dormida, acordei às cinco com um barulho distante vindo lá de fora. Não perdi tempo: "é esse maldito trator que remove a neve de novo! Essa hora é sacanagem." Foi automático, sem pensar culpei um outro disponível pelos meus problemas. Quantas vezes não despejamos a razão dos nossos males numa realidade que nem nos esforçamos para entender?
Tem gente, por exemplo, que nestes tempos de tensão diz que o Rio seria muito melhor se as favelas tivessem o destino de Hiroshima. Do mesmo jeito eu achei que meu sono seria mais longo se não fosse aquele "filho da puta". Mas assim como eles não se lembram que muitas vezes muitas pessoas das favelas sustentam suas rotinas, minha juruzice me fez ignorar o(a) camarada atrás do barulho do trator.
Neve é linda e romântica, mas causa tanto sufoco quanto as águas de verão na terrinha. Quando a neve acumula, atrapalha o trânsito. Quando derrete e congela, causa vários acidentes. É aí que entra o pessoal do trator. Eles acordam lá pelas duas ou três da manhã num frio danado, bebem um café pra esquentar, colocam tantas camadas de roupa, pegam o tratorzinho e saem a tirar a neve e espalhar pedrinhas anti-derrapantes nas ruas, calçadas e até quintais. Por causa do escuro, o trator emite um beep constante pra evitar acidentes. Ou seja, não é o barulho maldito, mas a música da nossa conveniência urbana.
Conveniência e conforto que nutrem nosso egoísmo que nos faz esquecer que as vezes é preciso segurar a onda e pensar por uma fração de segundos antes de extravasar. Palavras bobas, besteirinhas, tem mais impacto e importância na nossa vida e consequentemente na vida alheia do que geralmente nos damos conta
...propositalmente terminando sem ponto caso queiram adicionar alguma coisa nestes pensamentos soltos em tempos de caos social e, sobretudo, humano...

6 comentários:
O pai do Lars (já falecido) dirigia esse trator, Leo. O telefone tocava na casa deles às 3, 4 da manhã quando precisava ir tirar a neve em algum canto... Dureza!
Que os noruegueses não são ursos polares eu desconfiava... Mas o meu é mesmo, que só agora deu o braço a torcer e deixa eu fechar a janela à noite...
beijo
Léo, seus textos estão cada vez melhores e são tão pertinentes!
Esse me fez lembrar das aulas de Patrícia Saldanha. O espírito comunitário anda tão em falta, né?!
Poxa Léo...pior que é verdade!!!Ando tão irritada ultimamente que praticamente todos os dias estou lançando minhas pérolas ao ar. Lógico que quem está perto de mim termina ficando irritado também. Estou precisando segurar minha onda e tentar ver o lado positivo das coisas. Valeu pelo post!!!
Eu só gostaria de acrescentar as besteirinhas que falamos pra fingir que pensamos. Com essa onda de blog/ twitter e aquele espaço pra escrever qualquer coisa no Facebook, cada vez mais as pessoas sentem vontade/ necessidade de discutir sobre os assuntos da moda (e o caos no RJ pegou com td na net, claro!).
Já ouvi de tudo um pouco lá. Culpam os moradores, a polícia, os maconheiros, o Adriano e o Wagner Love... Enfim, muito simples estar dentro de suas casas "tuitando" sobre o q estão vendo na TV, difícil é aceitar que essa realidade está ali não de agora, mas enquanto não estava "pegando", estava tudo certo. Até iam para os bailes funk no morro, cantar músicas de apologia ao crime, exaltando esse "poder paralelo" que parecia até bonzinho, até que o dia da privada entupir e espalhar "água suja" (por assim dizer) chegou. Agora todos têm sua fórmula ideal pra resolver o problema. Falam do assunto como se fosse a escalação da seleção para o próximo jogo.
Mas o que é de f#der o juizo mesmo é um tipo de gente que nunca nem esteve no RJ, filosofando sobre isso tudo, dizendo o que deve ou não ser feito e de quem é a culpa. Que somos subconcsiente maldosos e egoístas às vezes (tipo vc que não pensou no cara do trator) é normal, é humano. Mas essa modinha de forçar cultura e sabedoria realmente me irrita muito. Por isso a maioria dos meus comentários a respeito do caos são deboches ou ironias, nada de soluções ou planos infalíveis. E só!
Duas coisas que tenho pensado muito nos últimos tempos surgiram nesses comentários:
Uma é a questão da bola de neve que é a juruzice. No fim, qdo a gente acha que tá desabafando ou estourando, a gente fica pior e faz os outros ficarem mal tb, como disse a Márcia. É importante encontrar maneiras de conversar ao invés de soltar os bichos. É isso que tenho tentado, mas é preciso dedicação pq o impensado é mais arisco e aparece com mto mais facilidade.
A outra é essa coisa da internet. Tenho pensado muito sobre um texto acadêmico sobre o lado ruim da net ou como as pessoas distorcem liberdade de expressão por liberdade pra falar besteira. Valeu, Cintia. Agora sei que o tema é pertinente (é sempre bom ouvir outra pessoa :) ).
Valeu pela troca, pessoal.
Na boa, adoro seus textos amigo! E me sinto um pouco nessa realidade. Trabalho em Queimados e todos os dias quando chego ouço a piadinha "E aí, teve que vir correndo dos tiros?!". Claro que eu em meu comportamento cristão me seguro para não descontar na pessoa todo o estresse que tenho passado por conta da aflição de morar tão perto de tudo que está acontecendo. O mais sem noção é que as pessoas esquecem que eu estou no trabalho, mas minha filha tá na creche, bem longe de mim, bem perto do caos... Acho que não é apenas falta de noção, há sem sombra de dúvidas doses de falta de humanidade... Real: Desabafei como nos dias no facul! rs
Postar um comentário